Por Rui Malcata, Diretor da Steelcase Portugal
Com tantas mudanças a acontecer, quem lidera dificilmente ainda não se apercebeu que os locais de trabalho precisam de fazer algo fundamentalmente diferente do que fazia há não muito tempo. É, no entanto, difícil saber “o quê” ou “quando” o fazer. Os colaboradores querem algo melhor, mas o melhor pode parecer ilusório e difícil de definir. A resposta pode ser encontrada na “comunidade”.
As comunidades são lugares onde vivemos e relações que construímos. O design do espaço de trabalho baseado na comunidade, o “Community-Based Design”, serve ambas e precisamos delas mais do que nunca.
As comunidades melhoram a nossa vida quotidiana. Passamos muito do nosso tempo a viver nos nossos ecrãs, mas as pessoas dizem que estão “afogadas” em informação e com falta de verdadeiro envolvimento humano. Numa era de proliferação de tecnologias, em que o tempo e o lugar estão distribuí- dos, estão a ser comprometidos aspetos da nossa humanidade. Como resultado, uma maior consideração por ambientes e experiências que melhorem as relações, criem confiança e promovam um profundo sentido de comunidade é um imperativo para as organizações melhorarem a vivência e experiência dos seus colaboradores.
É difícil mudar mentalidades porque, basicamente, temos feito o mesmo há mais de um século. Embora hoje muito mais atentos ao lado humano da equação, a conceção de escritórios tem sido essencialmente a de fazer as coisas de forma rápida e eficiente para acelerar o fluxo de trabalho, caindo não raramente numa abordagem “tamanho único”, pontilhada por alguns momentos mais “wow”, que não satisfaz as complexas necessidades das organizações modernas ou das pessoas que querem ser tratadas verdadeiramente como seres humanos. Mas quando tanta coisa está em mudança, é da natureza humana agarrarmo-nos ao que sabemos e compreendemos. Hoje, as principais organizações estão a reconhecer a necessidade dessa abordagem mais centrada no ser humano.
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Mas como chegamos lá? Não faltam estudos que demonstram o quanto as pessoas se estão a afastar e a tornarem-se cada vez mais “desligadas”: nem sempre vivemos na mesma comunidade que a nossa família ou aderimos a clubes ou conhecemos os nossos vizinhos. O trabalho é um dos poucos locais onde diversos grupos de pessoas se juntam para resolver problemas comuns.
O “Community-Based Design”, desenvolvido por investigadores e designers da Steelcase há mais de duas décadas, é uma abordagem para pensar o local de trabalho baseada em lições de planeamento urbano que constroem ótimos lugares para se viver. É uma metodologia de planeamento que envolve as pessoas da “comunidade” do local de trabalho para melhor apoiar a forma como estas precisam de trabalhar hoje e promover o seu bem-estar. É uma abordagem centrada no ser humano que enfatiza a inclusão no processo e a compreensão de como as pessoas realmente trabalham. Estas abordagem e metodologia evoluíram à medida que o trabalho, a tecnologia e as expetativas mudaram. Agora, enfrentam as mudanças rápidas provocadas por novos padrões de comportamento no local de trabalho: viver no ecrã, o superciclo da IA, construir uma cultura para apoiar metas crescentes de sustentabilidade e a necessidade urgente de apoiar a saúde mental e o bem-estar no trabalho.
O espaço físico molda comportamentos, une as pessoas através de experiências partilhadas, construindo conexão, confiança, sentido de propósito e compromisso. O resultado da aplicação do “Community-Based Design” é um local de trabalho vibrante que pode facilmente responder e adaptar-se a condições em constante mudança. Isso ajuda a construir resiliência, para que as pessoas possam estar mais envolvidas e a organização possa prosperar. Na opinião de Meg Bennett, Principal Designer global da Steelcase, “as grandes cidades são fontes de inspiração sobre como projetar locais de trabalho que constroem um sentido de comunidade”. “As pessoas precisam de sentir que têm controlo sobre onde, quando e como se ligam aos outros”, afirma Libby Sander, professora de comportamento organizacional na Universidade Bond, em Queensland, Austrália. Existe uma ligação entre a falta de controlo sobre o ambiente de trabalho e indicadores de stress físico, como a frequência cardíaca. Fornecer uma variedade diversificada de espaços, como os encontrados em cidades prósperas, dá às pessoas mais controlo e reduz o stress.
Concebido originalmente nos anos 2000, o “Community Based Design” contrapôs o planeamento linear predominante de cubículos e introduziu a ideia de espaços diversos dispostos em padrões para estimular mais interação, evoluindo à medida que o trabalho, a tecnologia e as expetativas mudaram. Vai além de uma metáfora e está fundamentado em pesquisa. Quando identificamos padrões de comportamento, podemos projetar espaços para apoiar como indivíduos e equipas realmente trabalham. Podemos integrar pontos de ligação, criar
escolhas para trabalho individual e usar o design para incentivar as pessoas a adotarem novos comportamentos que as ajudem a sentir-se e trabalhar melhor, a melhorar a sua experiência.
Esta abordagem difere das formas de planeamento que se focam na hierarquia, eficiência e padronização. Vai além de projetar um local de trabalho eficiente, eficaz e “wow”. Trata-se de projetar experiências que promovam a conexão e o envolvimento – como o espaço afeta as pessoas e considera as necessidades únicas do bem-estar – e a saúde mental, física e emocional de indivíduos e equipas.
Artigo publicado na edição 157 da RHmagazine, referente aos meses de março e abril de 2025
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