O quinto Encontro de Recrutamento da Associação Salvador realizou-se na sexta-feira, em Lisboa, e juntou 19 empresas dispostas a integrarem nas suas estruturas pessoas com deficiência motora.
Na sua missão de promover a integração e a melhoria da qualidade de vida das pessoas com deficiência motora, potenciando os seus talentos, e porque “a área do emprego é fundamental”, a Associação Salvador promoveu, na sexta-feira, mais um Encontro de Recrutamento – o quinto desde a sua criação –, no Fórum Picoas, em Lisboa, que reuniu 19 empresas e 35 candidatos. “Em 2015, criámos o projeto de Apoio ao Emprego, com o objetivo de trabalhar tanto com as empresas, sensibilizando-as, como também com os candidatos que estavam à procura de emprego, capacitando-os e fazendo um matching entre o seu perfil e o perfil pretendido pelas empresas. Adicionalmente, criámos momentos de encontro entre ambos, porque, apesar de existirem várias feiras de emprego, reparámos que o nosso público alvo não as frequenta, por desconhecimento e por receio”, explica Ester Rosa, coordenadora de projetos da Associação Salvador, ao InfoRH.
As empresas com interesse em contratar e os candidatos à procura de emprego presentes no encontro inscreveram-se e receberam, da Associação, apoio que se materializa, no caso das entidades empregadoras, em reuniões e campanhas de sensibilização acerca dos talentos e do potencial das pessoas com deficiência motora e, no caso dos profissionais, num plano individual de emprego. “Recebemos as inscrições das pessoas que estão à procura de emprego e com elas trabalhamos no sentido de perceber qual é o seu perfil, as suas motivações, que emprego é que pretendem, que formação têm e o que podem melhorar para obterem o emprego pretendido. Depois fazemos formações sobre, por exemplo, criação e aperfeiçoamento do perfil de LinkedIn e criação e melhorias de um curriculum e outras mais intensivas, como é o caso do Bootcamp, que em Lisboa terminou na quinta-feira e que precede sempre este encontro, com o objetivo de preparar os candidatos para que neste dia estejam com a motivação em alta, com as ferramentas necessárias e com a capacidade de comunicarem às empresas aquilo que são e o que pretendem, aumentando as oportunidades de terem uma empregabilidade com sucesso”, esclarece a coordenadora de projetos.
Altice Portugal, Altran Portugal, Banco Santander, Câmara Municipal de Cascais, Cofidis, Deloitte, El Corte Inglés, Farfetch, Grupo Air Liquide (Vitalaire, Air Liquide Medicinal e Gasoxmed), Konecta Portugal, L’Oréal Portugal, Malo Clinic, Mcall, Michael Page, Multipessoal, Sport TV, Talenter, Unilever e Zurich Insurance Plc foram as empresas que marcaram presença no Encontro de Recrutamento de Lisboa.
Empresas socialmente responsáveis e informadas precisam-se
A realização destes encontros resulta, ainda, da procura e da divulgação desenvolvida pela Associação Salvador, porque, e segundo o seu presidente e fundador, “é, e vai continuar a ser muito necessário”, sensibilizar as entidades empregadoras acerca dos benefícios associados à contratação de pessoas com deficiência motora. “Hoje, as empresas estão mais sensíveis para esta temática, mas depois não conhecem a realidade e os problemas das pessoas com deficiência motora”, refere Salvador Mendes de Almeida, acrescentando que “as próprias empresas, para serem socialmente responsáveis, têm de ter mais abertura”. Conhecedor das dificuldades diárias presentes no quotidiano das pessoas com deficiência motora, Salvador sabe que “ainda há um longo caminho a percorrer, nomeadamente nos transportes adaptados, nas acessibilidades do dia-a-dia, para que as pessoas se consigam, de facto, deslocar e ir até ao local de trabalho sem qualquer problema”.

Em Portugal, a taxa de desemprego de pessoas com deficiência é três vezes superior à taxa de desemprego de pessoas sem qualquer limitação, “por falta de conhecimento das organizações e porque o mercado de trabalho é altamente competitivo”, diz o presidente e fundador da Associação com o seu nome. “Há muitas empresas que recrutam por mera responsabilidade social, mas deve ser também para preencherem uma função. Integrar uma pessoa com deficiência deve ser igual a integrar qualquer pessoa. Tudo é adaptável e quando há vontade tudo se faz. São muito poucas as pessoas com deficiência que estão empregadas no nosso mercado de trabalho e isto é uma realidade que temos de mudar”, alerta Salvador Mendes de Almeida. “Felizmente, temos a oportunidade de ter aqui empresas que estão a abrir as suas vagas e a ouvir alguns candidatos”, sublinha.
À procura de uma oportunidade
Sofia Mimoso está empregada, mas a sua incapacidade não permite que desenvolva o seu trabalho na totalidade, por isso está a procura de um emprego que que “consiga desempenhar a 100%”. “É a primeira vez que estou a participar numa iniciativa da Associação Salvador e é tudo uma novidade. A expectativa não era tão alta. Foi, efetivamente, um encontro gratificante e muito produtivo. As oportunidades estão expostas não para mostrar, mas para serem concretizadas e isso é muito importante. Daquele lado, quando vamos às entrevistas, as pessoas estão dispostas a ouvir-nos, mas também a ajudar-nos a conseguir um local de trabalho que se adapte a nós”, afirma.

Diogo Marques não é um estreante nos Encontros de Recrutamento. Participou em 2016 e, na altura, “correu bem”. “Fui contactado pelas empresas para uma segunda fase, só que o processo depois não continuou. Fui contactado, depois, pela Associação Salvador para um processo de recrutamento mais específico e individual”, explica. Não é novo nestas andanças, mas, ainda assim, a ansiedade, que “não ajuda”, acompanha-o em cada entrevista. “Há sempre expectativa, porque temos conhecimento de que as pessoas com deficiência têm mais dificuldade a arranjar emprego e isto é uma ponte entre as pessoas com deficiência e as entidades empregadoras. É sempre uma oportunidade e temos de aproveitar”, realça. Ele, como todos os candidatos com deficiência motora, podem acrescentar às empresas resiliência. “É sempre um ponto de vista diferente, abrir as empresas mais à deficiência e uma mais-valia para a entidade empregadora e para a pessoa com deficiência”, refere.
15 anos de uma missão que se vai cumprindo
A Associação Salvador comemorou, no passado dia 3 de novembro, 15 anos e, para o seu fundador, a sua missão “tem vindo a ser cumprida”, mas ainda “há muito a fazer”. “Ao longo destes 15 anos, os números e os pedidos de ajuda não têm diminuído. Hoje, a população está mais sensível e alerta para esta causa, mas ainda há muito preconceito, por exemplo ao nível da integração profissional e das acessibilidades. Estamos a celebrar o 15.º aniversário, mas estamos cheios de força para que os próximos 15 anos sejam de grande viragem e motivação para fazer mais e melhor”, afirma Salvador Mendes de Almeida.
“As pessoas com deficiência ficam anos há espera de uma cadeira de rodas e de uma resposta do Instituto de Emprego e Formação Profissional. Quando veem um sítio com menos acessibilidade não se queixam. A sociedade só vai mudar se a participação das pessoas com deficiência mudar e for mais ativa. O nosso objetivo é dar meios às pessoas com deficiência para que se sintam mais integradas e tenham ferramentas para lutar mais e melhor por uma sociedade mais inclusiva no seu todo, como a app +Acesso para Todos, que permite que as pessoas façam uma reclamação online”, finaliza o presidente e fundador da Associação Salvador.