Um estudo global da Boston Consulting Group revela que a Inteligência Artificial já liberta o equivalente a um dia de trabalho por semana para muitos profissionais. O problema é que as empresas ainda não sabem o que fazer com esse tempo e quase metade dos trabalhadores passa mais tempo a orientar, supervisionar e corrigir a tecnologia.
A promessa parecia simples: entregar à Inteligência Artificial as tarefas mais repetitivas, libertar tempo e permitir que os profissionais se concentrassem no trabalho que exige pensamento crítico, criatividade e capacidade de decisão.
Na prática, a equação tornou-se bastante mais complexa.
A IA poupa tempo, mas também aumenta as expectativas. Produz respostas, mas exige supervisão. Automatiza tarefas simples, mas deixa para as pessoas os problemas mais difíceis. No final, o dia pode ter exatamente as mesmas horas e parecer ainda mais pesado.
Esta é uma das principais conclusões do estudo AI at Work 2026: Strategy Matters More Than Tools, publicado pela Boston Consulting Group em junho de 2026.
A quarta edição do estudo baseia-se nas respostas de 11 749 profissionais, entre trabalhadores sem funções de gestão, gestores e líderes, distribuídos por 14 mercados. O retrato que apresenta é paradoxal: a IA torna o trabalho mais produtivo e, para muitos profissionais, mais satisfatório, mas também aumenta a carga mental e a complexidade das funções.
O que já mudou no trabalho
Os efeitos da IA ultrapassam a simples utilização de uma nova ferramenta. Para a maioria dos profissionais inquiridos, a tecnologia já alterou as competências exigidas, o tipo de tarefas realizadas e o nível de qualidade esperado.
O dado talvez mais revelador é o dos 67% que afirmam que a IA já assumiu as tarefas mais simples e deixou às pessoas o trabalho complexo e de maior risco.
Isto significa que a tecnologia pode reduzir o volume de tarefas, mas não necessariamente o esforço mental. Um profissional pode responder a menos pedidos e terminar o dia mais cansado, porque cada tarefa que permaneceu sob a sua responsabilidade exigiu maior concentração, discernimento ou capacidade de decisão.
Poupar um dia por semana não significa ganhar um dia
Entre os trabalhadores sem funções de gestão que utilizam regularmente IA, 42% afirmam que poupam pelo menos oito horas por semana. É o equivalente a um dia completo de trabalho.
A percentagem é ainda mais elevada em algumas funções: 60% em marketing, 53% nas Tecnologias de Informação e 50% nos Recursos Humanos.
No caso dos Recursos Humanos, metade dos utilizadores regulares de IA afirma que já poupa, pelo menos, um dia por semana. O potencial é considerável, sobretudo em tarefas como a preparação de documentos, a análise de informação, a criação de conteúdos, a síntese de dados ou a estruturação de processos.
Contudo, poupar tempo numa tarefa não significa que esse tempo fique efetivamente disponível.
A BCG conclui que 66% dos trabalhadores sem funções de gestão recebem pouca ou nenhuma orientação sobre o que devem fazer com o tempo libertado. A mesma percentagem afirma que não canaliza esse tempo para trabalho mais estratégico.
A conclusão deve ser lida com cuidado. O estudo não afirma especificamente que todo o tempo poupado desaparece em reuniões, aprovações ou tarefas administrativas. O que demonstra é que mais de metade dos profissionais não o reinveste em trabalho estratégico.
A ideia de que esse tempo acaba absorvido por reuniões, pedidos adicionais e pela própria supervisão da IA é uma interpretação plausível, mas não constitui um resultado diretamente medido pela BCG.
Quanto melhor se trabalha com IA, mais trabalho aparece?
Existe ainda um efeito menos visível. Quando um profissional passa a produzir mais depressa, a organização pode responder com uma subida automática das expectativas.
O estudo mostra que 60% dos inquiridos consideram que o nível necessário para um trabalho ser classificado como «suficientemente bom» aumentou. A rapidez conquistada transforma-se, assim, num novo patamar de exigência.
A IA também precisa de receber contexto, instruções claras e informação adequada. Depois, alguém tem de avaliar a resposta, identificar possíveis erros, confirmar fontes e corrigir o resultado antes que este chegue a um cliente, candidato ou trabalhador.
Esse trabalho não desaparece. Apenas muda de forma.
A supervisão tende, além disso, a recair sobre os profissionais mais experientes, precisamente aqueles que possuem conhecimento suficiente para detetar um erro plausível, uma conclusão incompleta ou uma «alucinação» apresentada com aparente segurança.
Quanto melhor uma pessoa conhece o seu trabalho, mais depressa reconhece os limites da máquina. Mas essa competência pode trazer um custo silencioso: torna-a responsável não apenas pelo seu próprio trabalho, mas também pela qualidade do trabalho produzido pela IA.
O paradoxo da satisfação
A BCG identifica aquilo a que chama o «paradoxo da satisfação». Entre os utilizadores regulares de IA, 67% afirmam que a tecnologia aumentou a satisfação profissional. Ao mesmo tempo, 41% reconhecem um aumento da carga cognitiva.
O paradoxo é particularmente evidente entre os líderes. São o grupo que mais reconhece um aumento da satisfação, 77%, mas também aquele que mais sente o crescimento da carga cognitiva, 48%.
A IA pode retirar da agenda tarefas demoradas e pouco estimulantes. Porém, deixa aos líderes mais decisões, mais situações ambíguas, maior responsabilidade e a necessidade permanente de avaliar o que pode ou não ser delegado à tecnologia.
Ferramentas sem estratégia não chegam
Apesar de 72% dos participantes reconhecerem uma mudança nas competências exigidas, apenas 36% consideram que receberam formação adequada. Por outro lado, 88% preveem necessitar de uma atualização profunda de competências nos próximos cinco anos.
Para a BCG, o principal fator de sucesso não é o acesso às ferramentas, mas a clareza estratégica.
Nas organizações onde existe pouco acesso a ferramentas e pouca clareza estratégica, apenas 55% dos profissionais identificam um impacto mensurável da IA. Melhorar apenas o acesso às ferramentas faz esse valor subir para 60%.
Em contraste, quando existe uma estratégia clara, mesmo com acesso limitado às ferramentas, o resultado sobe para 80%. Quando se combinam estratégia clara e acesso adequado, chega aos 83%.
A diferença é cristalina. Melhorar as ferramentas sem definir uma direção acrescenta apenas cinco pontos percentuais. Introduzir clareza estratégica acrescenta 25 pontos.
Portugal está incluído no estudo?
Não. Portugal não integra os 14 mercados analisados individualmente no estudo de 2026.
A amostra abrange Austrália, Benelux, Bélgica e Países Baixos, Brasil, Estados Unidos, França, Alemanha, Índia, Itália, Japão, Médio Oriente, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Kuwait e Qatar, Países Nórdicos, Suécia, Dinamarca, Noruega e Finlândia, África do Sul, Espanha e Reino Unido.
Portugal também não está incluído no agregado Benelux nem em qualquer dos grupos regionais apresentados.
Por essa razão, os resultados não devem ser apresentados como um retrato específico dos trabalhadores portugueses. São conclusões globais, obtidas em mercados com níveis de digitalização, estruturas empresariais e práticas laborais diferentes.
Ainda assim, Espanha faz parte da amostra e pode oferecer alguma proximidade geográfica. Mesmo assim, não existe base metodológica para assumir que os resultados espanhóis representam a realidade portuguesa.
O estudo mostra que 75% dos trabalhadores sem funções de gestão em Espanha utilizam IA diariamente ou várias vezes por semana, um valor ligeiramente superior à média global de 74%. Portugal não possui um resultado equivalente neste relatório.
O verdadeiro desafio é redesenhar o trabalho
A principal mensagem da BCG não é que a IA esteja a falhar. Pelo contrário, a tecnologia já produz ganhos significativos de tempo e satisfação.
O problema está no intervalo entre a ferramenta e a organização.
Se uma empresa introduz IA, mas mantém os mesmos processos, as mesmas reuniões, as mesmas cadeias de aprovação e os mesmos indicadores de desempenho, o tempo poupado dilui-se. Se os profissionais mais rápidos recebem apenas mais tarefas, a produtividade transforma-se numa passadeira que acelera sem levar ninguém mais longe.
A adoção responsável da IA exige, por isso, respostas concretas:
- Que trabalho deve deixar de ser feito?
- Que tarefas devem ser redesenhadas?
- Onde deve ser aplicado o tempo libertado?
- Quem valida os resultados produzidos pela IA?
- Como deve essa responsabilidade ser reconhecida?
- Que competências precisam de ser desenvolvidas?
- Como pode a empresa evitar que a rapidez se traduza apenas em mais trabalho?
A IA já começou a redesenhar as funções. Falta agora às organizações redesenharem o trabalho.
Fontes
- Boston Consulting Group, AI at Work: Strategy Matters More Than Tools, junho de 2026
- Relatório e apresentação integral em PDF
- Comunicado oficial da Boston Consulting Group