O
cansaço acumulado, deadlines apertados e a hiperconexão constante estão a transformar-se em riscos silenciosos dentro das organizações. Mais do que um problema individual, são hoje um desafio coletivo que afeta a produtividade, o clima organizacional e até a sustentabilidade dos negócios.
Face a este cenário, o IIRH – Instituto de Informação em Recursos Humanos promoveu, a 25 de setembro, o webinar “Gestão de Riscos Psicossociais e Estratégias de Controlo do Stress no Local de Trabalho”, com o apoio da Centralmed. A sessão juntou duas perspetivas complementares: a prática empresarial e a visão académica, num diálogo conduzido por Filipa Santos, da Direção de Serviços Clínicos da Centralmed, e Daniela Lima, Fundadora e Managing Partner da Swaifor. Em conjunto, refletiram sobre os desafios atuais, partilharam experiências concretas e lançaram pistas para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis, sustentáveis e produtivos.
Desde o início, Daniela Lima não escondeu o entusiasmo pelo tema. “É uma área que me fascina profundamente. Agora chamamos-lhe bem-estar, mas a base vem muito da segurança e saúde no trabalho, e da forma como entendemos o comportamento organizacional”, começou por dizer. Para a especialista, a chave passa por olhar para as pessoas “de forma global”, numa abordagem holística que permita compreender o indivíduo no seu todo.
Já Filipa Santos destacou que a aposta no bem-estar e na prevenção dos riscos psicossociais deve ser encarada como uma oportunidade de inovação para as empresas, mas também como um desafio cultural. Foi neste cruzamento entre estratégia organizacional e realidade humana que as duas oradoras se detiveram, sublinhando o impacto da fadiga, da hiperconexão e da pressão do tempo na produtividade.
Entre as medidas apontadas por ambas estiveram a implementação de programas de sensibilização e formação em gestão de stress, a definição de políticas de desconexão digital que respeitem os períodos de descanso, bem como a criação de mecanismos internos de monitorização do bem-estar. Ideias que, segundo as oradoras, podem contribuir não apenas para reduzir riscos, mas também para aumentar a atratividade e retenção de talento.
A promessa falhada da tecnologia
Do lado da Swaifor, Daniela Lima lançou a provocação: “O que é a produtividade? Como é que a estamos a medir?”. E acrescentou: “Acredito mais no conceito de work-life integration. Há momentos em que estou mais focada no trabalho e não sinto obrigatoriamente mal-estar, mas preciso de garantir que, do outro lado, tenho as minhas necessidades pessoais acauteladas”.
Também a dimensão geracional marcou a reflexão. Para Filipa Santos, a experiência da Geração X é reveladora: apesar do salto tecnológico e das vantagens que trouxe, a promessa de mais tempo e melhor qualidade de vida ficou por cumprir. “Houve um avanço extraordinário do ponto de vista tecnológico, que nos trouxe imensos benefícios, mas eu acho que há sempre um mas. Estes avanços trouxeram sempre a promessa de que iríamos ter mais qualidade de vida e mais tempo para nós. A verdade é que isso não acontece.”
Daniela Lima ilustrou essa a contradição com um episódio pessoal: “Sou completamente dependente do telemóvel. Dei por mim, dentro de água, com os meus filhos, a atender chamadas de trabalho em férias”. Essa consciência levou-a a impor limites e a valorizar o tempo como o recurso mais escasso. “Dinheiro podemos ter ou não. O tempo, uma vez gasto, não se recupera.”
Da IA à diversidade geracional
Para ambas, a entrada da inteligência artificial no mundo laboral abre novas camadas de complexidade. “A inteligência artificial é uma realidade. Vai libertar-nos de tarefas rotineiras, mas também vai trazer desemprego”, crê a Fundadora e Managing Partner da Swaifor, lembrando a necessidade de adaptação. “Ao longo da minha vida tive de me reinventar várias vezes. De X em X tempo precisamos de olhar para o que fazemos e explorar novas possibilidades. Não vai ser fácil, não vai reduzir o stress, mas não podemos parar o comboio”, referiu.
Sobre a diversidade geracional e cultural, a responsável da Direção de Serviços Clínicos da Centralmed destacou o crescente número de trabalhadores estrangeiros nas empresas portuguesas e os conflitos que essa pluralidade pode gerar. Daniela Lima fez questão de salientar que “a diversidade é fundamental. Precisamos de todos. Para encontrar as melhores soluções, é necessário reunir pessoas que olhem para o mesmo problema de forma diferente”.
“Tem de ser um chapéu de pessoas a pensar sobre estes fenómenos e os seus impactos”, concluiu Filipa Santos, reforçando a necessidade de integrar múltiplas perspetivas no debate sobre riscos psicossociais.
Assista ao webinar em: https://www.youtube.com/watch?v=Xkyw9vUKBJA
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