Dan Brown, o conhecido autor de best-sellers como O Código Da Vinci, afirmou, numa entrevista dada recentemente ao Jornal Expresso, Revista, que, e cito: “O que aconteceu com a internet foi que a tecnologia ultrapassou a filosofia e a tecnologia está a mover-se mais rapidamente do que a nossa maturidade emocional” (1). Para justificar esta afirmação, o autor acrescenta: “Estamos a usar a internet para coisas absurdas, tontas. Somos como crianças a brincar com granadas de mão. Brincando com o fogo” (2).
Tais expressões seriam (ou são) facilmente criticadas pelos garbosos e indefetíveis defensores incondicionais da tecnologia que, perante críticas um pouco mais incisivas, ou chamadas de atenção relativamente aos possíveis riscos dos seus efeitos, logo se apressam a apelidar quem as faz de “retrógrados”, “conservadores” e outras expressões (ainda) menos simpáticas. No entanto, vindas de um autor cujo gosto pela tecnologia é por demais evidente, vale a pena lê-las como uma espécie de aviso “à navegação”, numa altura em que a IA já invade praticamente todos os domínios da nossa vida.
E aviso concretamente em relação a quê? Não, seguramente, em relação aos formidáveis progressos que a tecnologia potencia, tanto na investigação como na produção de dispositivos que indiscutivelmente melhoram a qualidade de vida dos cidadãos, mas, sim, às possíveis consequências do que pode ser a sua utilização pouco criteriosa e pouco honesta, nas mãos de pessoas e entidades a quem falta um lastro de sensibilidade e de decência para dela fazerem uma utilização que sirva realmente para melhorar a vida das pessoas e não para erodir progressivamente os seus recursos de humanidade.
Na verdade, o que é facto é que cada vez mais nos confrontamos quotidianamente com fenómenos que permitem sustentar uma dúvida razoável relativamente a uma possível deriva do uso da tecnologia para finalidades que, na verdade, não engrandecem a nossa humanidade. E uma das consequências mais imediatas e evidentes é aquilo que poderíamos designar como a “normalização da mentira”.
Apesar de a mentira – intencional, estratégica e deliberada – ser um atributo exclusivamente humano, que tem sido ancestralmente usado como instrumento de poder, julgo que ela nunca, como agora, foi usada de modo tão descarado e, mais do que isso, quase legitimado pela utilização a uma dimensão sociologicamente tão impressionante. É essa dimensão que acaba por gerar um efeito de “naturalização da mentira”, a um nível preocupante.
Na verdade, a mentira é hoje já considerada como uma coisa “normal”: toda a gente o diz, toda a gente está consciente de que se faz e, como ela é descaradamente assumida por pessoas e entidades que, pela sua representatividade social, política e organizacional, possuem um grande potencial de efeito multiplicador, cada vez mais pessoas sentem que, afinal, também o podem fazer.
A partir do momento em que a mentira passa a ser “dessacralizada” e se torna user friendly, o que passa a contar, relativamente à sua prática, já não é do domínio dos princípios nem dos códigos morais, mas, principalmente, do seu valor de uso: se é boa para atingir os fins, então vamos usá-la. Insisto em afirmá-lo: neste sentido, nunca, na História da Humanidade, a mentira foi considerada tão natural e assumida a uma escala tão ampla e generalizada. E é justamente aqui, neste processo de generalização, que as tecnologias digitais e as redes de informação têm tido um papel fundamental – mas, infelizmente, nem sempre pela positiva.
É facto que muitos sustentam que as tecnologias digitais, ao permitirem acesso quase infinito a inúmeras fontes de informação, constituem um avanço significativo no sentido de fornecer às pessoas grelhas cada vez mais extensas e completas de leitura da realidade, o que, em si mesmo, é algo positivo para promover uma maior consciencialização da sociedade em geral.
No entanto, como alerta Harari, “abrir as comportas ao livre fluxo de informação não é garantia de descoberta e disseminação da verdade. Pode dar-se o fenómeno contrário: a difusão de mentiras e fantasias, criando-se uma esfera de informação tóxica” (3). Neste sentido, a informação veiculada num “mercado livre de ideias, sem qualquer tipo de restrição” (4) tanto pode contribuir para uma maior consciencialização das pessoas sobre o sentido do que é certo e do que é errado, como “pode encorajar a divulgação de injúrias e de sensacionalismo em detrimento da verdade” (5).
E este é (mais) um dos paradoxos desta nova “sociedade digital” em que já entrámos: ao mesmo tempo que dispomos de meios e recursos de informação a uma escala praticamente ilimitada, tem vindo a tornar-se cada vez mais difícil distinguir o que, nessa informação, é verdadeiro do que é falso e, mais perigoso do que isto, a própria questão dessa distinção tem vindo a ser cada vez mais desqualificada.
Neste contexto, e não sendo obviamente possível, nem sequer desejável, suster esse “livre curso de informação”, resta-nos confiar na capacidade de discernimento humano para usar essas ferramentas poderosíssimas no “bom sentido”, ou seja, para potenciar uma evolução para uma maior e mais profunda humanidade dos seres humanos – e não para regredir a novas e mais perigosas formas de obscurantismo.
O real perigo está, como alerta Dan Brown na entrevista já citada, no facto de a nossa maturidade emocional não evoluir ao mesmo ritmo dos avanços tecnológicos, o que pode configurar uma situação semelhante à de uma criança pequena a manusear uma arma de fogo.
É por isso que se pode, e deve, afirmar que o futuro da humanidade é também… uma questão de consciência.
Referências:
Dan Brown, entrevista a Jornal Expresso, Revista, Edição 2759, 12 de Setembro de 2025
Idem
(3) HARARI, Y.N. (2024). Nexus. Lisboa: Elsinore
(4) Idem
(5) Idem
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