No âmbito do Dia da Mulher, a RHmagazine foi conversar com Carolina Afonso, CEO da Gato Preto há mais de um ano, sobre liderança feminina, equidade de género, políticas de diversidade e inclusão e, por último, mas não menos importante, transformação digital.
Quais têm sido os maiores desafios ao ter assumido um cargo de liderança, principalmente, sendo mulher?
Comecei a trabalhar na área da tecnologia há 15 anos, numa altura em que este mercado era predominantemente masculino. Tive então de superar a barreira inicial de estar neste ambiente, provar o meu valor e liderar equipas num cenário onde havia pouca presença feminina. Foi um desafio que superei com determinação e autenticidade.
Outro dos desafios foi ter começado a dar aulas como professora na universidade muito nova. Tinha na altura 30 anos e aparentava ter ainda menos 10 anos, ou seja, não correspondia ao estereótipo do professor universitário. Também nesse contexto senti que tinha de conquistar a audiência e provar o meu valor.
Hoje, vejo isso como uma experiência valiosa que fortaleceu a minha liderança. Atualmente diria que não sinto qualquer barreira ou entrave por ser mulher nem tão pouco que tenha de estar constantemente a demonstrar o meu valor enquanto profissional.
Um estudo europeu aponta que o rendimento das mulheres baixa em 30% depois de terem filhos, ao contrário do rendimento dos homens. Como abordam questões cruciais como a igualdade, transparência salarial e oportunidades justas para todos os colaboradores?
O Gato Preto é uma empresa maioritariamente feminina. Cerca de 81% dos colaboradores são mulheres. A nossa preocupação está na promoção da equidade, não só de género, mas baseada na competência e profissionalismo. As empresas devem promover condições iguais de acesso a cargos, sendo a escolha recaída por aqueles que são mais competentes.
Embora reconheça desafios enfrentados por mulheres, acredito que incentivar e proporcionar condições para que todas se destaquem é fundamental. No Gato Preto, trabalhamos para garantir transparência salarial e oportunidades justas, promovendo uma cultura inclusiva.
E estão a dar voz a temas estruturantes e críticos ao nível da diversidade e inclusão? Existem iniciativas específicas, neste âmbito?
A diversidade e inclusão são valores fundamentais no Gato Preto. Somos uma empresa presente em três mercados: Portugal, Espanha e França e temos escritórios e lojas físicas na península ibérica. A multiculturalidade faz parte do nosso ADN precisamente por termos esta presença em vários países com colaboradores de diversas origens. Implementamos iniciativas que visam promover a diversidade em todos os níveis da empresa. Isso inclui programas de formação, sensibilização e criação de um ambiente de trabalho inclusivo. Acreditamos que a diversidade impulsiona a inovação e fortalece a nossa equipa.

Carolina Afonso foi uma das responsáveis pelo processo de digitalização do Grato Preto. O que mudou, ao longo da vossa jornada de transformação digital? Sentiram resistência por parte dos colaboradores?
Qualquer processo de transformação digital que se queira bem sucedido está assente em três eixos: tecnologia, processos e pessoas. Não é possível implementar esta estratégia se estes três eixos não existirem e não estiverem interligados. O processo de digitalização no Gato Preto foi essencial para acompanhar as mudanças globais do sector. A nossa premissa é estar onde está o nosso cliente. A pandemia acelerou muito este processo de transformação digital, sendo que a nossa loja online durante muito tempo era a única “porta aberta”, onde o cliente podia adquirir os nossos produtos. Tivemos de montar todo o ecossistema digital, implementámos tecnologias inovadoras para otimizar processos e melhorar a eficiência. Embora tenha havido desafios, a nossa equipa demonstrou uma incrível capacidade de adaptação. Facilitamos a transição com formação contínua e comunicação transparente, o que minimizou a resistência e contribuiu para o sucesso da transformação digital.
Foi uma oportunidade também para fazer reskill dos colaboradores e também upksill para aquisição das competências-chave para implementar com sucesso uma estratégia omnicanal.
Foi reconhecida pela Forbes como uma das 50 líderes portuguesas mais poderosas do mundo dos negócios. Como olha para o futuro das mulheres em cargos de liderança? Estamos no bom caminho?
Observo com otimismo o crescimento das mulheres em cargos de liderança. Embora haja desafios históricos a superar, vejo cada vez mais mulheres empoderadas e seguras de si, aceitando desafios de liderança. Defendo a meritocracia e acredito que o futuro será mais justo e equilibrado. No entanto, ainda há trabalho a fazer para alcançar um equilíbrio total, e é crucial continuarmos a apoiar e incentivar as mulheres em todos os setores.