Oque é que a Inteligência Artificial (IA) trouxe para a gestão de trabalho, recrutamento e formação de colaboradores?
A IA aplicada ao recrutamento permite analisar muito mais curricula em menos tempo, extraindo o que é importante para a função e, como tal, organizado de acordo com os critérios que já foram definidos como importantes. Pode depois marcar-me entrevistas com os candidatos e extrair o que da conversa for relevante, quer em termos técnicos, quer comportamentais – até a linguagem corporal, enquanto o entrevistador está totalmente focado na conversa e no candidato, ao invés de tomar notas.
Relativamente à gestão de talento, a IA pode constantemente avaliar dados de desempenho, estabelecer recomendações para os RH, as chefias ou os próprios colaboradores, identificar sucessores para uma determinada função e recomendar planos de ação para que, no prazo previsto, a pessoa esteja capacitada para o lugar.
Há tanta coisa onde a IA nos pode ajudar que eu diria que a criatividade está no topo da lista
Já no que respeita à gestão da formação temos capacidade de identificar as necessidades de formação, perceber de que forma as formações contribuem efetivamente para eliminar insuficiências e criar novas competências.
Mas, se me permite, a grande vantagem da IA tem de ser vista de forma mais abrangente, ou seja, como é que pode olhar para isto tudo em conjunto, analisar, integrar e sugerir, para que possamos ter uma melhor leitura, tomar melhores decisões, implementá-las mais rapidamente e ver os resultados.
Muitas vezes, a nossa dificuldade não está em ver que formação um colaborador necessita isoladamente; a grande valia da IA acontece quando queremos relacionar tudo – o perfil da pessoa, as necessidades da empresa, o plano de evolução de carreiras, os movimentos que a empresa vai ter num determinado prazo, relacionar avaliação de desempenho com recrutamento e formação.
A IA está a alavancar as tomadas de decisão de recrutamento e seleção?
Concordo que para a frente é que é o caminho e não vale a pena resistirmos, nem sequer adiar o que é inevitável. Acho importante, contudo, também não entrar numa euforia. Devemos olhar para o que está a acontecer à nossa volta.
Felizmente a comunidade dos RH, se é que lhe posso chamar assim, é muito propícia a isso: são de facto concorrentes na aquisição de talento, mas de resto têm os mesmos objetivos e desafios: como potenciar esse talento, como integrar melhor as pessoas, como reter, como tornar as equipas mais eficientes, e gostam de partilhar essas experiências, conhecer o que se faz melhor, aprender com os seus peers. Isso é o ambiente ideal para explorar o IA, aproveitar o que está a ser feito e depois fazer um pouco mais, colocar-lhes o nosso toque corporativo.
E se, através do uso de ferramentas, como a IA, conseguir usar parte do seu tempo e recursos para ter iniciativas que contribuem para uma gestão mais eficiente para a imagem da organização?
À medida que os profissionais de RH incorporam a IA nas suas funções, quais são as novas competências que não devem faltar?
Bem, há tanta coisa onde a IA nos pode ajudar que eu diria que a criatividade está no topo da lista. Mas outra é a adaptabilidade. Todos conhecemos a frase que diz que “não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta à mudança”. De um ponto de vista mais prático, não sendo preciso ser técnico, tem que se compreender um pouco da tecnologia que se tem em mãos. É isso que nos permite ver as oportunidades e os riscos.
Como é que os profissionais de RH podem abraçar a IA como uma aliada, ao invés de uma ameaça à sua própria função?
Julgo que o fundamental é focar-nos em pensar em como usar a IA para fazer coisas diferenciadoras. Deixo agora uma pergunta: quantos departamentos de RH nas organizações portuguesas estão assoberbados com tarefas administrativas – processamento salarial, pagamentos à Segurança Social e à Autoridade Tributária, gestão de férias, etc. – e só se repara neles quando algo corre mal? E se, através do uso de ferramentas, como a IA, conseguir usar parte do seu tempo e recursos para ter iniciativas que contribuem para uma gestão mais eficiente e para a imagem da organização?
E isto leva-me a uma pergunta anterior, sobre quais os riscos da adoção da IA. Um deles é justamente acreditar que a IA vai resolver tudo, fazer tudo e dispensar o ser humano. Não vai acontecer. O “H” em RH é de “Humanos”. As empresas são feitas por pessoas, de pessoas e para as pessoas. Sem elas nada faz sentido, incluindo a IA.
Entrevista publicada na Edição 149 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2023