Um novo estudo da Coface, em parceria com o Observatório das Profissões Ameaçadas e Emergentes, traça um retrato detalhado dessa transformação: uma em cada oito profissões já ultrapassa o limiar crítico de automação, definido como tendo mais de 30% das suas tarefas potencialmente automatizáveis. Este patamar não implica necessariamente desaparecimento de funções, mas aponta para uma reconfiguração estrutural profunda.
A automação já não se limita a tarefas repetitivas. A IA está agora a avançar sobre funções cognitivas e qualificadas. Áreas como engenharia, tecnologias de informação, finanças, direito ou funções administrativas estão entre as mais expostas. Já profissões mais manuais ou baseadas na interação humana, como construção, restauração ou cuidados, continuam menos expostas.
O impacto varia. Em setores como gestão, finanças ou tecnologia, mais de um quarto das tarefas pode vir a ser automatizado. Nos serviços presenciais ou em profissões técnicas e industriais, o risco fica abaixo dos 10%. Entre estes dois extremos, estão áreas como educação, saúde ou vendas, onde a componente humana continua a fazer a diferença.
Portugal abaixo da média, mas com sinais de alerta
Portugal surge com uma exposição ligeiramente abaixo da média europeia. O estudo explica este posicionamento com o peso de setores como comércio, turismo, transportes ou construção, onde a automação é mais limitada. Por outro lado, o país tem menos presença em áreas mais intensivas em conhecimento, como tecnologia ou serviços científicos, o que reduz o risco global.
Ainda assim, há sinais de alerta. Funções administrativas, comerciais e de atendimento ao cliente, muito presentes no mercado de trabalho português, estão entre as mais expostas. O mesmo acontece com algumas áreas técnicas e de engenharia.
Na Europa, o cenário é desigual. A exposição varia entre cerca de 12% do conteúdo de trabalho, em países como a Turquia, e quase 20% no Reino Unido, um dos níveis mais elevados. Países como os Países Baixos, Irlanda ou Luxemburgo, mais orientados para serviços intensivos em conhecimento, apresentam níveis superiores de risco. Já economias do sul da Europa, como Portugal, Espanha ou Itália, tendem a estar ligeiramente abaixo da média europeia, com valores em torno dos 15%.
Mas o impacto da IA vai além do emprego. O estudo alerta para possíveis efeitos na economia como um todo. Se a automação atingir profissões mais qualificadas, pode alterar a forma como o valor é distribuído entre trabalho e capital e colocar pressão sobre sistemas fiscais muito dependentes do emprego.
Qualificações sob escrutínio
Também levanta dúvidas sobre o papel das qualificações. Se tarefas associadas a níveis elevados de formação se tornarem automatizáveis, competências como adaptabilidade, pensamento crítico ou capacidade de supervisão podem ganhar mais importância do que os diplomas.
No total, foram analisadas 923 profissões, com base numa metodologia que decompõe cada função em tarefas e ações elementares. A principal conclusão é clara: a IA não está a transformar apenas tarefas simples. Está a entrar no centro do trabalho e isso pode mudar, de forma profunda, a forma como as profissões são exercidas.
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