O projeto de Norma Portuguesa (pNP) 4950, preparado pela Comissão Técnica 219 (CT 219) e sob coordenação do Organismo de Normalização Sectorial (ONS) e da Associação Portuguesa de Ética Empresarial (APEE), pretende oferecer às organizações uma base para a implementação de políticas, programas e uma cultura de bem-estar e felicidade nas organizações.
Ausenda de Oliveira, presidente da CT 219 e membro da ONS e APEE, explica que o processo tomou 2 anos, envolvendo 21 entidades, 3 peritos, 24 vogais, 12 suplentes, três ações de formação e 26 reuniões plenárias. Para Ausenda, os principais problemas que a CT 219 procurou resolver foram sumarizadas numa frase: “conhecer e respeitar os limites”.
“O objetivo da norma é passar de bom para excelente. Taxativamente, trata-se de garantir a criação, desenvolvimento e manutenção de uma cultura de bem-estar e felicidade organizacional. A melhoria contínua do desempenho do sistema de gestão do bem-estar e felicidade organizacional“, complementa.
A pNP 4590 têm 62 páginas, 14 de requisitos, 14 de aspectos introdutórios e 34 de sugestões, tendo a estrutura das normas ISO, de melhoria contínua (planear, operacionalizar o desempenho e melhorar continuamente, com uma liderança permanente).
Conceitos introduzidos e passos para implementar a Norma
Ausenda de Oliveira indica que um dos principais conceitos que este projeto de norma introduziu foi o termo de felicidade no trabalho, identificado como “estado emocional positivo”. A presidente da CT 219 clarifica que a felicidade no trabalho só pode ser objeto de uma avaliação subjetiva, pelo que cabe à liderança de topo envolver-se com o tema da felicidade no trabalho.
“A felicidade no trabalho deve ter em conta estes princípios e valores: não discriminação pelas diferenças; a liderança deve promover um trabalho com propósito; conciliação entre a vida pessoal e familiar”, enumera Ausenda.
A felicidade no trabalho, de acordo com o projeto de norma, deve ser percecionado, sentido e reportado pelas pessoas como estando associado ao seu trabalho. De forma a operacionalizar este conceito, foi destacado que a organização deve avaliar, planear, implementar e controlar um conjunto de fatores que contribuem para o bem-estar e felicidade organizacional: necessidades físicas; e necessidades psicossociais (expectativas de segurança, expectativas de pertença, expectativas de reconhecimento e expectativas de autorrealização).
“Além disto, esta felicidade no trabalho deve ter um planeamento, em que são identificados riscos, é conhecida e cumprida a legislação e outros compromissos. O apoio é igualmente importante, ao qual entendemos que deve existir uma comunicação positiva, facilitadora de relações interpessoais baseadas em honestidade e transparência através de 4 pilares: empatia, comunicação não verbal, linguagem simples e objetiva, feedback construtivo e útil“, elenca Ausenda.
Ausenda também deixa alguns alertas sobre como implementar a norma e garantir que o bem-estar e felicidade decorrem no local de trabalho. “Com vocação. Tem tanto de potente como de perigoso e, como tal, depende da maturidade da organização. O que oferecemos aqui é uma matriz de trabalho (com diagnóstico, planos e monotorização)”.
Melhorar o conceito de organização
O pNP 4590 teve um seminário público na Egas Moniz School of Health & Science, no dia 27 de julho. Um evento que promoveu não só uma sumarização da natureza e os objetivos da norma, tal como promoveu um debate aberto, reunindo profissionais de diferentes setores e os membros da CT 219.
Mário Parra, presidente da APEE, afirma que normas como o pNP 4590 “não surgem do nada”. “Esta norma não tem como suposto um contexto de promoção. A realidade que esta norma pretende melhorar é o conceito de organização”, afirmou, citando que o conceito só evoluiu na área da psicologia.
“Foi por isso que esta norma existe. Porque permite dar às organizações as ferramentas, bem-estar ou garantia de carreira que fará com que os trabalhadores fiquem nas organizações”, disse Mário Parra.
No seminário, também foi adiantado que a Egas Moniz School of Health & Science iniciará uma pós-graduação em “Gestão do Bem-Estar e Felicidade Organizacional”, baseado na pNP 4590 e no ensino da acreditação necessária para a norma. “A razão da Egas Moniz ser recetor deste evento é por valorizar as capacidades humanas dos seus alunos. Nessa senda, trabalhamos diariamente para cumprir esta procura de felicidade e bem-estar”, concluiu José João Mendes, presidente da Egas Moniz School of Health & Science.
O projeto de norma encontra-se em Consulta Pública, entre 15 de junho e 14 de julho, no site do Instituto Português de Qualidade (IPQ), no site da APEE e pode ser consultado a partir deste link. As empresas que pretendam implementar a norma devem comprar a norma ao IPQ, implementar o sistema de gestão e depois pedir a acreditação a organizações certificadas, reconhecidas pelo IPQ (como a APCER ou a Bureau Veritas).