O mercado de trabalho, em Portugal, encontra-se numa situação de contração. O Instituto Nacional de Estatística (INE), nas estatísticas referentes ao quatro trimestre de 2023, informou que o número de pessoas empregadas em Portugal diminuiu em 35 mil pessoas. Um dado que colocou o número de profissionais empregados em 4,98 milhões.
A este dado, acrescenta-se outro. De acordo com a Pordata, em 2021, o último ano em que existem dados relativos ao valor da produtividade por hora nos 27 estados membros da União Europeia, Portugal tinha uma produtividade real de €24,3 por hora quando comparado com €43,6 da média europeia.
O que causa este fenómeno? Bom, há várias causas apontadas. Eduardo Oliveira, professor e diretor do curso de Mestrado em Economia e Gestão de Recursos Humanos da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, afirma que a falta de produtividade pode dever-se a vários fatores. Citado pelo Expresso, o docente aponta que a produtividade é influenciada pelos processos de trabalho, o grau de digitalização das empresas e a competitividade das organizações.
Outro aspeto indicado por especialistas é a saúde mental das pessoas. A saúde mental de um trabalhador tem um impacto direto na qualidade do trabalho e nos níveis de produtividade. No caso do mesmo enfrentar problemas como baixa autoestima e depressão, o resultado vai transparecer no trabalho.
A Ordem dos Psicólogos Portugueses, no seu II relatório “Custo do Stresse e dos Problemas de Saúde Psicológica no Trabalho”, publicado em fevereiro de 2023, revela que os problemas relacionados com o stress e a saúde mental dos colaboradores resultam em elevadas quebras de produtividade e estão a custar às empresas portuguesas até 5,3 mil milhões de euros por ano.
E entre os principais problemas de saúde mental associados à depressão, surge um termo. Descrita como depressão altamente funcional, distimia refere-se a pessoas que lidam com depressão, mas que, aparentemente, não exibem qualquer tipo de problema. Distimia pode ser causada por fatores externos a uma organização ou a um indivíduo – como uma crise económica ou o aumento do desemprego.
Alguns especialistas acreditam que a causa pode até ser hereditária. William Coryell, professor na Universidade de Iowa, refere num paper, publicado em 2022, que as causas da distimia envolvem hereditariedade, alterações nos níveis de neurotransmissores, alteração da função neuroendócrina e fatores psicossociais.
Coryell acrescenta que os sentimentos negativos de desmoralização e tristeza, contrariamente aos da depressão, ocorrem em ondas que tendem a estar vinculadas a pensamentos ou lembranças do evento deflagrador, acompanhados de sentimentos generalizados de inutilidade e autodepreciação. No entanto, os mesmos podem desaparecer quando as circunstâncias ou eventos causam uma melhoria.
Além de ser um diagnóstico clínico difícil de perceber, a distimia pode repetir-se ao longo do tempo. De acordo com um artigo publicado pela BBC, os sintomas de distimia podem manifestar-se numa pessoa durante dois ou mais anos.
Como identificar e corrigir?
Além da criação de um ambiente organizacional saudável, que passa por ter uma postura aberta na discussão do tema da saúde mental, o combate ao estigma, o aumento da literacia em saúde mental e uma atitude responsável face aos riscos psicossociais de fenómenos como a distimia são boas formas de combater este fenómeno tal como aumentar a produtividade das empresas.
Igualmente importante é a procura por ajuda especializada, como um psicólogo para acompanhar pessoas que estejam mais desmotivadas no local de trabalho.
“As organizações e as lideranças dependem cada vez mais da psicologia aplicada. Os líderes podem possuir visão, conhecimentos, intuição, sensibilidade e excelentes competências de gestão. Mas a aplicação da psicologia enquanto ciência exige competências profissionais especializadas e uma abordagem integrada no modelo de governança. Os psicólogos preparam os líderes e as suas organizações para a promoção da autonomia dos trabalhadores, para a sua participação activa na definição e implementação de estratégias, e para o reconhecimento e realização no trabalho”, escreve Sofia Ramalho, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses, no prefácio da obra “Avaliar, Intervir e Prevenir os Riscos Psicossociais: Práticas e Recomendações”.
A questão de uma liderança cuidadora, que compreende a necessidade de trazer estes profissionais para as organizações, foi um aspeto destacado num webinar do IIRH, em que profissionais comentaram dados do estudo “Saúde Mental no Local de Trabalho 2023”.
“Os líderes cuidadores são aqueles que conhecem si próprios muito bem e, ao mesmo tempo, dão espaço e tempo às equipas. Cabe a eles identificar situações e problemas de saúde mental”, afirmou Claúdia de Lemos Silveira, Head of Engagement and Wellbeing na Jerónimo Martins.
Isabel Viegas, Chief People Officer da Semapa, indica que existem três coisas fundamentais para pôr a saúde mental no radar: colocar o tema nos programas de formação das lideranças; trazer para dentro da empresa práticas de outras empresas; e pôr a saúde mental nos orçamentos anuais.
Num artigo publicado na RHmagazine, a Centralmed também identificou três categorias basilares de autocuidado que são pertinentes para melhorar o diagnóstico do estado de saúde mental dos colaboradores: a “emocional”, a “física” e, por fim, a “espiritual”.
A organização acrescenta a necessidade de cuidar das pessoas, apresentando sete formas: definir objetivos precisos e prioridades; manter um sono regular e revigorante; evitar os pensamentos negativos e pessimistas; manter uma conexão gratificante com amigos, colegas de trabalho e familiares; cultivar, nos tempos livres, atividades relaxantes e reconfortantes; e encontrar tempo para estar ao ar livre, preferencialmente em espaços verdes.
Neste cenário, as empresas têm uma função imprescindível na promoção da saúde mental no trabalho e das práticas de autocuidado entre os trabalhadores. A formação especializada neste tópico, por exemplo, pode também ser vital a melhorar o estado de espírito dos colaboradores. De acordo com Jéssica Alves, psicóloga clínica da TEAM 24, as soft skills causam um impacto positivo no desenvolvimento profissional e podem contribuir para uma melhoria do clima organizacional.
“Ao valorizarem e priorizarem estas competências, mais do que as competências técnicas, as empresas estão a promover a saúde mental dos seus colaboradores, potenciando não só resultados mais positivos, mas também aumentando a satisfação do trabalhador com a organização”, destaca Jéssica Alves.
Se a discussão atual for indicativa de uma mudança, o impacto da saúde mental na produtividade dos colaboradores vai ser mais amplamente analisado e contemplado pelas estratégias das empresas. A aposta na contratação de profissionais especializados nos ramos da saúde mental e a discussão aberta destes problemas são exemplos de reformas que podem ajudar a mitigar este fenómeno.
Os problemas de saúde mental nunca deixarão de estar presentes nas organizações. Segundo a Robert Walters, 1 em cada 5 pessoas já teve problemas de saúde mental no local de trabalho. A saúde mental engloba vários aspectos emocionais, psicológicos e de bem-estar social, que afetam o quotidiano das pessoas, como também desempenha um papel crítico na forma como os indivíduos lidam com o stress, interagem com os outros e tomam decisões.
Um clima organizacional empático, saudável e positivo pode contribuir para ambientes de trabalho mais acolhedores e estimulantes. Investir não só no recrutamento e seleção, na retenção de colaboradores com boas competências interpessoais, mas também na promoção destas habilidades dentro do contexto é apontado como fundamental na promoção da saúde mental e bem-estar nas empresas.