O pressuposto de base da mente autoritária é o de que “a verdade é só uma” e, portanto, todos os que a não aceitam estão, por consequência, errados. E a confusão, muitas vezes completamente intencional e estratégica, entre “a verdade” e “a minha verdade”, tem constituído desde sempre o principal alicerce de todas as práticas repressivas e totalitárias, porque, como salientava o Palmström de Christian Morgenstrern, todos os autoritários “concluem à ponta de espada que o que não deve ser não pode ser”.
Se fizermos uma leitura mais abrangente desse conceito de “ponta de espada”, não o restringindo apenas à noção de violência física, é facto que todos os autoritários exercem uma qualquer forma de coação para impor os seus ”modelos do mundo” aos outros, sendo que, por consequência, qualquer ato autoritário, seja qual for a sua manifestação e a sua circunstância, constituirá sempre uma forma de limitar a livre expressão dos direitos dos outros à sua individualidade e à plena expressão da particularidade das suas ideias e dos seus valores.
As formas de coação, cuja natureza depende do poder, da pressuposta legitimidade e da criatividade de quem as pratica, reduzem aquilo que Stephen Covey designava como o “ar psicológico” de cada pessoa, ou seja, essa sensação de que habitamos um espaço em que podemos ser nós próprios e exprimir a plena expressão da nossa vontade e das nossas opiniões, desde que, naturalmente, o queiramos fazer. E, tal com o acontece quando estamos fisicamente com “falta de ar”, a redução do “espaço psicológico” leva-nos fundamentalmente a dois tipos de comportamento: ou contraímo-nos, para gastar o mínimo de energia indispensável à sobrevivência, ou então, num movimento contrário, reagimos de forma mais ou menos violenta contra os agentes tóxicos que nos limitam.
Não sendo intenção deste texto fazer uma análise aprofundada do autoritarismo, nas multiplicidade das suas manifestações, limito-me a salientar que qualquer forma de imposição de uma visão do mundo e das realidades do quotidiano assente em bases de “razão dogmática”, constitui a manifestação de formas de intolerância que revelam, por parte de quem as pratica, laivos de omnipotência que, em última análise, e num rasgo de psicologismo talvez um pouco apressado, têm sempre sedimentos em personalidades de pendor narcisista.
E conhecemos manifestações deste tipo nas mais variadas situações do quotidiano.
Nas lideranças, por exemplo, provavelmente todos nós já experimentámos uma paleta diversificada de emoções negativas perante líderes (ou, simplesmente, chefes) que, seja por coação direta, seja por insidiosas práticas manipuladoras, tentam “dar a volta”, como se dizia antigamente, aos seus colaboradores, sempre na procura da melhor forma de lhes impor a ideia de que o que (para eles) não deve ser, …então não pode ser.
Na chamada vida pessoal, também seguramente conhecemos amigos, ou simplesmente pessoas conhecidas, que exibem indícios mais ou menos inequívocos de tendências dogmáticas e impositivas, como, por exemplo, aquelas pessoas que querem, à “viva força” ter sempre razão em tudo e que projetam sobre nós a sua voz acutilante, acompanhada de um olhar altaneiro em voo rasante sobre o alto da nossa cabeça.
Há ainda outro tipo de comportamentos que, muito embora possa não traduzir imediatamente uma atitude intencionalmente impositiva, podem ter como consequência gerar um efeito “químico” não muito positivo nos outros, como, por exemplo, o daquelas pessoas que, ao interagir connosco, estão sempre a “agarrar-nos”, a puxar pelo nosso braço, como uma forma de garantir a nossa atenção permanente.
Quaisquer que sejam as manifestações de práticas dogmáticas e autoritárias, desde as mais “hard”, mais graves às mais “soft”, mais subtis e disfarçadas, constituem sempre formas de desvalorizar (ou aniquilar) as diferenças, e são hoje particularmente inquietantes num mundo que, apesar de todas os acontecimentos recentes que apresentam graves indícios do ressurgimento de ideologias e práticas totalitárias, tem vindo a prosseguir um percurso coerente no sentido da valorização da pessoa, com tudo o que isso inclui de defesa do direito de cada um à sua singularidade.
Por isso, e como os direitos humanos nunca são um dado adquirido, o desafio que temos pela frente é o de agirmos nos nossos “círculos de influência”, nas empresas, nas famílias, nas práticas quotidianas de cidadania, para que, a cada dia que passa, possamos agir no sentido de que o “dever ser”, seja sempre uma construção sinergética entre significados partilhados e vontades comprometidas nesse empreendimento maior que é a edificação progressiva de um maior progresso humano.