Desde cedo, a ansiedade é um tema oculto para muitas pessoas e que, em certos casos, enfrentam em silêncio durante grande parte da vida até conseguirem ter uma abertura para falarem sobre o tema. O caso de Pedro Pestana não é diferente.
Enquanto criança, Pedro Pestana sentiu que “tinha dificuldades em gostar” de si próprio, revelando sinais de ansiedade e revelando uma busca incessante pelo melhoramento pessoal.
“O meu fascínio foi sempre, no meio destas dificuldades, como conseguia transformar-me e ter um melhor controlo emocional. E, com isso, acabei por chegar aqui”, explica o Cofundador e CEO da Neroes.
Este “aqui” foi a procura por ser uma pessoa emocionalmente controlada e focada. E o local escolhido para tomar esse primeiro passo foi ingressar no curso de Engenharia Biomédica na Faculdade de Ciências de Lisboa.
Quando me encontrei com Pedro Pestana, estávamos no mesmo local onde a jornada até a Neroes começou – o Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica, localizado no polo da Faculdade. Numa sala, Pestana estava a ajudar alunos do curso a desenvolverem uma experiência de leitura neuronal com a plataforma da Neroes, ao qual foi cedido equipamento.

A experiência também deu a oportunidade de visualizar o Neroes Training Platform em ação, em que observamos um dos estudantes a controlar uma nave apenas com a sua rede cerebral. Um jogo que permite melhorar a saúde mental e a performance do utilizador.
Tal como esta experiência académica, o interesse de Pedro Pestana pela compreensão do cérebro começou com curiosidade. “Durante o meu percurso em engenharia biomédica tive como preocupação encontrar uma solução para poder descobrir e explorar o potencial humano. Percebi que no cérebro é onde estaria o maior potencial para eu conseguir melhorar a saúde mental e a performance. Logo no início, e ao contrário de muitos alunos, eu comprei o meu primeiro EEG (electro-encefalograma) – um equipamento que colocamos na cabeça e que lê o sinal elétrico cerebral”, explica Pedro Pestana.
Procurando compreender o cérebro e o seu funcionamento, Pedro Pestana tentou perceber como seria possível estimular as diferentes regiões de forma a melhorá-las diretamente.
Ao descobrir a técnica de neurofeedback (neuromodulação autorregulatória – localizar e identificar a presença de eventuais descompensações e desregulações na atividade da circuitaria do cérebro do paciente), Pedro Pestana entendeu que era necessário conjugar esta técnica com outras que a potenciem, de forma a se conseguir ter um treino mais eficiente e que as pessoas sintam a diferença.
Foi a partir destes passos que a Neroes, empresa fundada por Pedro Pestana e pelo professor Hugo Ferreira, quis “dar potencial às pessoas para explorar e melhorar as suas capacidades mentais”.
A empresa, constituída por oito pessoas e com uma média de idades de 34 anos, ganhou um prémio na área de inovação científica na conferência internacional Physioma, em 2020, lançou–se em eventos internacionais como a Web Summit Portugal, em 2022, e já marcou presença em outros eventos internacionais como a Web Summit Brasil ou o Slush.
Trazer o tema da saúde mental ao mundo do desporto e das empresas
Depois do Instituto de Biofísica e Engenharia Biomédica, a nova casa da Neroes foi o Tech Labs, também localizado na Faculdade. É neste espaço que se encontram os escritórios da empresa, ainda muito ligada ao mundo académico mas com vontades de se internacionalizar em diferentes mercados e contar com novos parceiros.
Os primeiros passos da Neroes foram no desporto, em que o Neroes Training Program conseguiu mostrar alguns resultados.
“Temos o caso do clube de futebol Estoril Praia, em que tivemos ótimos resultados ao nível do aumento de rapidez da tomada de decisão. Conseguimos ter uma redução ao nível da ansiedade em 40% nas duas equipas”, explicou Pedro Pestana.

Além do Estoril Praia, a Neroes também trabalhou com o Belenenses Juniores, conseguindo “averiguar uma melhoria de performance em mais de 4% no campo”, e também trabalhou com atletas de judo, como a Bárbara Timo.
Já no caso das empresas, Pedro Pestana apresentou dois nomes com que a Neroes trabalha – a Zurich e a Bayer. “Dentro das empresas, temos pessoas que reportam que numa só sessão de treino conseguiram resolver um problema que não estavam a conseguir lidar. A sessão de treino dá muitos insights, especialmente na forma como se reage a um determinado pensamento que a pessoa está a ter”, acrescenta Pedro Pestana.
Como funciona o programa da Neroes?
O Neroes Mental Training Program é uma parte intrínseca ao portefólio da empresa, rapidamente associada ao seu histórico.
A Neroes tem como foco principal a saúde mental e a performance, sendo que as pessoas que utilizam a solução da empresa tem a disponibilidade de escolher uma das duas ou realizar ambas ao mesmo tempo.
“Sempre fomos guiados pelo fascínio de fazer investigação científica para potenciar o cérebro e melhorar a saúde mental”, explica Pedro Pestana
“Mas o que fazemos concretamente”, indaga Pedro Pestana. Antes do contrato com o cliente ser fechado, a Neroes desloca-se ao local de trabalho para realizar um “Brain Experience” – uma oferta gratuita que fazem às empresas e que consiste num dia de team building.
“Neste dia, fazemos duas demonstrações. A primeira é ensinar a controlar um carro telecomandado só com o cérebro em menos de cinco minutos, uma experiência que permite aos participantes ver realmente o potencial desta tecnologia. A segunda, é a nossa plataforma de treino mental onde, através da nossa plataforma, jogam alguns dos jogos mais conhecidos – guiar uma nave através de uma região do cérebro responsável pelo controlo emocional e por essa região ativada, por exemplo. Dentro destas ativações, os participantes têm a oportunidade de experimentar e desenvolver estas características”, enumera Pedro Pestana.
Outro aspeto relevante do “Brain Experience” é que permite aos colaboradores estarem em contacto com a solução e dá a oportunidade à Neroes de perceber à priori quais as pessoas que estão mais interessadas no programa de treino ainda antes da empresa contratar.

“Após esses processos e averiguarmos quem vai utilizar, ocorre uma implementação, em que vamos à empresa e acompanhamos as primeiras duas ou três sessões (ensinamos a colocar o aparelho, o que as pessoas têm que ter como estratégia para desenvolver este treino, entre outras). Depois destas instruções, eles acabavam por se desenvolver sozinhos”, acrescenta Pedro Pestana.
No caso do neurofeedback, a Neroes utiliza várias técnicas aplicadas. Uma delas é o “Cognitive Simbiotic Interface”, em que é utilizado a Inteligência Artificial para perceber o cérebro e ativar o mesmo da “forma mais eficiente possível”. “Este processo é feito de uma forma não evasiva, sempre no controlo do utilizador”, clarifica Pedro Pestana.
Mas o que diferencia a Neroes, num contacto mais pessoal e quando a pessoa demonstra um nível maior de ansiedade e stress, de uma consulta de aconselhamento de um psicólogo? Pedro Pestana respondeu à questão referindo que são duas formas diferentes de abordar o mesmo problema.
“Uma técnica não invalida a outra e ambas se complementam. O que os dados nos mostram é que a nossa proposta é mais rápida e eficiente. Eu não desejo entrar numa comparação com o trabalho dos psicólogos, de forma nenhuma. O que queremos é que os psicólogos, cada vez mais, utilizem-nos como complemento às ferramentas que eles já têm”, clarifica Pedro Pestana.
“A forma como nós atuamos é a seguinte. Nós detetamos no cérebro alguma atividade que vai reportar que a pessoa está mais ansiosa e conseguimos trabalhar diretamente no cérebro essa própria rede neuronal. Trabalhamos essa rede como quem trabalha o músculo no ginásio. Com a plataforma, a pessoa “puxa a nave” e está a ativar uma região específica. Portanto, o objetivo da pessoa vai ser treinar e despertar certas ações (como despejar fumo da nave) a partir de pensamentos positivos. Deste modo, estamos a reforçar a rede neuronal”, acrescenta.
O reforço da rede neuronal vai causar, segundo Pedro Pestana, uma melhoria do controlo emocional, levando a uma redução da ansiedade.
O CEO da Neroes falou de alguns exemplos que verificaram mudanças ao nível da sua performance, particularmente no mundo do desporto. “Um caso particular que menciono é o de uma atleta de tiro. Durante os 60 tiros da prova, ela sentia grandes dificuldades na tomada de decisão sobre o disparo no momento em que erguia a arma. Com o nosso programa, conseguimos reduzir esta indecisão de 160 para 110 durante o levantamento da arma, levando a uma melhoria da eficácia”, justifica.
Um teste prático
Apesar de Pedro Pestana ter nos dado a assistir a um teste do programa, numa experiência feita por estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa, a verdadeira curiosidade foi em perceber como o programa funcionava em primeira mão.
Por isso, já nos escritórios da Neroes, Pedro Pestana preparou uma experiência para testar as capacidades: o teste de mover uma bola e pilotar um carro em círculos apenas com o poder do cérebro.
Para este teste, foi usado a primeira versão do Neroes Mental Training Program. Após um breve processo de preparação, Pedro Pestana começou por mostrar um teste com uma bola, em que nos pediu para intercalar entre momento de baixa energia mental e alta energia. Ao mesmo tempo que este teste decorria, o carro telecomandado lentamente solavancava centímetro por centímetro até começar rapidamente a mexer-se em círculos.
O teste teve momentos em que senti uma certa pressão, franzindo a testa, pondo o máximo esforço e concentração na bola, e depois muito lentamente regressar a um estado de calma, quase de inexistência de pensamento.
O que é apontável é que após alguns testes, a bola mexia-se e, mais tarde, o carro também. Nenhum input exterior ou “mão de marioneta” por parte do Pedro. Tudo o que acontecia era feito pelo cérebro humano.
Apesar da experiência ter sido cortada prematuramente devido a uma falta de bateria, o pequeno teste improvisado deu para perceber algum do poder do Neroes Mental Training Program.
2024: o ano de expansão
Além do programa já existente, a Neroes prepara-se para em 2024 lançar um novo pacote – o Neroes Ignite. A partir deste modelo, as empresas passam a ter a possibilidade de fazer um diagnóstico a toda a equipa.

“A partir deste momento, vamos medir a atividade cerebral elétrica delas muito rapidamente (em cinco minutos) e fazemos este exercício mensalmente. E conseguimos ter uma monitorização das pessoas ao nível da saúde mental”, explica Pedro Pestana.
Além deste novo pacote, Pedro Pestana falou-nos da ambição de expandir os serviços da empresa em três territórios: o Brasil; os Estados Unidos; e os Países Nórdicos.
“A razão prende-se com o facto que estes são países que tem uma cultura maior para as questões da saúde mental. Países como a Suécia, Alemanha ou Finlândia estão muito abertos a essa questão”, acrescenta.
“No Brasil, é comum falar-se sobre a saúde mental, tal como é falar-se em psicólogos ou em outras coisas que rodeiam a temática. Além disso, é o país mais ansioso do mundo. É por isso que estamos a focar-nos muito no Brasil, muito por causa das questões de insegurança”, exemplifica Pedro Pestana.
Já o caso dos Estados Unidos, mesmo com a sua dimensão vasta, tem alguns locais de relevo para a Neroes. Um exemplo é Boston.
Para Pedro Pestana, a saúde mental é uma questão que vai marcar o presente e o futuro, que cada vez mais empresas estão a dar importância. “Mas ainda existe muito esse tabu, até por parte da pessoa em sofrimento, que não se sente confortável em falar sobre esta temática”, sublinha.
Mesmo assim, Pedro Pestana mantém-se esperançoso que a perceção sobre o tema está a mudar. O papel que a ferramenta da Neroes pretende ocupar é semelhante ao Raio-x, ao permitir visualizar aquilo que parece abstrato e saber como agir.