A escrita formal, alfabética, desde que foi inventada pelos fenícios no séc. IV, a.c., sempre foi considerada como a base mais sólida de comunicação entre as diversas comunidades humanas, sendo-lhe atribuído um caráter de maior “seriedade” e menor volatilidade do que a expressão oral. Esse atributo de “seriedade”, associado a uma certa noção de perenidade, está bem patente na linguagem popular através de expressões como “onde é que isso está escrito?”, usada para, numa discussão, um dos interlocutores procurar apoucar as opiniões de um outro, ou então, e no seu contrário, alguém sustentar a credibilidade das suas asserções através da conhecida alegação de que, “isso está escrito”, ou então “já vi isso escrito em qualquer lado”.
Atualmente, no entanto, o espantoso progresso das tecnologias digitais e da Inteligência Artificial, concretamente nas suas aplicações à elaboração de textos, parecem estar a ameaçar a importância atribuída ao texto escrito, “democratizando” a sua utilização a tal ponto, que mesmo aqueles que “não sabem escrever”, podem elaborar facilmente textos com uma qualidade no mínimo aceitável.
Um dos expoentes máximos dessa, chamemos-lhe, “democratização”, é, como se sabe, a atual utilização do ChatGPT.
Não entrando em considerações de natureza técnica, para a qual não me sinto de todo qualificado, interessa-me, nesta reflexão, sobretudo o significado e o impacto que estes desenvolvimentos tecnológicos têm, ou podem vir a ter, no contexto das interações humanas e na natureza das práticas usadas para gerir pessoas, numa época em que se pugna por “aprender humanidade na era das máquinas”, com bem salienta Kevin Roose, no seu livro “Future Proof” (2021).
Se considerarmos a opinião de Roose, no livro atrás mencionado, de que “quando escondemos ou eliminamos o esforço humano por trás de alguma coisa, geralmente desvalorizamo-la”, a elaboração, por exemplo, de um texto escrito a partir do ChatGPT, exigirá o esforço humano sobretudo de recomposição de um texto já previamente formatado, que será naturalmente menor do que o esforço despendido a elaborar um texto “de origem”. Nesse sentido, e de acordo com a perspetiva de Roose, o “valor” do texto escrito “de origem”, será obviamente maior do que o valor do texto recomposto a partir do ChatGPT, ou de qualquer outro modelo de linguagem que venha a ser criado.
Por outro lado, e se considerarmos também que o texto escrito ainda é um recurso importante para avaliar, por exemplo, a qualidade de um CV, ou simplesmente para formar uma opinião em relação a determinado autor, será que o recurso cada vez mais expandido à Inteligência Artificial Generativa, não irá inevitavelmente conduzir a uma progressiva erosão da particularidade e da expressividade individuais?
No plano em que me coloco nesta reflexão, julgo que os muito próximos e vertiginosos desenvolvimento da IA poderão efetivamente conduzir a uma certa, chamemos-lhe, “erosão de humanidade” em muitas áreas e atividades humanas.
Se os textos escritos evoluírem de facto para uma certa indiferenciação de estilos, poderá acontecer que a expressão oral, essa sim que não pode ser facilmente substituída a nível pessoal, pelo menos por enquanto, poderá vir a readquirir uma maior importância enquanto expressão mais genuína da particularidade dessa pessoa, elevando o estatuto que aliás já goza enquanto canal fundamental da comunicação humana.
Por isso, quando pretendermos futuramente avaliar uma pessoa ou formar uma opinião acerca das suas capacidades, poderá já não se aplicar aquela máxima desqualificadora de que “o que ele diz não se escreve” e vir a substituí-la pelo ressurgimento de uma outra expressão, bastante mais antiga e muito mais discriminativa de que “fala como um doutor”.
Neste contexto, a valorização que já atualmente se faz da “expressão oral”, traduzida, entre outras coisas, na enorme expansão dos chamados “cursos de técnicas de apresentação”, poderá vir a registar um forte acréscimo, diretamente proporcional à possível diminuição da importância da expressão escrita. Aliás, e invocando aqui a minha já longa experiência como formador, a existência hoje dos cursos que designávamos por “elaboração de textos” é largamente diminuta em relação aos tais cursos de “expressão oral”.
Se esta linha de tendência vier a acentuar-se, isso poderá ser uma má notícia para profissões onde a expressão escrita ainda é a ferramenta de trabalho dominante, como é o caso dos jornalistas e dos advogados, profissões que surgem aliás nos rankings das profissões que poderão via a ser mais afetadas pelos desenvolvimentos da Inteligência Artificial.
Sejamos, todavia, otimistas: a IA e os processos de automação podem ser contribuições “incrivelmente boas” para a humanidade em geral, mas apenas na condição de as desenvolvermos corretamente. E desenvolvê-las corretamente é não cairmos nas armadilhas dos facilitismos que as tecnologias nos trazem, e adotarmos acriticamente a “lei do menor esforço”, porque, retomando Roose, a eliminação ou a redução do esforço humano acarreta a desvalorização do que se produz.
Os dispositivos e os “modelos de linguagem”, e muitas outras aplicações da IA, para além dos riscos que podem provocar e já assinalados, podem, no entanto, dar uma contribuição decisiva para promover o aumento dos níveis gerais de educação, em sentido lato, de populações cada vez mais alargadas, contribuindo, por isso, para a criação de um mundo melhor e com menores níveis de discriminação.
Mas, com afirma Roose, “temos de compreender o modo com a cedência de controlo aos nossos dispositivos pode prejudicar as nossas relações com outros humanos”.
E haverá um momento, mais cedo ou mais tarde, em que, quer queiramos, quer não, seremos forçados a fazer uma profunda e honesta reflexão com os nossos dispositivos, e colocarmos a pergunta direta e proativa de “Quem é que realmente manda aqui?”.
Da qualidade da resposta, dependerá a qualidade e a sustentabilidade do nosso futuro.