Para tirar o melhor partido de uma ferramenta é necessário perceber como ela funciona, de compreender o contexto em que ela se insere e questionar o seu design.
Tal como alguém retira informação de um livro para compreender um tema ou assunto, a Inteligência Artificial (IA) também necessita de ser compreendida, por parte do leitor. Compreender a Inteligência Artificial é uma realidade que muitas empresas estão a aceitar como fundamental para o seu desenvolvimento. No entanto, muitas lideranças ainda estão longe de atingir esse objetivo dentro das organizações.
Um estudo da Boston Consulting Group (BCG) indica que apenas 10% das empresas estão a capitalizar a IA generativa e a liderar a expansão da tecnologia em toda a sua organização. Ao mesmo tempo, a consultora estima que, para numa empresa com uma receita de 20 mil milhões de dólares, a IA generativa pode gerar lucros entre 500 milhões e mil milhões de dólares, sendo que quase um terço surge nos primeiros 18 meses.
“As empresas que têm adotado a IA Generativa mais lentamente ou que ainda não a introduziram de todo devem arriscar mais, tomar medidas decisivas e aumentar as suas aspirações em relação à tecnologia tendo em conta as vantagens que a sua adoção traz para as operações e para o negócio”, afirma Tiago Kullberg, Managing Director e Partner da BCG em Lisboa.
Para muitos especialistas, garantir uma literacia básica em IA permite que todos partilhem um nível de conhecimento e aptidões basilares de modo a tirar o melhor partido do potencial destas ferramentas ou aplicações
De modo a garantir que a transformação digital tem sucesso, investir na literacia em inteligência artificial é absolutamente crítico. Em vez de proibir o uso destas ferramentas — como algumas empresas já o fizeram, nomeadamente aquando do aparecimento do ChatGPT — há que “apanhar o comboio” o quanto antes.
Numa entrevista à CNN, Paulo Dimas, vice-presidente de inovação da Unbabel e CEO do Center for Responsible AI, acredita que as ferramentas de IA Generativa não só vão aumentar a produtividade como também tornar essencial o investimento na capacitação literária dos utilizadores.
“É preciso usar, até porque isso vai aumentar as nossas capacidades como seres humanos. Proibir o uso destas ferramentas não faz sentido (…) Há sempre receios, mas às vezes são tomadas decisões por grande iliteracia em inteligência artificial”, defende Paulo Dimas.
Recentemente, outros setores também já começaram a elaborar algumas linhas guia sobre o uso ético da Inteligência Artificial. No ramo da biomedicina, foi divulgado há um mês o “Livro Branco Inteligência Artificial”, que inclui um conjunto de inquietações sociais, propostas éticas e orientações políticas relativamente à aplicação da Inteligência Artificial.
De acordo com o jornal Público, Rui Nunes, um dos autores do livro, explicou que, numa altura em que a “IA está a controlar e a permear todos os aspectos das nossas vidas”, o Livro Branco pretende “iniciar um debate, a nível nacional, sobre a literacia desta matéria”, reflectindo um “conjunto de recomendações” para profissionais de saúde e sociedade civil que também podem ser tidas em conta pelo poder público.
A Microsoft, por exemplo, está empenhada em dar a todos os colaboradores uma progressiva aprendizagem e adoção das ferramentas de IA, como o Microsoft Copilot – uma ferramenta introduzida que agrupa diferentes plugins do ChatGPT e tem como intuito ajudar o utilizador a trabalhar de forma mais produtiva – que já se encontra disponível para todos os colaboradores da empresa e para o público em geral.
“Na nossa área, a adoção do Copilot para Microsoft 365 significa que passámos a gastar menos tempo em tarefas rotineiras e mais tempo em iniciativas estratégicas que impulsionam o nosso negócio, elevando o lado humano dos Recursos Humanos”, explica Maria Kol, HR Country Lead da Microsoft.
Além da biomedicina, o Parlamento Europeu aprovou as alterações à proposta de regulamento de inteligência artificial (RIA), com várias alterações face à abordagem inicial aplicável aos sistemas de IA.
Entre as alterações à proposta do RIA apresentadas pelo Parlamento Europeu, destaca-se o alargamento do âmbito a sistemas de IA com base em machine-learning e processamento de linguagem natural. Foram, também, incluídos os conceitos de modelo de base e de sistema de IA de uso geral, bem como um conjunto de obrigações associadas.
Esta proposta, aprovada em outubro de 2023 constituiu, assim, um “desvio” à abordagem inicial à regulação aplicável aos sistemas IA assente, não no tipo de tecnologia, mas, antes, no uso que é feito da mesma, através, entre outros aspetos, da classificação dos sistemas de IA de acordo com os níveis de risco para a saúde e segurança ou direitos fundamentais.
Obstáculos comuns à literacia essencial na Inteligência Artificial
Em algumas profissões, a compreensão das funcionalidades da inteligência artificial está a tornar-se fundamental. Além disso, especialistas afirmam que a literacia é fundamental para uma adoção informada e responsável.

Maria Kol, HR Country Lead da Microsoft, admite que existem alguns obstáculos que podem dificultar o desenvolvimento dessa literacia, sendo um deles o medo do desconhecido pela falta de compreensão da forma como a IA funciona e de como pode ser incorporada no negócio e dia a dia de trabalho, com o objetivo de otimizar resultados e melhorar os processos de trabalho.
“O tempo e disponibilidade para aprender é também um desafio, na medida em que a literacia em IA exige tempo e dedicação para aprender os conceitos básicos”, explica Maria Kol.
A HR Country Lead acrescenta outra dimensão a este desafio, o investimento necessário para interpretar a IA, uma vez que entender informações mais técnicas sobre a mesma e aplicá-las na prática em ambientes pessoais ou profissionais de forma eficaz requer “dedicação e esforço”.
“Adicionalmente, um outro desafio no desenvolvimento da literacia essencial é o processo de adoção, que exige muitas vezes a necessidade de transformação do próprio negócio e processos internos, desde a seleção de ferramentas até a integração em fluxos de trabalho, o que pode ser complexo e demorado não permitindo muitas vezes ter uma clara visão sobre futuros ganhos de produtividade”, acrescenta.
“[O processo de adoção da IA] Não será também um trabalho para apenas uma unidade de negócio, mas sim o resultado de uma revisão holística dos processos internos da organização mediante uma visão que tem de ser, muitas vezes, aplicada top down”, clarifica Maria Kol, HR Country Lead da Microsoft.
Quatro passos para as empresas introduzirem a Inteligência Artificial
Além de ajudar a reconhecer a presença e a influência da IA no nosso dia-a-dia, a alfabetização em IA também permite compreender os princípios e conceitos básicos de como estas ferramentas funcionam.
A BCG destaca quatro passos importantes para as empresas que ainda não adotaram a Inteligência Artificial:
- Transformar os líderes em atores informados, procurando que se cultivem sobre o valor da IA Generativa e pressionando as organizações a adotar a tecnologia;
- Começar com um pequeno número de aplicações, aproveitando o facto de as mais relevantes por setor já serem conhecidas;
- Aproveitar parceiros externos no início, confiando em plataformas de IA Generativa já desenvolvidas e prontas a utilizar, o que lhes permite adaptar-se à evolução do mercado, implementar soluções mais rapidamente e avançar nesta área;
- Adaptar a liderança às necessidades dos projetos de IA Generativa.
Empresas que já aplicam a Inteligência Artificial no seu negócio e que têm feito esforços para educar os seus colaboradores no uso ético destas ferramentas têm evoluído. No entanto, mais do que tirar o máximo potencial destas ferramentas, as organizações têm que desenvolver diretrizes e políticas claras para garantir que o uso é responsável, assegurando a proteção da empresa e dos seus colaboradores.