Maria Kol, Human Resources Lead da Microsoft Portugal, fala-nos de como a Inteligência Artificial (IA) é crucial na jornada de crescimento, onde a ética é o princípio orientador.
Como é que a implementação da Inteligência Artificial (IA) está a impactar a Gestão dos RH e que medidas podem ser tomadas para promover uma transição suave?
A IA deixou de ser algo do futuro para se tornar uma realidade que impulsiona o trabalho nas organizações e potencia a sua competitividade. É uma tecnologia que vem amplificar as nossas competências e tornar-nos mais eficientes, libertando-nos de tarefas repetitivas.
A verdade é que os avanços nesta tecnologia continuarão a transformar a forma como trabalhamos e vivemos. A IA pode melhorar o trabalho dos programadores, a experiência do cliente, a produtividade, independentemente da função, entre muitos outros benefícios que promovem a otimização de processos e consequentemente geram maiores retornos e lucros.
Todas estas mudanças trazem interessantes desafios na Gestão de Recursos Humanos, sendo um deles, sem dúvida, o reforço do papel das lideranças.
As competências de gestão são fundamentais para explorar todo o potencial que a IA nos pode oferecer. Assim como delegar a uma pessoa, colaborar com um copiloto requer a capacidade de comunicar claramente, definir contexto e parâmetros, definir expectativas, analisar resultados e fornecer feedback.
Com este novo paradigma, é fundamental que as lideranças comecem a cultivar o ambiente certo para garantir que ninguém fica para trás. Colocar ferramentas de IA nas mãos dos colaboradores já não é suficiente, é necessário dar-lhes competências, promover uma cultura baseada na agilidade, criando oportunidades de desenvolvimento que permitam tirar o melhor partido da IA e preparar as nossas organizações e pessoas para prosperar nesta nova era.
A transformação dos sistemas é também ela um outro grande desafio. Na Microsoft temos essa missão, nomeadamente, em relação aos nossos sistemas de recursos humanos, na medida em que a nossa transformação digital tem sido uma jornada dupla.
Para começar, temos vindo a atualizar os nossos principais processos, fornecendo portais de autoatendimento eficientes e eficazes para os nossos colaboradores e ferramentas poderosas para a nossa equipa de RH.
Com os processos implementados, a nossa equipa Microsoft Digital Employee Experience tem tudo o que precisa para tomar medidas informadas com base na análise de grandes volumes de dados. Quando os dados estão espalhados por sistemas distintos, é difícil fornecer agilidade, insights e análises avançadas por meio de IA. No mundo atual de big data e inteligência preditiva, esses recursos não são apenas um luxo, eles impulsionam conversas sobre talentos, planeamento da força de trabalho e uma experiência aprimorada dos colaboradores que afeta diretamente os resultados do negócio.
Um relatório do ResumeBuilder revela que 44% de 750 líderes empresariais afirmam que ha- verá despedimentos resultantes da eficiência da IA. De que forma as organizações podem apoiar os colaboradores na adaptação às mudanças operacionais causadas pela introdução destas tecnologias?
De acordo com dados do nosso último Relatório de Tendências de Trabalho (Microsoft Work Trend Index), apenas 16% dos gestores inquiridos acreditam que a IA conduzirá a uma redução do emprego. Por outro lado, quase o dobro, 31%, acha que a IA aumentará a produtividade dos colaboradores.
Na realidade, aquilo que antecipamos é que a evolução dos sistemas de IA irá mudar a natureza de alguns empregos e criará novos. Devemos assim trabalhar para garantir que os nossos colaboradores estão preparados e para que haja uma pipeline de talento disponível para os empregos que serão suportados pela IA.
A formação contínua sempre foi importante, mas agora é essencial. Na Microsoft, estamos focados em ser um impulsionador para que os estudantes tenham acesso a empregos, não do futuro, mas do presente, apoiando estes futuros profissionais na aquisição de competências necessárias para ativamente participarem na economia digital.
Temos um papel ativo na colaboração com entidades públicas e organizações sem fins lucrativos, com o objetivo de permitir que um maior número de pessoas tenha acesso a estas competências digitais.
Adicionalmente, e para qualquer organização, deverá ocorrer o planeamento e consequente implementação de IA skilling com a identificação das competências a serem desenvolvidas pelos colaboradores.
A título de exemplo este plano pode passar por promover a literacia básica em IA, garantindo que todos os colaboradores tenham uma compreensão básica dos conceitos e terminologia em Inteligência Artificial; e difundir as práticas éticas e responsáveis em IA, educando os colaboradores sobre considerações éticas, mitigação de viéses e uso responsável de IA para promover uma cultura de IA socialmente consciente.
O Conselho e o Parlamento Europeu chegaram a um acordo provisório sobre a Lei da IA. Como podemos garantir que as informações sensíveis dos colaboradores são devidamente protegidas durante a recolha e análise de dados?
Na Microsoft, continuamos a apoiar os objetivos do AI Act, tendo há muito apoia- do a regulamentação da IA, especialmente para os casos de utilização de maior risco e os modelos mais avançados. Consideramos que uma regulamentação eficaz ajudará a gerir os riscos potenciais da IA e, ao mesmo tempo, espera-se que incentive a inovação responsável e a adoção da IA na Europa. Continuaremos a acompanhar os debates técnicos após o acordo político e aguardamos com expetativa a publicação dos pormenores finais.
Na Microsoft, trabalhamos nesta direção há vários anos. Contamos com equipas de engenheiros, advogados e especialistas em políticas e regulamentação, que trabalham na gestão da transparência e segurança. Além disso, anunciámos compromissos concretos com os nossos clientes para ajudá-los a avançar na sua jornada responsável com a IA, partilhando a nossa aprendizagem, criando um programa de garantia para que possam sentir-se confiantes de que as soluções que criam cumprem os requisitos legais e para assim os apoiar na implementação dos seus próprios sistemas de IA de forma ética e responsável.
Na Microsoft, temos um conjunto de princípios fundamentais para orientar o nosso trabalho de forma responsável e consideramos essencial ter um quadro ético que permita que a IA seja desenvolvida respeitando critérios de inclusão, equidade, privacidade, segurança, transparência e responsabilidade.
Da mesma forma, é muito importante contar com um marco regulatório poderoso, capaz de proteger os utilizadores e promover o uso positivo da tecnologia.
Estará a IA a transformar o papel do responsável de Recursos Humanos nas tomadas de decisões?
Temos de encarar a IA como uma tecnologia que melhora as nossas competências e nos torna mais eficientes, libertando-nos de tarefas repetitivas.
Ao usar ferramentas e tecnologias de IA, passamos a conseguir automatizar tarefas e libertar o tempo das pessoas para que possam investi-lo em atividades mais criativas e de maior valor.
Os novos copilotos de IA trabalharão ao lado das pessoas, mas de forma que o humano seja sempre quem lidere este processo, utilizando a IA como auxiliar na sua criatividade.
Esta mudança de paradigma permite assim ao responsável de Recursos Humanos ter mais tempo para pensar a estratégia, planear e decidir sobre a análise de grandes volumes de dados e tendências, tirando partido desta nova geração de IA, em que a máquina não só o ajuda a processar informações, mas também raciocinar sobre as mesmas. É um conceito fundamentalmente diferente do que conhecemos até aqui. Humanos e máquinas podem aliar-se em cenários complexos, tirando partido de uma base de conhecimento incrivelmente extensa e de forma interativa.