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Crónica. “Entre a crítica, a leveza e 100.000 pessoas a dançar”, por Catarina João Morgado

A propósito das críticas geradas por fenómenos culturais de massas, Catarina João Morgado, Diretora da PwC's Academy, convida a uma reflexão sobre a forma como olhamos para o prazer, o lazer e a saúde emocional.

IIRH Por IIRH
31 de Julho, 2026
em CRÓNICA, DESTAQUES
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Crónica: O que é isso de Mindset Digital? – por Catarina João Morgado, PwC’s Academy
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Nos últimos tempos, tornou-se recorrente assistir a ondas de crítica nas redes sociais sempre que um fenómeno cultural ganha proporções massivas. Um desses exemplos foi a reação a milhares de pessoas – cem mil, segundo algumas estimativas – a dançarem ao som de “Cavalinho”, de Pedro Sampaio. Para muitos, este momento representou energia coletiva, alegria e descontração. Para outros, foi motivo de preocupação: um reflexo, dizem, de uma sociedade superficial, que valoriza música sem profundidade, letras vazias e entretenimento sem conteúdo.

Esta tensão não é nova. Ao longo da história, praticamente todas as formas de cultura popular foram alvo de crítica – do rock ao pop, do funk ao hip-hop. A acusação repete-se: falta de mensagem, banalidade, estímulos rápidos e fáceis. Mas talvez a questão que valha a pena colocar não seja apenas “o que consumimos?”, mas também “porque nos incomoda tanto aquilo que os outros escolhem para desfrutar?”.

É legítimo questionar o impacto da cultura que consumimos. A música, enquanto expressão artística, tem o poder de moldar emoções, pensamentos e até comportamentos. Há valor em defender conteúdos que promovam reflexão, empatia e profundidade.

No entanto, existe um risco subtil quando esta crítica se transforma em julgamento moral. Quando se assume que quem dança uma música “leve” ou “comercial” está, de alguma forma, a contribuir para a decadência cultural, entra-se no território do julgamento. A cultura deixa de ser vivida como um espaço plural e passa a ser tratada como uma hierarquia rígida, onde apenas certos gostos são considerados válidos.

Mas a realidade humana é mais complexa. As pessoas não são unidimensionais. Uma pessoa pode apreciar literatura densa e filosófica e, ao mesmo tempo, dançar uma música simples numa festa. Pode emocionar-se com uma sinfonia e, no dia seguinte, divertir-se com um ritmo repetitivo e descontraído.

Vivemos numa sociedade altamente exigente. A produtividade é o nosso foco. O desempenho profissional, a eficiência e a capacidade de dar resposta a múltiplas exigências dominam o quotidiano de muitas pessoas. Neste contexto, o lazer não é apenas um luxo; é uma necessidade. E, no entanto, há uma tendência para querer transformar também o lazer numa atividade “produtiva”: ler para aprender, fazer exercício para melhorar, viajar para crescer. Tudo deve ter uma finalidade, um resultado, uma melhoria mensurável.

Mas e se simplesmente nos permitirmos desfrutar? Sem um objetivo. Sem uma aprendizagem. Sem profundidade obrigatória. Dançar, rir, cantar músicas simples – tudo isso pode ser profundamente saudável, mesmo que não carregue uma mensagem complexa. Aliás, talvez seja precisamente essa simplicidade que torna esses momentos tão valiosos.

A ciência da felicidade – ou a psicologia positiva – tem vindo a demonstrar que momentos de prazer leve e imediato têm um papel fundamental no equilíbrio emocional. A felicidade não se constrói apenas através de grandes conquistas ou reflexões profundas. Ela também reside em pequenas experiências: um momento de riso, uma música que nos faz mexer, uma dança espontânea. Parar para escutar a natureza ou desfrutar do silêncio.

A investigação em psicologia e neurociência tem vindo a confirmar que reduzir o stress não é apenas uma questão de conforto momentâneo: é uma condição importante para o bem-estar. Atividades associadas à descontração ajudam a reduzir os níveis de stress e ansiedade. O corpo responde positivamente a estímulos prazerosos, libertando endorfinas e dopamina, neurotransmissores associados ao bem-estar.

Dançar, em particular, tem benefícios comprovados:

  • Reduz o stress e melhora o humor;
  • Promove a ligação social;
  • Estimula o corpo e a mente ao mesmo tempo;
  • Ajuda a libertar tensões acumuladas.

Quando cem mil pessoas dançam juntas, o que está a acontecer é também um fenómeno emocional coletivo. É um momento de sincronização social, de pertença, de libertação. Uma das reflexões que me ocorre neste tipo de debate – e esta tem sido um desafio pessoal que tenho vindo a trabalhar ao longo dos anos – é a dificuldade crescente em aceitar a leveza. Em não nos levarmos sempre tão a sério. Há uma pressão implícita para que tudo tenha significado, profundidade, impacto. Como se a vida tivesse de ser constantemente analisada, interpretada, justificada.

Mas a vida também é feita de instantes sem peso. E esses momentos não são perda de tempo: são espaços de recuperação. Levar tudo demasiado a sério pode tornar-se uma fonte de exaustão. A sobreinterpretação constante da realidade pode aumentar a ansiedade e diminuir a capacidade de simplesmente viver o presente. Aceitar a leveza não significa abdicar da profundidade. Significa reconhecer que ambas coexistem.

Por outro lado, num mundo onde o isolamento social é cada vez mais evidente, estes momentos de conexão, mesmo que superficiais à primeira vista, têm valor real. Quantas vezes não dei por mim a pensar que quem consegue divertir-se em qualquer ambiente tem uma flexibilidade que considero invejável?

Isto não significa que devemos consumir tudo de forma acrítica. É importante manter consciência sobre aquilo que escolhemos ouvir, ver e partilhar. A reflexão continua a ser essencial. Parece-me que o importante é permitir a si próprio momentos de descontração sem culpa. Libertarmo-nos daquilo que podem ser crenças limitadoras.

Talvez o verdadeiro problema não esteja na música, mas na forma como olhamos para o prazer. Se o consideramos válido apenas quando tem uma justificação “nobre”, estamos a limitar a nossa experiência humana.

Dançar uma música simples não é sinal de superficialidade. Pode ser, na verdade, um sinal de equilíbrio: a capacidade de alternar entre reflexão e descontração, entre profundidade e leveza.

Numa sociedade onde o stress, a pressão e a exigência são constantes, prefiro celebrar, em vez de criticar, os momentos em que as pessoas encontram alegria coletiva. Porque, no fim, cuidar da saúde emocional também passa por isto: saber quando pensar… e quando simplesmente dançar.


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