O Fundão é uma cidade no distrito de Castelo Branco, cuja fundação remonta aos meados do século XVIII, destacando-se pela sua paisagem e ruralidade. Em tempos recentes, o município tem procurado projeção internacional e desenvolver-se socioeconomicamente perante os desafios da globalização e da digitalização.
Parte desta estratégia foi reforçada por Paulo Fernandes, Presidente da Câmara do Fundão. Antes de desempenhar o cargo de Presidente de Câmara, Paulo Fernandes foi vice-presidente e vereador de pelouros como o desporto, a cultura e ação social. Além dessa experiência, também é fundador e presidente da Rede de Aldeias de Xisto e fundador da Rede Aldeias Históricas de Portugal, entre outros organismos relacionados com o desenvolvimento regional.
Com o lançamento do Plano de Inovação para o Fundão em 2013, a cidade tem procurado afirmar-se como local de inovação e de captação de investimento empresarial. Com o interesse de conhecer melhor a política do município no que respeita à atração de talentos, a RHmagazine conduziu uma entrevista a Paulo Fernandes.
Tem se falado muito, em tempos recentes, do Fundão como uma câmara com boa dinâmica empresarial. Quais os projetos que levaram o Fundão a tornar-se uma câmara reconhecida no investimento empresarial?
O Fundão é uma cidade do interior centro de Portugal, com inúmeras potencialidades e uma oportunidade a descobrir pelos investidores.

Ao longo dos últimos anos o Município do Fundão tem vindo a apostar numa estratégia para atração de investimento, criação de emprego e fomento de inovação com o objetivo de promover a diversificação da economia local e um desenvolvimento socioeconómico adaptado às dinâmicas da economia atual marcada pela globalização e pela digitalização.
A confirmação do Fundão como local de inovação e de captação de investimento empresarial aconteceu em 2013, com o lançamento do Plano de Inovação para o Fundão, que teve em vista a atração de investimento, a criação de emprego e o fomento da inovação e empreendedorismo.
Ao mesmo tempo que se assistiu ao crescimento de sectores tradicionais como o agroalimentar, a indústria têxtil, a metalomecânica de precisão, a agricultura ou o turismo, vimos despontar no Fundão novas áreas de negócio como as tecnologias, o desenvolvimento de software ou a biotecnologia, representando mais de mil postos de trabalho qualificados.
O plano de ação integrado pretendia atuar sobre infraestruturas, capacitando o município para o acolhimento empresarial de novos negócios; incentivos e suporte aos investidores e empreendedores; capital humano, promovendo a retenção e atração de talento bem como a literacia digital; a comunicação para promover o concelho do Fundão como destino para inovação e investimento.

Com este plano, que permitiu ao concelho ser reconhecido pelo investimento empresarial e inovação, foram criados: Centro de Negócios e Serviços, Incubadora, Fab Lab, Centro de Formação Avançada, Espaço Empresa, Centro de Agrotech IoT, Centro de Acolhimento de Empresas Tecnológicas, Design Factory e uma rede de coworks, tendo esta dinâmica permitido a reabilitação de inúmeras habitações e a criação de uma bolsa de habitação para os profissionais que escolhem o Fundão para trabalhar, para questões sociais que urgem ser resolvidas e para alojamento urgente e temporário.
Estamos a falar de uma estratégia que pretende atrair e fixar empresas e pessoas no centro da cidade, promovendo a reabilitação urbana e a economia local. E hoje temos indicadores disso ao nível do crescimento dos processos de reabilitação, do investimento realizado na ARU e da fixação de novos residentes.
A reabilitação de edifícios permitiu ainda a criação de espaços no centro da cidade e de espaços industriais para a instalação de empresas no Fundão, o que neste momento se traduz na criação de mais de 1.000 postos de trabalho na área das novas tecnologias.
Como conseguiram atrair grandes empresas ao Fundão, como a IBM?
A atração de grandes empresas tem sido um caminho que a autarquia tem vindo a trilhar. Foram criadas todas as condições para que as empresas se pudessem instalar no Fundão e foi elaborado um plano que permitisse que o Fundão fosse um território atrativo.

A primeira grande empresa, na área das novas tecnologias, a escolher o concelho para se instalar foi a Altran (atual Capgemini), tendo aberto as portas para que diversas empresas nos procurassem, a par de um exaustivo trabalho realizado pelas equipas da autarquia na sedução do tecido empresarial para que escolhessem este território para se instalar.
A Softinsa (empresa IBM) foi uma das empresas que escolheu o concelho do Fundão para se instalar. Esta empresa está localizada num edifício secular na rua mais tradicional da cidade, a rua da Cale, que foi recuperado e adaptado com a mais recente tecnologia para que a empresa pudesse laborar.
Aliada às condições físicas, a Softinsa/IBM, e todas as outras empresas que escolham o concelho para se instalar, encontram uma equipa multidisciplinar e motivada, pertencente à orgânica da autarquia, que presta todo o apoio necessário à instalação da empresa, à criação de novos negócios e à captação de talento e capital humano.
Quais foram as estratégias para atrair o talento start-up e criar mais empregos na região?
O Fundão, à semelhança de todo o Interior, tem como grandes desafios os temas do despovoamento e envelhecimento da população, exigindo-se uma ação de médio e longo prazo determinada e estruturada.
Nesse sentido foi criado um plano de ação integrado que pretendia atuar sobre infraestruturas, capacitando o município para o acolhimento empresarial de novos negócios; incentivos e suporte aos investidores e empreendedores; capital humano, promovendo a retenção e atração de talento bem como a literacia digital; e comunicação para promover o Município como destino para inovação e investimento.
A Câmara Municipal do Fundão foi a primeira autarquia a criar uma Unidade Orgânica com uma equipa multidisciplinar exclusivamente para prestar todo o apoio a startups, empresários ou multinacionais que se quisessem instalar no concelho do Fundão.
Quando definimos uma estratégia para atração de investimento não podemos ignorar questões como a globalização, a economia digital e as competências profissionais do futuro, pelo que desenhámos um programa integrado ao nível das infraestruturas de acolhimento empresarial, de incubação e aceleração de negócios (por onde já passaram dezenas de projetos), mas também para promoção do talento e qualidade de vida enquanto aspetos fundamentais para fixação de investimentos e pessoas.

6 minutos e 40 segundos, este é o tempo máximo que se demora a chegar a qualquer local na cidade do Fundão, proporcionando uma enorme dinâmica e uma enorme qualidade de vida a todos os que aqui vivem, relativamente a outros centros urbanos. A qualidade de vida é extremamente valorizada, nos dias que correm, pelos profissionais contratados pelas multinacionais.
Teremos que acrescentar a participação em diversas feiras internacionais e nacionais de start-ups e a criação de condições no concelho, aliada à excelência das instituições de ensino superior que rodeiam este território e ao acompanhamento realizado pela autarquia para que o desenvolver deste plano fosse efetivado.
Ao nível das competências, destacaria o facto de o Fundão ser o primeiro concelho do país onde todas as crianças a partir dos 6 anos têm aulas de programação informática no ensino público, mas também as iniciativas de formação e conversão profissional como o caso da Academia de Código que em 2 anos permitiu converter cerca de 300 pessoas em situação de desemprego para programadores informáticos, com taxa de empregabilidade de 97%.
Esta estratégia integrada foi distinguida pela Comissão Europeia com o prémio RegioStars 2018, que considerou o projeto do Fundão para criação de um Centro de Negócios e de um ecossistema propício à atração de investimento como uma boa prática na aplicação de fundos europeus com base em critérios de sustentabilidade e impacto na economia local.
O Fundão tem conseguido atrair pessoas e criar condições para fixar os mais jovens, com novas oportunidades profissionais. Acreditamos num impacto positivo dessa estratégia que, volto a referir, tem de ser de médio e longo prazo, e os indicadores começam a surgir: aumento da reabilitação urbana e construção nova, dinamização do mercado de arrendamento, crescimento de diversos setores económicos e do investimento privado, redução do desemprego, entre outros.
Quantas nacionalidades estão presentes no Fundão e como promoveram o Fundão no estrangeiro?
Neste momento há 70 nacionalidades no concelho do Fundão.
Quais são as suas expectativas, a longo prazo, destes projetos? Por exemplo, daqui a 10 anos?
Com a revisão do PDM passou a ser possível a criação de vários campos tecnológicos que possibilitarão a criação de 2.300 empregos tecnológicos na zona antiga da cidade.

Constituindo-se como um exemplo dos modelos de co-living, o concelho do Fundão, pelas suas características e investimentos, tem um potencial inequívoco na atração de talento, sendo que a questão da qualidade de vida nas áreas rurais é, nos dias de hoje e no futuro, um dos fatores de maior preponderância para a atratividade e retenção de talento nas áreas de inovação e tecnológicas.
Referir ainda a criação de novos centros de interface com laboratórios na área 5G, chips e inteligência artificial que permitirão a subida na cadeia de valor e na transferência de projetos cada vez mais internacionalizados para a nossa economia real nacional e para o mundo.