Os salários praticados no setor público continuam a ser superiores aos do setor privado, mas a diferença entre os dois tem vindo a cair. No caso dos licenciados em início de carreira, trabalhar na administração pública deixou de compensar.
Se em 2009, a entrada na função pública permitia que um jovem licenciado tivesse um prémio salarial de 15,5% face ao privado, dez anos depois, essa diferença desapareceu totalmente.
Esta é uma das conclusões que se pode retirar da análise feita pelo Banco de Portugal (BdP) ao diferencial salarial entre os setores público e privado em Portugal.
Pegando nos dados do inquérito aos rendimentos e condições de vida do Eurostat para os anos de 2008/2009 e de 2018/2019, os autores concluem que, embora os salários da função pública continuem a ser mais altos do que os do privado (resultado influenciado pelo facto de o setor público ter um maior número de trabalhadores qualificados), essa diferença tem vindo a esbater-se.
Diferencial público-privado passou de 37% para 23%
Nos anos recentes, o prémio salarial associado ao emprego público era de 11%, uma redução de três pontos percentuais face à diferença verificada no período 2008/2009 entre trabalhadores do público e o privado.
Esta redução foi particularmente expressiva entre os funcionários públicos que terminaram o ensino superior e que, numa década, viram o diferencial salarial passar de 37% para 23%.
Mas se no período de 2008/2009 existia um prémio em todos os escalões de experiência para os licenciados, nos anos mais recentes isso deixou de se verificar para os que iniciam a sua carreira no Estado. Até 2009, um licenciado recém-admitido tinha, em média, um prémio de 15,5% face ao que aconteceria se tivesse ingressado numa empresa do sector privado. Passados dez anos, esse diferencial desapareceu e iniciar a carreira no público deixou de ter qualquer vantagem em termos salariais.
O setor público, de acordo com os autores do inquérito, “perdeu capacidade de atração de jovens licenciados relativamente ao setor privado”.