Em Portugal, 53% das pessoas estão insatisfeitas com a sua situação financeira, quase metade experiencia stress, 64% apresenta baixos níveis de literacia e uma em cada quatro tem dificuldade em pagar as contas, segundo o estudo “Bem-Estar Financeiro em Portugal”, desenvolvido pelo Doutor Finanças, em parceria com a Laicos e com o apoio científico da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e da NOVA IMS. As implicações desta realidade no contexto profissional foram o tema do mais recente episódio do podcast “Pessoas & Talento”, do iiRH, que contou com a participação de Ana Gagean, Diretora da Academia Doutor Finanças.
“As finanças pessoais têm muito mais de pessoal do que de finanças”, disse a responsável, em conversa com Cristina Martins de Barros, Diretora Editorial da RHmagazine e Fundadora do iiRH. A trabalhar no Doutor Finanças há cerca de ano e meio, Ana Gagean tem acompanhado a evolução da área de formação da empresa para uma abordagem centrada não apenas na transmissão de conhecimento, mas também na transformação de comportamentos e na medição do seu impacto.
Ana Gagean, que estudou gestão, finanças e inovação, reconhece que, apesar da formação, também não teve uma aprendizagem específica sobre finanças pessoais. Para a responsável, o tema ainda é pouco abordado em muitas famílias, o que dificulta a criação de bons hábitos desde cedo.
Foi também essa dimensão humana que a aproximou do Doutor Finanças. Depois de uma passagem pelo mundo corporate, de uma mudança para o campo e do regresso à vida profissional já como mãe, chegou à Academia Doutor Finanças com um percurso ligado às organizações, à cultura e à inovação. Encontrou ali a possibilidade de aplicar essa experiência numa missão orientada para as pessoas. “Foi ouro sobre azul”, recorda.
A missão da Academia passa por tornar mais acessíveis temas que continuam a ser encarados como complexos. O primeiro passo, na perspetiva da responsável, é perceber que “finanças pessoais” não passa apenas por saber fazer contas. Ana Gagean organiza o tema em cinco dimensões: o dinheiro que se ganha, o que se gasta, o crédito, a poupança e o investimento. Nem todas estão igualmente dependentes da vontade individual, mas existe margem de intervenção sobre grande parte delas. O orçamento surge, assim, como o ponto de partida para perceber onde se está e definir, com maior clareza, os passos seguintes.
“Mais importante daquilo que eu sei é o que é que eu faço com aquilo que sei.” É nesta diferença entre conhecimento e prática que Ana Gagean coloca a fronteira entre literacia financeira e bem-estar financeiro.
Portugal apresenta níveis reduzidos de literacia financeira. Ana Gagean referiu que, numa análise aos Estados-membros da União Europeia, apenas 42% dos portugueses responderam corretamente a questões financeiras básicas, colocando o país no penúltimo lugar dessa análise.
Esta dificuldade em transformar conhecimento em prática ajuda também a explicar um dos mitos que a responsável procura contrariar. “O maior mito que nós temos é de que a poupança aos investimentos é só para quem tem muito dinheiro. Não é real, porque finanças pessoais está relacionada com comportamentos e não com rendimento“. Durante a conversa, Ana Gagean recorreu, aliás, a um exemplo: o de um homem que trabalhava como auxiliar educativo numa escola e que, através de pequenas poupanças e de investimento, acabou por deixar uma fortuna de seis milhões de dólares.
E quando o stress financeiro atravessa a porta da empresa?
Não abrir a aplicação bancária para evitar confrontar-se com o saldo é, para Ana Gagean, um dos sinais de uma relação difícil com o dinheiro. “Os portugueses vivem em ansiedade financeira”, diz.
A Diretora da Academia Doutor Finanças refere que 44% das pessoas em situação de stress financeiro admitem que este constitui uma fonte de distração significativa e apontou para cerca de três horas por semana gastas a pensar ou a tentar resolver problemas financeiros. A preocupação, considera, “vai traduzir-se em salários ou horas pagas de trabalho que não estão a ser trabalhadas e que não estão a ser produtivas”.
É nesta passagem da esfera individual para a organizacional que o tema ganha uma nova dimensão. As empresas não são chamadas a resolver as finanças pessoais dos seus trabalhadores, mas podem criar condições para que estes tenham acesso a ferramentas que lhes permitam tomar decisões mais informadas. “Não é resolvermos, mas ajudarmos, ou darmos as ferramentas para que as pessoas possam tomar controlo da sua vida e também beneficiar as empresas.”
“A literacia financeira já estava na agenda, mas estava na agenda de uma forma de criar o awareness. Agora vejo as empresas a recorrerem a nós e a pedirem-nos ajuda, mais preocupadas com o bem-estar financeiro e menos só a querer informar ou formar”, revela. A preocupação já não passa apenas por levar informação aos trabalhadores, mas por perceber se essa informação produz mudanças efetivas. É aqui que identifica uma das limitações do modelo tradicional: “Levar o conhecimento não chega para transformar os comportamentos”.
A resposta da Academia Doutor Finanças tem passado pela criação de programas de continuidade, com uma duração de seis meses e uma intervenção adaptada às necessidades de cada pessoa. Os programas combinam momentos síncronos à distância, e-learning e acompanhamento individual. A Academia recorre, neste contexto, ao conceito de financial trainer, comparando o acompanhamento financeiro ao trabalho de um personal trainer. “É um PT das finanças”, atira.
Mais do que prolongar a formação no tempo, a lógica passa por perceber se essa continuidade produz resultados. Antes de iniciar o programa, o trabalhador realiza um diagnóstico. No final, volta a responder para perceber o que mudou, não apenas em termos de competências financeiras, mas também na sensação de segurança, no nível de ansiedade e na perceção de controlo.
A avaliação prossegue depois do fim do programa, com novas medições aos três e aos seis meses. Quando existe uma amostra suficiente, a análise pode ainda ser alargada à perceção da organização como um todo.
Esta aposta numa abordagem mais estruturada surge num momento em que o Doutor Finanças tem também alargado a sua intervenção nesta área. Em fevereiro de 2026, a empresa inaugurou o Centro de Bem-Estar, em Algés, e lançou o Referencial de Competências em Literacia Financeira e o Diagnóstico de Competências Financeiras, reforçando uma abordagem que procura olhar para além do conhecimento.
Mas a mudança não passa apenas pelos programas ou pelas ferramentas disponibilizadas. Há também uma dimensão cultural: a necessidade de falar mais abertamente sobre dinheiro. Ana Gagean estabelece uma ligação direta entre o bem-estar financeiro e a transparência salarial. “Este tema do dinheiro tem que deixar de ser tabu”, defende.
Entre os destaques deste episódio:
- A diferença entre literacia financeira e bem-estar financeiro;
- Os níveis de stress financeiro em Portugal e as suas consequências na vida profissional;
- O impacto da saúde financeira na produtividade e retenção de talento;
- A importância do diagnóstico e da medição antes, durante e depois dos programas;
- A relação entre transparência salarial e a normalização das conversas sobre dinheiro;
Ouça a conversa completa ou assista ao episódio.
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