Autores:
Arménio Rego
Professor na Católica Porto Business School
Miguel Pina e Cunha
Professor Fundação Amélia de Melo, Nova School of Business and Economics
As notícias são sobejamente conhecidas. “Bruno de Carvalho apresentou às 23:44 de sexta-feira uma providência cautelar num tribunal através da Internet, com o objetivo de suspender a eficácia do resultado das eleições” (SIC Notícias). “A lista de Bruno de Carvalho, que pretende impugnar as eleições, alegou a existência de ‘inconformidades e irregularidades’ no decorrer do ato eleitoral que podem ter desvirtuado o seu resultado” (Correio da Manhã). Quando indagado pelo jornal Público sobre se “tem atualmente complexos em ser sportinguista?”, respondeu: “Não, nunca o tive. Fico apenas triste que haja alguns sportinguistas que durante esta campanha estejam a dar uma péssima imagem do clube e de nós enquanto família”.
A particularidade destas notícias advém da data: referem-se às eleições para a presidência do Sporting Clube de Portugal (SCP) em março de 2011. E sugerem que Bruno de Carvalho (BC) tem “um estilo”, goste-se ou não. Houve quem gostasse. Perante a sua posterior queda, emerge a questão: o que explica que BC tenha sido eleito em 2013, reeleito em 2017 com mais de 86% dos votos, e apoiado por inúmeras personalidades? A expressão do médico Eduardo Barroso, já em 28 de junho 2018, na SIC Notícias, é elucidativa: “Em 2011, o Bruno de Carvalho apareceu em minha casa às sete da tarde e saiu às três da manhã (…). Não o conhecia de lado nenhum. Portanto, foi um cheque em branco que eu passei, um cheque completamente em branco. De entusiasmo, de brincadeira, achei graça. (…). Convenceu-me. Mas não sabia. Aí foi um cheque em branco”.
O carisma
BC teve graça num tempo que a situação do SCP não tinha graça nenhuma. O clube estava numa situação financeira, desportiva e reputacional problemática. E BC articulou uma narrativa que impeliu numerosos sportinguistas a acreditar que era possível resgatar a raça do leão. Entre BC e os adeptos desenvolveu-se uma relação carismática, uma espécie de explosão que combina três aspetos: a faísca do líder, o combustível provindo da insatisfação dos seguidores e o oxigénio de um ambiente crítico propício. A liderança carismática não decorre, pois, do líder – mas da complexa interação de cinco aspetos[1]:
. Um líder com talentos: BC cumpria este requisito. É determinado, ambicioso, corajoso e resiliente.
. Uma crise ou uma situação instável: O SCP estava numa situação crítica, como o programa eleitoral de BC, em 2017, enfatizava.
. Uma visão radical para lidar com a crise: A visão de BC para lidar com a crise colidia com o passado e os alegados “culpados” pelo mesmo. Prometia vitórias. A contratação de Jorge Jesus, que logo venceu o arquirrival Benfica e lhe conquistou a Supertaça, em 2015, conferiu grande credibilidade às promessas de BC.
. Seguidores atraídos pelo líder e pela sua visão para enfrentar crise: As vitórias eleitorais de BC, e o apoio recebido de inúmeras individualidades, demonstram cabalmente esse efeito apelativo por ele gerado.
. A validação do talento e da visão do líder: Esta validação alcança-se com sucessos. Sem eles, foi-se extinguindo o fogo carismático entre BC e os seus apoiantes.
A relação carismática durou enquanto a expectativa de gloriosas vitórias durou. A chama manteve-se de tal modo acesa que, nas eleições de 2017, BC alcançou mais de 86% dos votos. Inúmeras individualidades descontaram as suas diatribes narrativas, preferindo apontar os resultados positivos que o SCP alcançara com a sua liderança.
A que se deve a queda no precipício
Desconhecemos o que terá ocorrido na vida e no íntimo de BC para o declínio da sua liderança. Sabemos, apenas, o que é público[2].O epítome da tragédia ocorreu com a sua destituição como líder – a primeira na história do clube. O tombo de BC assenta na relação complexa entre vários fatores: ele próprio, adeptos, adversários, jogadores, treinador e a situação do clube. A arena mediática também terá potenciado a queda. Mas dois fatores interligados merecem destaque: a escassez de resultados e a soberba.
A escassez de resultados vitoriosos foi levando ao apagamento da chama carismática. É possível que o próprio BC tenha começado a recear esse apagamento. Porventura, foi esse receio, consciente ou não, que o impeliu a impor condições para se manter na presidência do SCP. Chegou mesmo a sugerir, em fevereiro de 2018, após a vitória sobre o Astana, que esse poderia ser o seu último jogo como presidente do clube – “e isso custa-me bastante”[3].Diversos jornais fizeram manchete com uma alegada exigência do então presidente do SCP de ser “aclamado” pela maioria qualificada dos sócios (pelo menos 75% dos votos), em Assembleia Geral, para continuar a dirigir os destinos do clube. O jornal Record (6 de fevereiro de 2018) deu voz a BC, que terá afirmado: “Isto não é uma chantagem. É um ser humano que não aguenta mais”.
O líder sentia-se defraudado e injustiçado pela ingratidão dos adeptos. As condições que então exigiu foram-lhe concedidas pelos sócios: em Assembleia Geral realizada em 17 de fevereiro, saiu vencedor com quase 90% da votação. Sentindo-se entronizado, afirmou: “A partir de hoje não há grupos nem grupinhos”[4]. E deixou (mais) três condições para que ele próprio se expusesse menos nas redes sociais: “que os sportinguistas deixem de comprar jornais desportivos e o Correio da Manhã, deixem de ver canais portugueses de televisão, exceto a Sporting TV, e que todos os comentadores afetos ao Sporting deixem imediatamente os programas em que participam”. Tudo – alegava BC – em prol da alegada necessidade de os sportinguistas se mobilizarem para a militância. Por seu turno, Marta Soares, o presidente da Mesa da Assembleia Geral, comentou a votação do seguinte modo[5]: “Bruno de Carvalho é um grande presidente do desporto em Portugal e conseguiu sair daqui com uma votação maior do que nas eleições”.
Não foi necessário muito tempo para que Marta Soares engolisse estas palavras. Em abril, na sequência do célebre post de BC dirigido aos jogadores após a derrota com o Atlético de Madrid, Marta Soares alegava que com BC “não há paz no Sporting” e pedia a sua demissão. Dava-se início à colisão pública entre os outrora parceiros de missão.
Na génese deste tipo de condutas de BC pode ter estado o desenvolvimento da húbris, uma espécie de soberba que afeta alguns poderosos. Um indício pode ser encontrado na entrevista que BC concedeu à revista do Expresso, ainda estava ativo o fogo que o SCP atravessava após os motins de Alcochete[6]. Além das tiradas certeiras sobre a bolha em que as estrelas de futebol por vezes se colocam, o então líder do SCP fazia jus ao seu temperamento:
. “O tipo de presidente que eu sou, o presidente-adepto, é o presidente do futuro. As coisas não andam para trás, o futebol tem de ter uma transparência total, porque as pessoas estão fartas, fartas, fartas. Temos é de trazer pessoas sérias para o futebol – e sério sou eu”.
.“’Para ter sucesso, a primeira coisa a fazer é criar fama de maluco. Depois, é só mantê-la.’ É essa a minha estratégia de comunicação. 100% eficaz e eficiente, digo-lhe já.”
. “Eu sou realmente diferente, têm de perceber isto (…). Sou uma ilha deserta linda de morrer no meio de um oceano num planeta de um só continente onde toda a gente se conhece”.
A húbris é o sintoma de expressões populares como “o poder subiu-lhe à cabeça”. Evidência científica sugere que, quando exercido durante períodos longos e sem o freio de contrapesos, o poder conduz a perdas de discernimento. Diversas condutas de BC sugerem que possa ter sido tomado pela maleita. Se o leitor tem dúvidas, responda às questões do Quadro 1. Três ou quatro respostas afirmativas podem significar que a húbris está a despontar. Quantas são as respostas afirmativas a propósito de BC?
E se tivesse ganho?
BC foi ídolo antes de ser perdedor. Todavia, se a sua visão tivesse sido validada pela obtenção de resultados “gloriosos”, os seus pecados teriam sido porventura transformados em virtudes. A sua falha maior foi não ter brindado os adeptos com vitórias desportivas – e derrotas dos adversários. Se, após as convulsões geradas pelo post que colocou no Facebook depois da derrota em Madrid, o SCP tivesse alcançado as desejadas vitórias, a sua conduta hubrística teria sido porventura perdoada – e BC poderia ser hoje entronizado pelo seu génio truculento. Na já referida intervenção na SIC Notícias, Eduardo Barroso não poderia ter sido mais claro. Afirmou que se orgulhava de ter apoiado BC. Acrescentou que fora “um erro trágico” BC não se ter demitido após o incidente de Alcochete, e que esse erro lhe havia causado danos que ele “vai pagar caro na sua vida” que ele não merecia: “ele não merecia, em dois meses, em dois meses destruiu o trabalho de cinco anos, não merecia”. Afirmou ainda que se BC se tivesse então demitido e demarcado daquele “ato terrorista”, ele teria continuado a apoiá-lo: “Se não tem havido invasão de Alcochete, eu não tinha retirado o apoio a Bruno de Carvalho, vamos ver se a gente se entende”.
Lugares estranhos
O futebol é um lugar estranho. É emoção e irrazão. Muitas pessoas dotadas de pergaminhos académicos, políticos e mesmo éticos descaracterizam-se quando se sentam à mesa do futebol. Aceitam condutas de liderança que jamais aceitariam noutros contextos. O processo de liderança carismática que por vezes se desenvolve conduz a efeitos estranhos. O irrazoável passa a ser tomado como virtude – se as vitórias surgirem e os adversários forem derrotados. O discernimento para avaliar a razoabilidade e a ética é perdido entre a emoção da vitória. Mas tudo se desmorona quando a esperada glória não é alcançada.
Será este um fenómeno exclusivo do futebol? Não! Nos mundos político e empresarial, são frequentes os casos de líderes abrasivos e intratáveis que são respeitados por serem bem-sucedidos – pelo menos até se constatar que têm pés de barro. Os liderados perdem discernimento crítico e deixam-se toldar por resultados, nem sempre sustentáveis. Avaliar a qualidade da liderança em função dos resultados faz sentido. Mas deve ter limites. A liderança deve ser avaliada em função dos resultados, mas também dos meios. Quando os meios não são apropriados, os resultados não são sustentáveis. Por conseguinte, a boa liderança requer sabedoria dos líderes, mas também dos liderados.
O caso BC sugere que o carisma é fogo que arde até deixar de arder. Mostra que o amor pelo líder pode transmutar-se em ódio. Chama a atenção para os riscos das lideranças carismáticas, sobretudo quando os líderes desenvolvem húbris e os liderados deixam de exercer discernimento crítico. As lições são tão válidas para o terreno desportivo quanto para os mundos empresarial e político.
Indicadores da húbris[7]
. A pessoa tende a ver o mundo sobretudo como uma arena em que se exerce poder e se busca glória?
. Revela predisposição para tomar decisões que contribuam para melhorar a sua imagem?
. É fortemente preocupado/a com a sua imagem e a sua apresentação?
. Exprime-se de modo messiânico e grandioso?
. Identifica-se com a nação/organização de um modo que toma os interesses e a reputação de ambos (ele/a e a nação/organização) como idênticos?
. Tende a falar dele/a próprio/a na terceira pessoa ou a usar o “nós” majestático para se referir a si próprio/a?
. Denota excessiva confiança no seu próprio julgamento e despreza as opiniões dos outros?
. Revela autoconfiança exagerada e um sentido de omnipotência – de tudo ser capaz de fazer com sucesso?
. Acredita que não tem de prestar contas aos seus semelhantes – mas apenas a Deus e à história?
. Está fortemente convicto/a de que, no tribunal divino ou da história, as suas ações serão compreendidas?
. Perde contacto com a realidade – podendo tornar-se progressivamente isolado?
. Denota atrevimento, imprudência e impulsividade?
. Acredita em que a sua “visão ampla” e a retidão moral da sua conduta lhe permitem seguir caminhos que ignoram aspetos “comezinhos” como os custos ou os efeitos indesejados?
. Quando as coisas correm mal, torna-se incapaz de mudar de rumo e desvaloriza o problema?
Referências
Owen, D. (2008). Na doença e no poder. Lisboa: D. Quixote.
Trice, H. M., & Beyer, J. M. (1986). Charisma and its routinization in two social movement organizations. Research in Organizational Behavior, 8, 113-164.
Notas [1] Trice & Beyer (1986). [2] Veja momentos-chave do percurso conducente à queda em: Observador, 17 de julho de 2018 (https://observador.pt/2018/08/17/ bruno-de-carvalho-os-10-momentos-chave-da-crise-desde-o-postsobre-o-jogo-com-o-atletico-ate-esta-reentrada-em-alvalade/). [3] Observador, 15 de fevereiro de 2018 (https://observador. pt/2018/02/15/bruno-de-carvalho-possivelmente-este-foi-omeu-ultimo-jogo-como-presidente-do-sporting/). [4] Observador, 17 de fevereiro de 2018 (https://www.dn.pt/desporto/sporting/ interior/bruno-de-carvalho-ganhou-a-assembleia-geral-9126391.html) [5] Observador, 17 de fevereiro de 2018 (https://observador.pt/2018/02/17/brunode-carvalho-reforcado-como-presidente-do-sporting-com-quase-90-dos-votos/) [6] Expresso E, 12 de maio de 2018. [7] Owen (2008).