Um dos aspetos mais citados como tendo impacto significativo na retenção do trabalhador, na satisfação do trabalho e na performance organizacional é o processo de recrutamento, que muitas vezes pode demorar semanas ou meses e também tem que ser acompanhado durante o percurso profissional do colaborador na organização.
Ao estudar a aplicabilidade da Inteligência Artificial no processo de recrutamento e seleção, a Scirp sublinhou que a IA já está a ser aplicada em diferentes etapas e funções do processo de recrutamento e de seleção, indicando vários benefícios como a automatização de processos manuais como análise de CVs, campanhas de emprego direcionadas, responder às perguntas do candidato e entrevistas.
Artigo indica que os profissionais do recrutamento preferem utilizar a IA na escolha e pre-seleção, ao oposto de utilizar durante as fases de pré-planeamento e comunicação com o candidato.
O artigo acrescenta que se estima que a implementação da Inteligência Artificial no processo de recrutamento vai reduzir significativamente o volume de trabalho para profissionais de RH. Profissionais de RH, que estão mais envolvidos no processo de recrutamento, podem considerar a IA como mais benéfica nesta fase do que recrutadores que tem como responsabilidade executar o processo de contratação.
No entanto, a aplicabilidade da IA no pré-planeamento do recrutamento não tem sido usada por falta de informação no mercado de trabalho. Os autores do estudo postulam que a utilização da IA no pré-recrutamento pode não ser a melhor devido à falta de informação comprovada.
Na escolha do candidato, recrutadores afirmam que gostariam de utilizar IA na escolha. Mas os casos podem ser diferentes dependendo da indústria e os tipos de trabalho, principalmente nas áreas rurais (em que as ofertas de emprego acontecem através de partilhas entre habitantes e sem a utilização das redes sociais, onde a IA teria o melhor efeito).
Na entrevista, muitos profissionais de recrutamento preferem não utilizar IA e a razão baseia-se nos diferentes tipos de escolhas necessárias em certas indústrias e grupos de trabalho.
Utilizar a ajuda tecnológica sem descurar o componente humano
A Randstad reconhece que a Inteligência Artificial, tal como outras inovações disruptivas, vai ser uma tendência que perdurará no tempo, mas que ainda tem um longo caminho para percorrer. Uma das vantagens disto, sublinha a empresa, é que dá tempo as organizações para prepararem e tirar o melhor partido desta inovação introduzida no mercado de trabalho.

“Nos nossos processos de recrutamento, temos cada vez mais utilizado a componente tecnológica, mas a parte humana ainda é o denominador comum e o elemento diferenciador”, explica Nuno Candoso, Placement Consultant na Randstad.
Um exemplo aplicado durante o processo de seleção dos currículos é uma ferramenta dada aos consultores da Randstad, que permite uma triagem mais rápida dos candidatos. “Nomeadamente através do envio de killer questions aos candidatos e que, com base nas suas respostas, ser rejeitado de forma automática ou passar para uma próxima fase do processo”, acrescenta Candoso.
Facilitar tarefas intensivas desenvolvidas pelos colaboradores da empresa também tem sido o foco da Ascia – IT Professional Services.
“Estamos a trabalhar com alguns clientes em protótipos que utilizam a IA na Gestão do Capital Humano em várias vertentes e, especificamente ao nível do Recrutamento. Estamos essencialmente focados em perceber como o IA facilita as tarefas intensivas desenvolvidas por humanos, nomeadamente, aquelas que implicam analisar os perfis dos candidatos, organizá-los, ordená-los pela adequação à função”, sublinha César Areias, Account Manager da Ascia.
No entanto, César Areias sublinha que o cuidado continua presente, sublinhando a importância de assegurar que o programa não desconsidere um candidato porque escreveu o seu currículo de forma diferente ao que o programa está treinado para selecionar.
“Por exemplo, estou a selecionar um programador em Python e a IA captura alguém que se diz programador de Python e descarta alguém que se diz programador em diversas linguagens e que até pode ser bem melhor que o primeiro”, finaliza.
Os usos diferenciados da Inteligência Artificial durante os processos de recrutamento também permitem, segundo a Factorial, de alguma forma investir melhor o tempo.
“Dispomos de mais tempo para pensar em estratégias de atração de talento e automatização de determinados processos que nos permitam ser mais eficientes”, admite Carlos Reis, Senior Talent Acquisition Specialist da Factorial.
No caso da Factorial, o software desenvolvido pela empresa consegue identificar o grau de correspondência de competências hard ou soft do candidato dentro do mesmo, através da integração de toda a informação recolhida no processo de recrutamento na gestão do percurso do colaborador dentro da empresa. “Algo que nos é útil quando fazemos também avaliações de desempenho trimestrais”, acrescenta.
Um recrutamento assente no “humano”, por agora
Tal como referido no início desta peça, o estudo da Scirp indicou que os profissionais do recrutamento preferem utilizar a IA na escolha e pré-seleção, ao oposto de utilizar durante as fases de pré-planeamento e comunicação com o candidato.
Um outro exemplo é o caso do site Vagas.com, que passou a conectar o seu banco de talentos, que conta com mais de 25 milhões de perfis, com a nova plataforma de recrutamento e seleção voltada para PMEs chamada ARIA (Assistente de Recrutamento por IA).
Segundo a revista Exame, os recrutadores definem o perfil do profissional que querem contratar com a ajuda de insights gerados pela IA em tempo real e recebem uma lista com 10 profissionais dentro do perfil e com interesse na vaga em até 72h. A duração média de tempo para um processo seletivo no modelo convencional pode chegar a 45 dias. Com a ARIA, empresas podem contratar profissionais em menos de uma semana.
Tal como outras ferramentas, a ARIA foi desenhada para acelerar uma das partes mais importantes e demoradas do processo de recrutamento, que é a etapa de captação e primeira seleção de profissionais.
No caso da Randstad, Nuno Candoso afirma que usam algumas ferramentas tecnológicas para procurar os melhores perfis, tendo sempre por base a função, perfil e competências solicitadas pelo cliente. “Garantindo as melhores oportunidades para os nossos candidatos, mas também os melhores candidatos para os nossos clientes”, sintetiza.

Já na Ascia, a fase de pré-seleção continua a ser o limite para a utilização da IA e, avançar para além disso, requer mais confiança. “Mas estamos já a olhar para a fase posterior da comunicação e temos uma ideia das prioridades que serão tentar reter as mensagens chave que o candidato transmite e como as tratar”, admite César Areias, sublinhando que o responsável pela seleção “deve estar totalmente focado na conversa com o candidato” e a IA fica pelo “trabalho de rotina de capturar, sistematizar e organizar o sumo da conversa, para mais tarde avaliar”.
Um processo bastante “humano” é como Carlos Reis identifica o recrutamento na Factorial. A pré-seleção continua a ser feita manualmente, com o escrutínio do currículo e do candidato. “Antes de publicar as nossas ofertas costumamos apoiar-nos em ferramentas de IA para criar a descrição das mesmas. Mas não só. Também recorremos à inteligência artificial para construir o próprio guião da entrevista, tendo em conta o que queremos avaliar ou já mesmo na seleção de candidatos, ter uma avaliação automática que nos dá a percentagem de correlação entre o que nós procuramos e o próprio currículo ou carta de apresentação do candidato”, acrescenta.
Identificar o “candidato ideal”
“Na minha opinião, acredito que devemos encarar a IA como uma aliada valiosa, capaz de nos auxiliar na procura dos melhores talentos”, admite Nuno Candoso, HR Permanent Placement Consultant.
“Considero que a IA pode ser útil para fazer a correspondência com o perfil e as competências necessárias para uma determinada função. Contudo, na fase de pré-seleção ou na seleção de candidatos realizada exclusivamente por uma máquina, penso que o processo pode tornar-se enviesado”, admite.
“Uma máquina não consegue avaliar todas as características, competências, motivações ou mesmo as intenções que um candidato possa ter ou demonstrar durante uma entrevista com um recrutador, onde este pode avaliar certos atributos extra que possam ser uma mais valia para a função em questão”, enumera Nuno Candoso.
Pode a IA identificar o “candidato ideal”? Na opinião de César Areias, sim, mas com um ponto.
“Será superior aos riscos de análise de um ser humano? Não sei responder. Um humano também pode ser preconceituoso, incapaz de processar e organizar demasiada informação, sentir-se cansado, ter falhas de atenção, etc. Tudo isso pode causar erros e injustiças. Uma máquina IA aprende com a informação que recolhe e toma decisões com base numa lógica que lhe ensinámos”, acrescenta César Areias.
Para César Areias, a relativa novidade da Inteligência Artificial vai despoletar várias perguntas pelas quais ainda é dificil ter respostas. “Será mais fácil ensinar e corrigir os defeitos de um humano ou de uma máquina? E, em caso de decisão errada, prefiro ser alvo de uma injustiça de um humano ou de uma máquina?”, explica.
“Os nossos protótipos com IA destinam-se apenas a auxiliar os humanos a serem mais eficientes e não a substituí-los. A avaliação dos pressupostos e a decisão será sempre humana”, explica César Areias.

Uma máquina pode ajudar a identificar o candidato ideal, ainda que no final das contas, acrescenta Carlos Reis, as entrevistas e seleção final devam de ser realizadas por pessoas, sejam elas especialistas em recrutamento ou Hiring Managers.
“Na minha opinião, ainda que a IA nos possa ajudar a otimizar o nosso tempo e ser mais eficazes, a melhor maneira de contratar pessoas que estejam alinhadas com a cultura empresarial e as expectativas que tem a empresa é não retirar o fator humano da equação”, conclui.
Para muitos profissionais de recrutamento, a IA, nesta fase, continua a ser aplicada na pré-seleção e ainda não existe muita confiança se a mesma é mais eficaz do que um ser humano. Como muitas coisas, só o tempo dirá como é que a Inteligência Artificial vai mudar o recrutamento.