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RH INTERNACIONAL: Ser de fora cá dentro… Trabalhar em português no país da marrabenta

Vanessa Henriques Por Vanessa Henriques
8 de Outubro, 2015
em TENDÊNCIAS RH
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RH INTERNACIONAL: Ser de fora cá dentro… Trabalhar em português no país da marrabenta
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Moçambique – Que expectativas podem ter as empresas e os profissionais portugueses que ali pensam instalar-se?

A perspetiva de uma gestora de recursos humanos radicada naquele país.

POR: Eugénia Pião – Diretora executiva da EGOR Moçambique

Viver e trabalhar em Moçambique é assumido por muitos portugueses como uma fuga troikiana e uma corrida a um mundo de oportunidades. Sim, é uma terra de oportunidades mas não é um destino isento de riscos. Exige uma imensa capacidade de adaptação e consciência de que o país apresenta setores de oportunidade mas também uma incómoda desigualdade social e diferenças culturais abissais em relação à Europa.

A manter-se a atual dinâmica, o país deverá criar em cinco anos cerca de 10 mil novos postos de trabalho em vários setores. Ora, com uma população ativa maioritariamente afeta à agricultura e com o setor dos serviços com graves lacunas de qualificação, Moçambique está sob mira de um número crescente de profissionais estrangeiros, em particular dos portugueses. Dados oficiais apontam para que existam hoje em Moçambique aproximadamente 30 mil portugueses a viver, cerca de 25 mil a trabalhar. Os números atestam o interesse dos portugueses pelo país que já destronou Angola nas preferências dos destinos migratórios e, embora os salários praticados estejam muito abaixo dos angolanos, o custo de vida também é substancialmente inferior, mas muito acima do suportado em Portugal. A média salarial praticada está 30 a 40% acima da praticada em Portugal e o ambiente social é relativamente descontraído, pois aqui todos acreditam na imposição gradual de um efetivo estado de segurança.

Contudo, tenham presente que nem tudo é um mar de rosas nesta aventura. «África é África…», há magia mas há instabilidade. Se há evidência que retiro da minha experiência em Moçambique é que este mercado se assume como difícil mas gratificante. É difícil pela distância que este ainda tem do mundo laboral que conhecemos na Europa, pela diferença cultural existente entre o moçambicano e o português, apesar da afinidade existente entre os povos. Aqui temos de nos adaptar para poder servir. Existem muitas diferenças entre o suporte a prestar a empresas moçambicanas face a empresas multinacionais. A diferença reside na metodologia… e nos timings de implementação dos processos.

As necessidades neste mercado são muitas e não é fácil indicar quais as mais ou menos importantes. Mas apontaria a falta de quadros técnicos qualificados como o maior dos constrangimentos e como a maior necessidade de intervenção em termos de gestão de pessoas. As principais carências em matéria de mão de obra qualificada concentram-se ao nível de quadros médios-altos, diretivos e operacionais, com perfis técnicos especializados. A aprendizagem e a qualificação profissional são, portanto, temáticas que têm vindo a conquistar importância.

Com uma economia que cresce a um ritmo de 7,7% ao ano, Moçambique oferece oportunidades mas não é imune a constrangimentos. A burocracia é pesada, o sistema é lento e a inflação elevada; as infraestruturas são inadequadas e as reais condições de trabalho, em todos os outros aspetos do dia a dia, são cultural e estruturalmente diferentes da realidade portuguesa.

Desengane-se quem acredita não estar perante um mercado de emprego competitivo e exigente! Pela dinâmica deste mercado, exige-se aqui dos profissionais – sobretudo aos estrangeiros a quem é pedido «o exemplo» que legitime a sua integração em detrimento do colaborador moçambicano – elevados índices de rentabilidade e ganhos acrescidos na ponderação custo/benefício.

Por cá, a presença lusa é cada vez mais evidente. Mas há muita gente que chega ao engano e não faz ideia do que os espera. Não têm a noção de que uma simples ida à praia implica uma viagem de no mínimo quatro horas para cada lado e não existem vias rápidas… por vezes sequer «estradas». Muitos aterram carregados de ilusões e com uma magra maquia no bolso para os primeiros tempos. Só que depois tudo é bem mais complicado do que imaginaram. As rendas são caríssimas e pedem-nos três meses à partida. Nas ruas, estranha-se o caos e ficamos chocados pela falta de civismo à luz do nosso barómetro europeu. A prospeção de mercado com que muitos se previnem tende a surtir errada. Este é o país onde todos prometem, tudo é fácil, mas prazos só estão no papel, os empreiteiros atrasam-se, os orçamentos estão sempre errados, os fornecedores falham, há corrupção nas licenças, nos concursos, e o que em Angola é «gasosa» aqui é «refresco»… e claro, está sempre «muito calor». Aqui o ritmo é outro e as regras são… relativas.

Mas existem critérios que devem ponderar antes de rumar à Pérola do Índico. Por exemplo, da total conveniência de vir com toda a situação laboral perfeitamente definida e regularizada, planeada para todo o tempo de vida contratual. De igual modo, aconselho a que, antes de partir, defina toda a logística inerente à condição de expatriado e negoceie os valores salariais atendendo sobretudo ao custo da habitação, pois será seguramente uma das parcelas mais pesadas do orçamento mensal no país. Se viaja com filhos em idade escolar acautele os custos inerentes à frequência de uma escola privada e procure assegurar previamente a respetiva inscrição. Por fim, atente que o sistema de saúde público é deficitário e os serviços privados caríssimos, portanto faça contas a um seguro de saúde. Recolha o maior número de informação possível sobre todos estes aspetos, sendo que o ideal seria mesmo poder vir cá antes de se mudar em definitivo. Os vistos são outra limitação. Há um ano que Moçambique está a dificultar a entrada no país a estrangeiros e esta tendência não conhecerá tréguas. As quotas que limitam o número de estrangeiros por empresa (5%, 8% ou 10%, conforme o tamanho da empresa) são uma condicionante a ponderar, sobretudo num mercado de trabalho que não reconhece a meritocracia. Mas aqui trabalha-se. Trabalha-se muito! Se os estrangeiros têm que chegar e provar, os nacionais têm que os superar. Torna-se assim um ciclo extremamente competitivo num mercado que, em muitos setores, ainda não chega para todos. Uma terra de oportunidades pois, mas um mundo de diferenças que ora nos fascinam ora nos chocam e colocam à prova. É um desafio diário, com muitas condicionantes mas vários aliciantes, e, no balanço dos prós e contras, acredito valer bem a pena.

Artigo publicado na RHmagazine – Edição nº 92

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