Setembro é, para muitas organizações, um mês de recomeços. Retomam-se projetos, definem-se prioridades, abrem-se vagas e regressa a corrida pelo talento. Mas este setembro traz uma questão que os profissionais de Gestão de Pessoas já não podem adiar: até onde estamos dispostos a deixar um algoritmo decidir sobre pessoas?
Imagine-se uma vaga com 500 candidaturas. Em vez de uma equipa de RH passar dias a ler CV, um sistema de inteligência artificial faz o trabalho em minutos. Analisa experiências, identifica competências, atribui pontuações e apresenta uma lista dos candidatos “mais adequados”, o “match”! Parece eficiente. Parece objetivo. E talvez seja precisamente aí que começa o problema. Porque, quando um algoritmo decide quem passa à fase seguinte, a pergunta já não é apenas se funciona. É: quem definiu os critérios pelos quais ele considera alguém adequado?
A IA não tem uma ideia própria de talento. Aprende a partir de dados e padrões. E, se os dados do passado refletirem escolhas enviesadas, a tecnologia pode reproduzi-las, mas com uma diferença preocupante: agora, podem surgir revestidas de uma aparência de neutralidade e objetividade.
E seria injusto ignorar o outro lado. Recrutar bem é uma das decisões mais importantes de uma organização, porque são as pessoas que constroem equipas, cultura e resultados.
Ferramentas que nos ajudem a analisar informação, identificar competências e orientar-nos para os perfis com maior potencial podem ser extremamente valiosas. O problema não está em ter tecnologia a apoiar a decisão. Está em esquecer que apoiar não é decidir.
O Regulamento Europeu da Inteligência Artificial considera de risco elevado determinados sistemas utilizados no recrutamento e seleção. Está em causa muito mais do que tecnologia: uma decisão deste tipo pode condicionar o acesso ao emprego e as oportunidades profissionais de uma pessoa.
Mas há uma pergunta ainda mais importante: quem é responsável quando o algoritmo erra? Não podemos responder: “o algoritmo”!… A IA pode acelerar processos, identificar padrões e libertar os profissionais de RH de tarefas repetitivas. Mas uma recomendação automatizada não pode transformar-se numa decisão humana automática.
O desafio não é escolher entre “usar IA” ou “não usar IA”. É saber onde usar, para quê, com que critérios e com que supervisão.
Talvez o futuro do recrutamento não seja aquele em que a máquina escolhe as pessoas. Talvez seja aquele em que a máquina ajuda os profissionais de RH a fazer melhores perguntas e em que alguém continua suficientemente atento para perguntar: “Mas porquê esta pessoa?” Porque contratar não é apenas encontrar o perfil que melhor corresponde aos dados. É decidir quem queremos convidar a fazer parte da nossa organização.
A menos que, um dia destes, o algoritmo descubra que o candidato ideal é precisamente aquele que sabe trabalhar com algoritmos. Nesse caso, teremos resolvido o problema do recrutamento. Falta apenas resolver o problema de quem recruta o algoritmo!
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