Num contexto global de instabilidade económica, incerteza geopolítica e aceleração tecnológica, o mercado de trabalho português mantém-se resiliente, mas revela um novo grau de exigência. O mais recente estudo salarial da Michael Page, que analisa as principais tendências e remunerações em 16 setores de atividade, traça o retrato de um mercado onde a procura por talento qualificado continua a superar largamente a oferta.
As empresas procuram perfis cada vez mais híbridos, capazes de unir competências técnicas, analíticas e humanas. E, num cenário em que a inteligência artificial (IA) assume um papel crescente na gestão de equipas e processos, a transformação cultural das organizações ganha força, impulsionada também pela nova regulamentação laboral e pela exigência de transparência salarial.
“Num contexto laboral marcado pela instabilidade a vários níveis, os profissionais assumem um papel cada vez mais ativo na definição do seu percurso, valorizando não apenas a componente salarial, mas também flexibilidade, oportunidades de desenvolvimento e propósito”, sublinha Álvaro Fernández, diretor-geral da Michael Page, citado em comunicado.
Onde se ganha mais (e porquê)
As remunerações mantêm-se estáveis, mas há sinais de valorização em funções técnicas e estratégicas. O Diretor Financeiro lidera a tabela, podendo auferir até 160 mil euros anuais, seguido do Chief Technology Officer (CTO), com 140 mil euros anuais, e dos Heads of SSC/GBS, que atingem o mesmo valor.
No setor industrial e energético, um Diretor-Geral chega aos 170 mil euros anuais, enquanto no setor hoteleiro o topo salarial ronda os 105 mil euros anuais para um Diretor de Hotel em Lisboa. Em healthcare & life sciences, um Business Unit Manager pode ganhar 150 mil euros anuais e, no retalho de luxo, um Store Manager em Lisboa chega aos 80 mil euros anuais.
Nos recursos humanos, os salários variam entre 35 mil e 120 mil euros anuais, consoante a dimensão da empresa. Já no setor jurídico, um Advogado com mais de 10 anos de experiência pode auferir 84 mil euros anuais, enquanto um Advogado Associado, entre quatro e sete anos pós-agregação, ronda os 42 mil euros anuais. No secretariado executivo, um Secretário de CEO pode alcançar 65 mil euros anuais em Lisboa.
Entre os setores mais dinâmicos, destaca-se a banca, onde funções ligadas ao risco, compliance e controlo interno estão entre as mais procuradas, com forte valorização face à escassez de talento. Perfis técnicos como Data Analysts, Business Analysts e Project Managers ganham relevância com a modernização tecnológica e a integração de soluções de automação. Um Responsável Financeiro pode chegar aos 70 mil euros anuais, e um Head of Marketing aos 55 mil euros anuais.
No customer service, a automação e a IA estão a transformar o setor: um Contact Center Manager pode ganhar até 95 mil euros anuais, enquanto um Operador de Backoffice com línguas nórdicas recebe até 42 mil euros anuais. Ainda assim, a flexibilidade é decisiva: 61% dos profissionais trocariam de emprego se aumentasse a obrigatoriedade do trabalho presencial.
O setor da saúde e ciências da vida continua robusto, com funções comerciais e de marketing entre as mais valorizadas, chegando aos 150 mil euros anuais. Na hotelaria, um Chef pode receber 98 mil euros anuais, e um Diretor de Operações, 95 mil euros anuais no Porto. Já nos recursos humanos, o equilíbrio entre remuneração e bem-estar assume papel central: 62% dos profissionais consideram o work-life balance o fator mais determinante na cultura organizacional.
O setor IT mantém um ritmo de crescimento elevado, mas a insatisfação salarial é notória — metade dos profissionais considera não ser pago de forma justa. Ainda assim, um Chief Information Officer (CIO) pode auferir até 120 mil euros anuais, e um IT Manager, 100 mil euros anuais. No setor dos seguros, as funções de compliance, reporting e data analytics ganham destaque. Um Atuário Sénior lidera a tabela com 68 mil euros anuais, e 78% dos profissionais deste setor viram os seus salários subir no último ano.
Na logística e supply chain, Diretores de Logística podem ganhar até 80 mil euros anuais, e Procurement Directors, 110 mil euros anuais. O setor imobiliário e da construção mantém estabilidade, mas a falta de mão-de-obra qualificada continua a pressionar salários. Um Diretor de Obra ganha 60 mil euros anuais, e um Encarregado de Obra, 50 mil euros anuais. Já no retalho, os Diretores Comerciais chegam aos 105 mil euros anuais e os Retail Managers a 84 mil euros anuais.
O marketing digital ganha terreno. Um Head of Digital pode receber 80 mil euros anuais, e um Diretor de E-commerce, 110 mil euros anuais.
Os Shared Services Centres afirmam-se como polos estratégicos internacionais, com funções técnicas e estratégicas a atingir salários até 160 mil euros anuais. A fluência em línguas e o domínio de processos globais são trunfos decisivos.
IA redefine o trabalho
O estudo conclui que a IA está a transformar o mercado de trabalho em quase todos os setores, acelerando a procura por profissionais capazes de aliar tecnologia, dados e competências humanas. O desafio é duplo: as empresas competem por talento altamente especializado, enquanto os profissionais exigem propósito, flexibilidade e progressão. “A atração e retenção de talento afirmam-se como desafios centrais, exigindo políticas de gestão de pessoas mais inovadoras, transparentes e alinhadas com as novas expetativas do mercado”, sublinha Álvaro Fernández.
Com mais de 40 anos de experiência e 139 escritórios em 37 países, a Michael Page antecipa um ano de transformação silenciosa nas empresas portuguesas. A pergunta já não é apenas “quanto se ganha”, mas o que motiva os profissionais a ficar.
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