Os trabalhadores imigrantes em Portugal desempenham um papel fundamental em setores com escassez de mão-de-obra nacional, mas enfrentam níveis mais elevados de precariedade laboral e de sobrequalificação. Esta são as principais conclusões do estudo “Mitos e Realidades Sobre a Migração e o Mercado de Trabalho”, divulgado terça-feira pela Randstad Research.
Baseado em dados do Ministério do Trabalho, Instituto do Emprego e Formação Profissional, Instituto Nacional de Estatística e Eurostat, o relatório traça um retrato atualizado da integração dos imigrantes no mercado de trabalho português. Os autores alertam para a persistência de perceções erradas em torno da migração laboral, procurando, com este estudo, “desmistificar ideias feitas e reforçar os factos”.
No final do ano passado, Portugal contava com 346.800 estrangeiros ativos, das quais 302.200 estavam empregados e 44.600 desempregados. A maioria encontra trabalho em setores tradicionalmente pouco procurados pelos portugueses ou que enfrentam escassez de talento, como a hotelaria, a limpeza, a construção civil e a agricultura. Nestes setores, representam proporções significativamente superiores às dos trabalhadores nacionais: 20,8% nas atividades administrativas e serviços de apoio (que incluem limpeza), 18,3% na hotelaria, 12% na construção e 6,2% na agricultura.
Já em áreas como administração pública, saúde, educação ou consultoria científica, a presença de imigrantes é substancialmente menor. Para os autores do relatório, esta sub-representação poderá estar relacionada com a exigência de nacionalidade portuguesa, barreiras linguísticas ou a falta de reconhecimento de qualificações obtidas noutros países.
Talento desaproveitado?
Cerca de 35,8% dos trabalhadores estrangeiros estão vinculados a contratos temporários, mais do dobro da média nacional (15,9%), e 11,2% trabalham a tempo parcial, contra 8,1% da população total. «
Quanto aos níveis de qualificação, 31,6% dos imigrantes residentes têm ensino superior e 43,6% frequentaram o ensino secundário ou pós-secundário, valores que superam a média da União Europeia. Contudo, 42,8% exercem funções abaixo das suas competências académicas, contra apenas 15,7% da população total.
O relatório destaca ainda que mais de metade dos imigrantes trabalha em funções não qualificadas (29,7%) ou em serviços pessoais, segurança e vendas (22,4%). Já em profissões de maior exigência técnica ou científica, a presença de estrangeiros continua a ser residual.
Contributo positivo para a Segurança Social
Apesar da taxa de desemprego entre a população imigrante ser mais elevada (11,9%) do que a da população geral (6,6%), o relatório mostra que a taxa de desemprego de longa duração entre estrangeiros é 16,7 pontos percentuais mais baixa. A Randstad Research aponta ainda para a sazonalidade acentuada do desemprego entre imigrantes, o que sugere desafios contínuos de integração plena e estável.
Outro dado relevante prende-se com o impacto económico. Em 2024, os imigrantes contribuíram com 3.645 milhões de euros para a Segurança Social, tendo recebido 687 milhões em prestações, o que resultou num saldo positivo de quase três mil milhões de euros.
Além disso, o crescimento da população estrangeira residente tem sido acentuado nos últimos anos. Em 2023, Portugal ultrapassou pela primeira vez a marca de 1,04 milhões de residentes estrangeiros, com 177.557 novos imigrantes permanentes registados, quase o triplo face à média anual da década anterior. Para os autores do estudo, esta evolução transformou profundamente a realidade demográfica nacional.
Mais de 55% da população imigrante tem entre 20 e 44 anos, um contraste claro com os 29% de portugueses nessa faixa etária.
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