Nesta “bolha” de entusiasmo que vivemos em relação à Inteligência Artificial e a tudo o que é genericamente considerado como o “admirável mundo novo digital”, corremos por vezes o risco de nos esquecermos do mais que provável lastro de consequências negativas que esta evolução acelerada poderá vir a trazer para franjas muito significativas das nossas populações.
É facto que vamos assistindo por todo o lado, seja em livros, artigos, conferências ou debates, a avisos sérios sobre os eventuais perigos de um desenvolvimento tecnológico descontrolado e às suas possíveis consequências nefastas para o bom ordenamento do conjunto dos dinamismos sociais, em particular no que diz respeito ao risco de um progressivo “desapossamento” da capacidade de os seres humanos controlarem efetivamente o seu próprio destino.
No entanto, o desenvolvimento tecnológico é imparável e há legitimamente receio de que esses avisos não passem de meras intenções piedosas sem práticas que lhes deem substância, tal como aliás tem acontecido em relação às alterações climáticas, onde os discursos dos responsáveis políticos em defesa do planeta não têm tido as esperadas consequências práticas, pese embora essa ténue janela de esperança que surgiu recentemente na última reunião COP28 no Dubai.
Esses riscos de “desapossamento” já são hoje demasiado evidentes para poderem ser ignorados.
Para além das consequências que já são conhecidas da destruição massiva de postos de trabalho e da substituição da “mão de obra humana” por máquinas inteligentes, assistimos ao surgimento de um novo tipo de discriminação entre uma classe dominante de “novas inteligências” e um número crescente dos “proletários digitais”, ou seja, daqueles que não têm nem o conhecimento nem os skills necessários para “surfarem” as ondas do progresso e que, por isso, vão sendo progressivamente arrastados para periferias perigosas de segregação social.
Incapazes de perceber o que se está a passar à sua volta e com grandes dificuldades em acompanhar as novas dinâmicas sociais, essas pessoas, que não são tão poucas quanto se possa supor, acabam por viver numa espécie de “analfabetismo digital” em que, como em qualquer outra espécie de analfabetismo, vão tendo uma cada vez maior dificuldade em auto dirigir a sua vida, dependendo de terceiros para resolverem as mais diversas e simples tarefas do seu dia a dia em que a interação para a resolução dos problemas mais banais passa a ser feita diretamente com máquinas que, por mais “machine learning” que consigam produzir, estão totalmente despojadas do “human touch”, o único que pode conseguir transformar a mais simples situação numa experiência significativa de vida.
Dir-se-á que este tipo de fenómeno é apenas residual e temporário, e que a grande maioria da população acabará por saber adaptar-se às interações “sem pessoas” e até viver mais comodamente com isso, acabando por sentir o inegável conforto do que é pode gerir a sua vida “sem sair de casa”. O problema é que, para muita gente, viver é mesmo “sair de casa”, é sentir o subtil encantamento da permuta física com o outro, é poder falar das suas dificuldades sem a imposição totalitária dos esquemas rígidos das máquinas, por vezes tão exasperantes que levam as pessoas ao desespero pela sensação de impotência e sem poderem, pelo menos, exercer o seu direito à indignação de uma forma mais vernácula, analógica, mais…real.
Não se trata, evidentemente, nesta análise, de minimizar as imensas virtualidades que o conhecimento e a evolução têm para a melhoria global das condições de vida de todos nós. No entanto, é preciso ter em atenção que, como muito bem afirma Carlos Fiolhais, em entrevista à Revista Líder (# 24. Inverno 2023), “progresso no conhecimento e na sua aplicação não significa necessariamente uma vida melhor para todos. São precisas, designadamente, e tendo em vista os valores e direitos humanos, solidariedade, bondade, humanidade”.”
Se, por qualquer razão, formos perdendo esta fundamental sensibilidade em relação àquilo que é mais autêntico, mais profundo e mais nobre nos seres humanos, o futuro que viermos a construir, embora possa trazer prosperidade e progresso, pode vir também a causar enormes convulsões sociais, justamente pela erosão dessa capacidade essencial de “dominarmos as máquinas” e passarmos a ser totalmente dominados por elas.
Para todos nós, sejam sociedades, sejam indivíduos, “ainda não é demasiado tarde para nos prepararmos para 2030” (1). O futuro, não “pertence só a Deus”, como no ditado popular, mas depende muito mais da nossa capacidade de “ir ao encontro dos acontecimentos”, antes que “os acontecimentos venham contra nós”.
E o primeiro passo para essa preparação é justamente não ignorarmos a realidade e “tomar consciência de que o mundo tal como o conhecemos irá desaparecer irremediavelmente nalgum momento da nossa vida, muito provavelmente nos próximos dez anos”, sendo que, nesta perspetiva, o melhor que poderemos fazer é “pôr em causa o conhecimento adquirido em vez de continuar a respeitar pressupostos e formas de pensar herdados” (2).
Se bem que, desejavelmente, o número de “analfabetos digitais” possa ser vir a ser menor do que o dos “nómadas digitais”, não é de descurar a possibilidade de os primeiros ainda poderem vir a crescer durante algum tempo, mercê da contínua sofisticação dos avanços e desenvolvimento tecnológicos. Para aqueles, a solução não passa nem por se acomodarem à autocomiseração, nem por se arvorarem em “arautos da desgraça”, dilacerando as suas mentes e as suas vidas com vaticínios de catástrofes das quais, em última análise, serão eles próprios os primeiros a sentir os efeitos.
Como salienta Guillén, “não sobreviveremos aos desafios de 2030 a menos que mudemos a nossa mentalidade tradicional, que é demasiado linear e excessivamente rígida” (3).
Mas não são só estes que têm de mudar. Os outros, os “digitais”, orgulhosos das suas exímias capacidades e com uma elevada consciência de que o futuro lhes pertence, é bom que tenham em atenção a mensagem de Carlos Fiolhais, na entrevista já citada, quando avisa que “devemos parar não na aquisição do conhecimento, mas nas suas aplicações que prejudiquem os valores e direitos humanos”.
Porque, afinal, e ainda citando Fiolhais, “como disse François Rabelais, médico e escritor francês do século XVI, “Ciência sem consciência é a ruína da alma.”
NOTAS
(1), (2) e (3).
GUILLÉN, M.F. (2022). 2030: As Grandes Tendências Globais. Um Choque que Mudará o Futuro de Tudo. Lisboa: Clube do Autor, S.A.