A CEO e diretora-executiva da ICF esteve recentemente em Lisboa a propósito da sua participação na Conferência Anual de Coaching da ICF Portugal, que se realizou no passado dia 24 de outubro.
O número de coaches está a aumentar em Portugal e no mundo e, hoje, há organizações que recorrem ao coaching para formar e desenvolver profissionais. Mas antes da escolha de um coach é necessário, aconselha Magdalena Mook, CEO e diretora-executiva da International Coach Federation (ICF), entrevistar vários coaches, solicitar referências e procurar saber se são certificados. Em entrevista ao InfoRH, a especialista destaca a importância da formação e da certificação na garantia do sucesso de um processo de coaching, cujo primeiro requisito reside na disponibilidade do coachee.
Há, ainda, alguma celeuma em relação ao coaching?
A nossa pesquisa mostra que quer a consciencialização, quer a participação no coaching aumentaram globalmente ao longo da última meia década. É uma boa notícia, porque significa que um número crescente de consumidores está a aprender em primeira mão sobre o que é o coaching e como é que os pode beneficiar. Já não há dúvidas sobre se o coaching funciona. Sabemos que sim e temos evidências para mostrar que sim! No entanto, o desafio número um enfrentado pela indústria de coaching continua a ser os indivíduos não treinados e que se autodenominam coaches. Portanto, é muito importante que indivíduos e organizações exijam excelência quando procuram um coach. Nós encorajamos as pessoas a entrevistar pelo menos três coaches e a solicitar pelo menos duas referências de cada um. Durante a entrevista, devem procurar informações sobre a sua experiência no coaching, se concluíram a formação específica de coach credenciado e se são membros e/ou associados de uma associação profissional de coaching, como a ICF.
Que definição está por detrás do conceito?
A ICF define o coaching como uma parceria com os clientes, baseada num processo instigante e criativo que os inspira a maximizarem o seu potencial pessoal e profissional. Numa parceria de coaching, o cliente é o especialista da sua vida e trabalho. O papel do coach é ajudá-lo a libertar o seu próprio potencial para atingir os seus objetivos.
Assiste-se, atualmente, à proliferação de coaches, que se propõem auxiliar os profissionais no desenvolvimento das suas competências. É uma oferta que nasce para dar resposta à procura ou motivada por outros fatores?
Todos temos metas que queremos alcançar, desafios que estamos a tentar superar, ideias que precisam de um mapeamento e momentos em que nos sentimos presos. A parceria com um coach profissional e formado é uma das melhores maneiras de desbloquear o seu potencial e colocá-lo no caminho para prosperar pessoal e profissionalmente. Normalmente, um envolvimento com um coach da ICF concentra-se menos no desenvolvimento de competências e mais no estabelecimento de metas e no planeamento de ações para as alcançar. Muitas vezes, o desenvolvimento de competências é da responsabilidade de outras modalidades de desenvolvimento, como a formação ou o mentoring. De acordo com o ICF Global Consumer Awareness Study de 2017, organizado pela ICF e conduzido pela PricewaterhouseCoopers LLP, o desejo de otimizar o desempenho do trabalho individual, ou em equipa, é a principal razão que leva os clientes a fazerem uma parceria com um coach. Outras razões incluem o desejo de melhorar as competências de comunicação, aumentar a produtividade e expandir as oportunidades de carreira profissional. A procura pelo coaching está a aumentar globalmente por uma simples razão: o coaching funciona! Ao considerar o coaching que receberam, 88% dos consumidores referiram que estavam um pouco ou muito satisfeitos com a experiência e 84% disseram que provavelmente recomendariam o coaching a um amigo ou membro da família. Organizações com fortes culturas de coaching registam taxas e receitas de employee engagement mais altas do que organizações sem fortes culturas de coaching.
O aumento do número de coaches verifica-se em Portugal e internacionalmente?
De acordo com o ICF Global Coaching Study de 2016, existem aproximadamente 53.300 praticantes de coaching em todo o mundo, refletindo o crescimento da profissão desde que o último ICF Global Coaching Study foi publicado, em 2012. Constituindo-se como a maior organização mundial de coaches com formação profissional, a ICF também tem assistido a um crescimento substancial. De 2012 a 2017, em todo o mundo, o número de membros da ICF cresceu quase 50% – de 20.711 para mais de 30.500 – e o número de coaches credenciados quase que duplicou – de 9.371 para 18.696. Durante o mesmo período, em Portugal, o número de membros da ICF aumentou 27% e o número de coaches credenciados pela ICF cresceu um terço.
Já não há dúvidas sobre se o coaching funciona. Sabemos que sim e temos evidências para mostrar que sim
A International Coach Federation assume como objetivo o combate à proliferação de coaches não certificados?
O coaching é uma profissão auto-regulada e os coaches não precisam de ter uma licença para praticarem. Para ajudar a garantir a integridade da profissão e proteger os consumidores de coaching, a International Coach Federation fez algo que nenhuma outra organização fez: oferecemos o único programa de certificação independente e globalmente reconhecido para coaches profissionais. As credenciais da ICF são concedidas a coaches profissionais que cumpriram os rigorosos requisitos de educação e experiência e demonstraram um profundo conhecimento das competências de coaching e do código ético que define o padrão na profissão. A ICF também possui um rigoroso Requisito de Experiência de Membro e para ingressar na Federação e identificar-se como coach da ICF, é necessário completar pelo menos 60 horas de formação específica de coach, que atenda aos nossos altos padrões, e comprometer-se a manter o Código de Ética da ICF.
Que diferenças existem entre um coach certificado e o processo de coaching que desenvolve e um coach não certificado?
Os clientes que fazem parceria com um coach certificado pela ICF podem ter a certeza que receberão o que pagaram com base num conjunto de padrões estabelecidos. A ICF criou as Competências Essenciais para coaches profissionais e elaborou um Código de Ética, estabelecendo o padrão na área do coaching. Também definimos padrões curriculares para garantir a consistência na formação de coaches e o nosso sistema de credenciação tem um requisito de renovação de três anos. Se o cliente está a trabalhar com um coach credenciado pela ICF, pode ter a certeza de que está a trabalhar com os melhores do setor. Os detentores de credenciais da ICF comprometem-se a manter o seu Código de Ética e a cumprir requisitos rigorosos de educação e experiência. Para ser elegível para uma certificação da ICF, um coach deve completar a formação específica, cumprir um determinado número de horas de experiência, ter um mentor e demonstrar entendimento e domínio adequados relativamente à definição de coaching da ICF, ao código de ética e às competências essenciais. O nosso processo de Revisão de Conduta Ética e o Independent Review Board (IRB) permitem que os clientes apresentem reclamações caso estejam insatisfeitos ou se um coach se comportar de maneira eticamente questionável.
Que requisitos são necessários cumprir para exercer a atividade de coach?
Como o coaching é um processo orientado pelo cliente, o requisito número um é um cliente pronto e disposto a participar no processo. Se um colaborador for “forçado” a trabalhar com um coach pelos recursos humanos ou pelo seu diretor, o processo provavelmente não terá êxito. Já se um indivíduo souber claramente o que pretende alcançar e se estiver aberto a novas perspetivas e formas de pensar sobre um assunto, é muito mais provável que a parceria de coaching seja um sucesso. As funções do cliente de coaching são criar a agenda de coachin, com base em metas pessoalmente significativas, assumir total responsabilidade pelas suas próprias decisões e ações, usar o processo de coaching para promover a possibilidade de pensar em novas perspetivas, desenvolver o pensamento e competências de resolução de problemas, usar as ferramentas, conceitos, modelos e princípios fornecidos pelo seu coach e participar em ações efetivas.
O que podem esperar os coachees de um processo de coaching?
O coaching profissional concentra-se na definição de resultados e na gestão de mudanças pessoais. Há outras profissões, como a consultoria e a psicoterapia, que se baseiam na sabedoria e experiência do profissional. No coaching, o cliente é o especialista. O papel do coach é fazer perguntas poderosas, agir como uma caixa de ressonância, fornecer avaliações e observações objetivas, ouvir na totalidade e de forma ativa, desafiar pontos cegos e promover mudanças no pensamento que revelem novas perspetivas. Os coaches profissionais formados são qualificados para dar suporte aos clientes. São especialistas no processo de avaliação e permitem que os clientes obtenham respostas às suas perguntas mais difíceis. Recorrendo a um processo de descoberta que aprofunda a aprendizagem, os coaches da ICF criam um impulso por meio da prestação de contas. São ágeis a extrair a sabedoria do cliente, reconhecê-la e declará-la e despertam continuamente a atenção do cliente para ajudá-lo a criar novos comportamentos.
O coaching é, hoje, mais conhecido e implementado nas organizações, porque a importância que as pessoas assumem no sucesso das empresas é, também, mais reconhecida?
Absolutamente! A tecnologia pode estar a mudar a maneira como trabalhamos, mas as organizações que irão prosperar num mundo VUCA são as que entendem que o desenvolvimento dos seus colaboradores é vital. Precisamos de cultivar competências críticas, como competências de comunicação, inteligência emocional e a construção de relacionamentos. A nossa pesquisa demonstra que as competências mais valiosas para os gestores e líderes são a formação e desenvolvimento, envolver e inspirar outras pessoas e ter inteligência emocional. Oferecer aos colaboradores acesso a coaches profissionais, investir em formação específica para coaches e líderes e incorporar o coaching nas atividades existentes de aprendizagem e desenvolvimento parecem ser um bom começo para preparar a liderança de amanhã.
Como CEO e diretora executiva da ICF, o que considera estar ainda por fazer no coaching e na Federação?
É um momento emocionante para o coaching, coaches e para a ICF e as oportunidades de crescimento futuro são limitadas apenas pela nossa imaginação! Estamos a investir em recursos significativos para promover a aplicação do coaching na mudança social. Já sabemos que o coaching pode transformar vidas e organizações, logo a próxima pergunta é: o que é que o coaching pode fazer para transformar comunidades e o mundo? A nossa organização irmã, a Fundação ICF, está a encontrar respostas para a pergunta, preparando coaches profissionais e organizações para a aceleração e ampliação do progresso social através do coaching. A ICF está, também, a desenvolver e a progredir para expandir o seu propósito e influenciar como organização. Continuamos a explorar o facto de a ICF poder ter um maior impacto nas culturas de coaching organizacional, identificando oportunidades de liderança de pensamento no espaço intelectual público e na academia e examinando as mudanças estruturais que podemos fazer para garantir que a International Coach Federation está bem posicionada para conduzir o coaching até ao futuro.