Autora:
Carla Porto – Membro do Conselho de Especialidade de Psicologia do Trabalho, Social e das Organizações da Ordem dos Psicólogos Portugueses
Quando chegarmos ao final de 2020 e estivermos a fazer uma retrospetiva enquanto contamos as doze badaladas, a palavra que provavelmente se formulará na nossa mente será “sobrevivemos”!
Para que haja a oportunidade desta palavra se materializar, cada um de nós tem um papel a desempenhar nesta luta pela sobrevivência.
Se o papel dos profissionais de RH sempre foi central no sucesso das empresas, mais do que nunca a sua missão é agora impactante a dois níveis: potenciar a promoção do bem-estar físico e emocional de todos os colaboradores e contribuir para a sobrevivência da empresa, para a máxima preservação dos postos de trabalho e a menor perda dos rendimentos dos colaboradores.
Para tal, o responsável de RH deverá “sentar-se à mesa” (por videoconferência) com a gestão de topo da organização e, juntamente com todas as outras áreas de responsabilidade da empresa, definir a melhor estratégia para se adaptarem a esta nova realidade e se reinventarem, ultrapassando esta crise e crescendo em eficiência e produtividade.
O contributo dos profissionais de RH para ajudarem as suas empresas a superar os desafios que a pandemia da Covid-19 lhes impôs poderá passar por aumentarem a sua presença na comunicação interna da empresa.
A todos os colaboradores, cujo desempenho das suas funções é possível realizar remotamente, foi recomendado que trabalhassem a partir de casa. Tal medida traz grandes mais valias para a prevenção da propagação do novo coronavírus, mas acarreta também desafios acrescidos a trabalhadores e empresas.
O trabalho remoto, desenvolvido nas atuais circunstâncias de crise pandémica, pode levar ao aumento da ansiedade, do medo e do sentimento de solidão. Será natural que todos fiquem preocupados com a possibilidade de virem a ser infectados, de poderem não sobreviver ou, se sobreviverem, poderem vir a perder os seus empregos e/ou verem diminuídos os seus rendimentos, alterando o estilo de vida.
Caberá assim aos profissionais de RH contribuir para a transformação de um ambiente de medo num ambiente resiliente, onde cada um sabe que terá de passar por este momento difícil, mas que essa superação o poderá fazer crescer emocionalmente, focar-se nas suas verdadeiras prioridades e valores, tornando-o um melhor ser humano e uma pessoa mais feliz.
Um ambiente resiliente implica a promoção de uma visão optimista, que transmita segurança e confiança, de forma bidirecional (em que os líderes da organização confiam nas suas equipas e no seu empenho para a superação das dificuldades, assim como cada colaborador confia nos seus líderes e nas medidas que implementarem), não descurando a passagem de informação rigorosa, transparente e direta.
É fundamental que os colaboradores tomem conhecimento por parte dos seus profissionais de RH sobre a forma como a pandemia está a afectar a sua empresa – o estado de saúde das equipas, como as medidas de isolamento social estão a afetar os negócios da empresa, que ações está a empresa a empreender para assegurar a sobrevivência do negócio, a manutenção dos postos de trabalho e a preservação do rendimento dos colaboradores e se utilizarão, se necessário e possível, o pacote de medidas de apoio às empresas disponibilizado pelo Governo.
Isolamento social não implica afastamento social. Pelo contrário, para bem de todos, não podemos estar fisicamente presentes, mas mais do que nunca, precisamos de nos sentir acompanhados, informados e em contacto. Tal ajudará a combater a desesperança e a promover o moral das equipas.
Uma comunicação interna que demonstre interesse genuíno sobre o bem-estar físico e emocional dos colaboradores, divulgará também sugestões sobre como trabalhar eficazmente em teletrabalho, tirando proveito das tecnologias colocadas à disposição; informações sobre procedimentos que, quem terá de continuar a prestar serviço nas instalações, possa seguir para se proteger e proteger os outros; sugestões sobre como manter as rotinas e hábitos de vida saudáveis, como uma alimentação equilibrada ou a prática de exercício físico regular; ou indicações sobre como aproveitar o tempo em família.
Os profissionais de RH podem ainda contribuir para a superação dos atuais desafios que se colocam às empresas através do acompanhamento que poderão prestar aos seus líderes, incentivando-os a promover o contacto regular com as suas equipas, a reservarem um tempo em cada reunião destinado à partilha de experiências, preocupações e emoções; a terem em consideração que o teletrabalho pode ser particularmente desafiante quando ao mesmo tempo se tem de cuidar de filhos menores, ajudando esses elementos a centrarem-se nas prioridades e organizarem os momentos do dia.
E quando 2020 acabar, estaremos todos – indivíduos e empresas – mais fortes, criativos e autoconfiantes.
Este é o tempo dos profissionais de RH evidenciarem a sua mais valia nas empresas e torná-las mais humanas, aproveitemo-lo!