Autora: Vânia Sousa Lima, Psicóloga, Docente da Faculdade de Educação e Psicologia – Universidade Católica Portuguesa e Formadora da Associação Encontrar+se
“Oh-oh, yes, I’m the great pretender
Pretending that I’m doing well
My greed is such, I pretend too much
I’m lovely, but no one can tell”
Para os mais distraídos, esta não é a letra do single de 1955 dos The Platters, cuja versão de 1987 de Freddie Mercury é para muitos mais conhecida. Atente-se: “greed” substitui “need” no original, “lonely” transforma-se em “lovely”. A necessidade dá lugar à ganância, o sentir-se só transmuta-se na percepção de se ser adorável. A adaptação (da letra) escuda-se na velha máxima de que “vivemos num mundo em mudança” (spoiler alert: é mesmo velha, esta máxima).
Mudança assiste-se na progressiva atribuição da relevância do bem-estar e saúde mental em contexto de trabalho, com as instituições gradativa e explicitamente a integrarem esta dimensão nos seus planos de acção e formação. É um movimento que se exige.
Evidência acumula-se de iniciativas neste domínio aumentarem a sua eficácia quando consideradas não estritamente numa perspectiva individual (de que podem ser exemplo programas de desenvolvimento de competências de gestão de stress, promoção de bem estar, disponibilização de apoio para realização de consultas de psicologia, entre outras), mas de abrangerem concomitantemente e de modo integrado dimensões de cariz estrutural e de organização do trabalho (que incluem oportunidades de progressão de carreira, remuneração adequada, processos claros e adequados às especificidades das funções desempenhadas, volume de trabalho compatível com a exequibilidade do seu cumprimento nos prazos acordados).
O imperativo da integração destas duas dimensões encontra-se plasmado nos recentes trabalhos de Brassey e colaboradores (2023) e de Fleming (2024), apresentando implicações relevantes para o desenho de intervenções neste domínio por parte das organizações.
Se é doce a melodia “The Great Pretender”, pungente é a sua letra, no que se afigura como a dissonância entre forma e conteúdo. Um “fingimento”, um “fazer de conta”, pois. E se Pessoa clamava ser o poeta “Um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”, “fingimento” (por dissonante e, assim, pouco eficazes) serão as múltiplas iniciativas (bem intencionadas, seguramente; necessárias, como primeiro passo) com que os departamentos de recursos humanos de organizações de diversos sectores, áreas e dimensões dinamizam dirigidas ao que consideram ser gerador de bem-estar e promotor de saúde mental para os seus colaboradores (entenda-se: trabalhadores) menosprezando ou negligenciando alterações substanciais de cariz organizacional que infligem e perpetuam dor e sofrimento psicológicos.
Antes de meritória, a atenção que progressivamente as organizações outorgam ao bem estar e saúde mental no trabalho é requerida. Porque basilar. Para o trabalhador, para a organização, para a comunidade. Por responder a um direito da pessoa, por atender à produtividade da entidade, por fomentar o desenvolvimento social. Cientes de tal e focadas na geração de mudança nestes três reciprocamente influenciados níveis, uma abordagem holística, capaz de integrar as dimensões individual e organizacional nos seus planos de actuação conferirá às organizações o potencial de se constituírem como espaços efectivamente promotores de saúde mental. Sem que se faça de conta. Porque fazer, de facto, conta.
A autora não escreve segundo o Novo Acordo Ortográfico.