POR: Annick Catarino, Coordenadora DEI, Coach Interna e Learning & Development Bosch Portugal & Espanha
Ao longo da vida profissional, muitos de nós já passámos por ambientes onde nos sentimos acolhidos, valorizados e em verdadeira sintonia com o grupo. Nesses espaços, habitualmente, formam-se amizades duradouras e laços que ultrapassam o âmbito do trabalho. No entanto, também é comum experienciar situações em que a sensação de pertença pode falhar, momentos em que, apesar do esforço, nos sentimos deslocados, invisíveis ou simplesmente fora do lugar.
Nessas circunstâncias, surge um desafio fundamental: até que ponto conseguimos estar alinhados com os nossos valores num ambiente onde não nos sentimos verdadeiramente integrados ou bem-vindos? E quando percebemos que não existe espaço real para mudança, qual é a melhor escolha? Muitas vezes, a decisão mais saudável é procurar novos espaços que estejam mais alinhados com quem somos, não por desistência, mas por respeito a nós mesmos e ao nosso bem-estar.
É por isso que, quando falamos de Diversidade, Equidade e Inclusão, acredito que não podemos deixar de lado uma dimensão essencial: o sentimento de pertença. Podemos ter diversidade nas equipas, equidade nas políticas e inclusão nos discursos. Mas se as pessoas não se sentirem, de facto, parte do todo, nada disso é suficiente. Pertença é a força que transforma um simples “eu estou aqui” num poderoso e verdadeiro “eu faço parte e sinto-me feliz aqui!”.
Esse sentimento – ou a falta dele – é silencioso, mas impactante. E tem implicações reais: no bem-estar emocional, na motivação, na criatividade, na produtividade, nas relações e, muitas vezes, na saúde mental, e até física. Há uma dimensão psicológica essencial que muitas vezes subestimamos: a necessidade de ligação e pertença. A pertença é uma necessidade humana fundamental, enraizada profundamente no nosso ADN e na nossa história evolutiva. Desde os primórdios da humanidade, estar inserido num grupo social era vital para a sobrevivência – quem ficava isolado enfrentava riscos quase certos de morte. Por isso, a necessidade de pertencer não é um luxo ou um extra, é tão essencial quanto respirar. Queremos não só fazer parte, mas também contribuir para o grupo. E, acima de tudo, ansiamos ser aceites por quem verdadeiramente somos, sem máscaras nem disfarces.
A investigadora Brené Brown disse, de forma muito certeira: “A pertença verdadeira não exige que mudemos quem somos. Exige que sejamos quem somos.” Quando as pessoas não encontram espaço nem segurança emocional para serem verdadeiramente quem são – quando sentem que têm de esconder partes de si mesmas para serem aceites – o medo, a ansiedade e o silêncio começam a tomar conta. E isso não impacta só quem está a passar por isso, mas tudo à sua volta: as equipas, os resultados, a inovação, a cultura e o clima emocional e organizacional. A pessoa vai-se apagando aos poucos. Muitas acabam por sair. Não por não terem competência, mas porque lhes falta segurança emocional. E é aí que perdemos talento, muitas vezes sem percebermos o verdadeiro motivo dessas saídas. Perdemos diversidade de pensamento e, mais do que isso, deixamos marcas que ficam para além do tempo que estiveram presentes. É por isso que as organizações precisam de criar ambientes emocionalmente seguros. E estou convicta que tudo isto começa com a liderança.
Os líderes têm um papel determinante na construção de uma cultura de pertença, uma vez que o seu comportamento diário define o tom emocional das equipas. Por isso, precisamos de líderes que:
- Estão abertos a aprender continuamente sobre temas importantes como por exemplo, inteligência emocional, escuta ativa, comunicação inclusiva, diversidade em todas as suas dimensões, equidade, inclusão, preconceitos e discriminação;
- Sabem ouvir atentamente, captando não só as palavras, mas também os silêncios, os gestos e os sinais subtis de quem, muitas vezes, não consegue expressar plenamente o que sente;
- Reconhecem e enfrentam comportamentos de exclusão com coragem e empatia, criando ambientes seguros para o diálogo e a mudança;
- Praticam uma autoavaliação constante, dispostos a evoluir e a transformar a sua forma de comunicar e liderar, promovendo uma cultura inclusiva e aberta ao crescimento.
Mais do que nunca, precisamos de líderes que saibam liderar com empatia, que é uma das formas mais elevadas de inteligência humana e uma das mais poderosas formas de criar verdadeira conexão com as pessoas. Todos merecemos e queremos pertencer, e essa transformação começa em cada um de nós. Temos um papel individual nessa missão, porque, na prática, a mudança verdadeira acontece quando cada pessoa decide agir.