Ana Santos (AS): Nos últimos 25 anos, o mundo do trabalho mudou drasticamente. Na sua opinião, como é que o setor de Recursos Humanos conseguiu adaptar-se a todas as mudanças sociais, económicas e tecnológicas?
Isabel Heitor (IH): Os profissionais de Recursos Humanos são cada vez mais especializados e acompanham a evolução “no mundo”. Além disso, fenómenos como o que ocorreu com a pandemia aceleram o desenvolvimento da prática e impulsionam o aparecimento mais acelerado de soluções inovadoras.
IH: Como imagina que será a Gestão de Pessoas daqui a 25 anos ? Haverá uma direção de Recursos Humanos ou cada direção assumirá esse papel?
AS: A Gestão de Pessoas, passe os anos que passar, continuará a ter um papel crucial nas organizações. Imagino que, futuramente, poderá vir a ser feita por cada uma das direções, talvez para que a ligação entre os vários membros de cada departamento seja melhorada e que o gestor de pessoas de cada departamento se foque apenas nas suas pessoas, para que os futuros colaboradores se sintam mais acolhidos nas suas organizações.
AS: Se tivesse de definir o maior desafio que o setor de Recursos Humanos superou nos últimos 25 anos, qual seria? E que lições ficaram desse desafio?
IH: A gestão das pessoas durante o covid. A grande lição é que, sem dúvida, as pessoas são o mais importante.
AS: Qual foi a área dos Recursos Humanos que sofreu as maiores mudanças nos últimos 25 anos?
IH: Mudou o papel que a própria função tem nas empresas. Há 25 anos predominava a área de processamento de salários e relações laborais. Hoje, existem preocupações com o bem-estar e com as pessoas numa vertente que vai muito para além do salário.
AS: Quais foram as competências que se tornaram mais relevantes para os profissionais de Recursos Humanos ao longo dos últimos anos? E, entre as competências que já eram fundamentais há 25 anos, quais considera que continuam indispensáveis nos dias de hoje e porquê?
IH: Resiliência, flexibilidade, agilidade e empatia. Já eram importantes a empatia e resiliência. A flexibilidade e agilidade impõe-se mais nos tempos modernos onde tudo acontece a alta velocidade.
IH: Qual é o impacto que a IA poderá ter na Gestão de Pessoas ?
AS: Cada empresa está a tentar usar a IA com o intuito de melhorar a forma de trabalho de cada um. Penso que a IA continuará a ser utilizada pelas organizações com a intenção de obterem uma redução do tempo na realização das tarefas. Muitas das empresas já usam a IA e as mesmas falam sobre a poupança de tempo que lhes permite. O grande problema no futuro talvez seja a redução de alguns dos postos de trabalho de hoje em dia. Contudo, haverá também a criação de novos postos, porque o mundo está sempre em mudança, tal como a IA com a Gestão de Pessoas. Relativamente às funções do futuro, aquelas que se mantiverem vão exigir competências superiores às atuais. As pessoas vão ter que, por exemplo, desenvolver mais as suas skills relativamente à tecnologia.
AS: Antigamente, a diversidade e a inclusão não eram tópicos tão debatidos nas empresas como são atualmente. Quais os maiores avanços que observou nesta área e o que ainda há a melhorar?
IH: Hoje falamos mais porque também há mais preocupação com a reputação das empresas, com a imagem que se transmite, com a necessidade de divulgar informação que atraia os talentos. Hoje também há mais preocupação em monitorar indicadores. A maior globalização também implica que seja mais fácil pessoas de várias partes do mundo trabalharem para empresas que estão em todo o lado, promovendo uma diversidade em vários pilares (género, cultura, idade, etc.).
A preocupação com a feminização aumentou muito.
IH: Que perfil que deverá ter, no futuro, um Diretor de Recursos Humanos (DRH)?
AS: No futuro, o perfil de todos os DRH necessita de ser diferenciado: estar atento a todas as mudanças que vão ocorrer e focar-se não apenas no negócio, mas também no bem-estar das suas pessoas. É fundamental que continuem à procura de soluções inovadoras para os desafios que vão aparecer, perceberem que nem todas as pessoas da organização vão, com o passar do tempo, ter as competências necessárias para desenvolverem a sua função, pois as competências necessárias para desempenhar as mais diversas funções vão sendo modificadas. Por este motivo, o DRH deverá apostar sempre na formação contínua dos seus profissionais e verificar de que forma conseguem dar continuidade às suas funções, mesmo que possam vir a ser substituídos por uma máquina. A IA com certeza vai facilitar a função dos DRH, mas não esquecendo que a inteligência humana também é fundamental para manter um negócio de pé.
Artigo publicado na edição 155 da RHmagazine, referente aos meses de novembro e dezembro de 2024
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