Em 2024, o “Global Workforce of the Future” centrou-se na investigação da forma como se trabalha em tempos de mudança e do impacto da IA (Inteligência Artificial) no trabalho. Neste seguimento, os resultados traduzem orientações às organizações que procuram desenvolver uma equipa de trabalho versátil e preparada para o futuro.
Para o efeito, o Grupo Adecco inquiriu 35.000 trabalhadores distribuídos por 27 países, maioritariamente da região EMEA. O levantamento de dados decorreu no período de julho e agosto de 2024, nos idiomas nativos dos trabalhadores inquiridos. Foram, ainda, estabelecidas quotas, para assegurar uma amostra representativa por idade e género, em cada país.
Como principais conclusões foram mencionadas:
- As empresas são responsáveis por preparar os seus colaboradores – Os trabalhadores temem um futuro incerto, pelo que mais pessoas optam por permanecer nos mesmos empregos. O impacto da IA na estabilidade foi menosprezado e os profissionais procuram orientação.
- As empresas devem preparar os talentos para o futuro – Apenas 11% dos inquiridos se sentem preparados para o futuro. As empresas devem empenhar-se no crescimento das competências para formar futuros líderes.
- Os colaboradores querem mobilidade interna, mas as empresas não atribuem valor ao processo – Cada vez mais trabalhadores querem mobilidade interna, mas há menos a querer manter-se na empresa especificamente para melhorar competências.
- O impacto da IA revela potencial humano de elevado valor – À medida que integram a IA, as empresas têm descoberto ganhos de produtividade. Muitos trabalhadores ganharam capacidade para trabalho criativo ou estratégico, mas precisam de melhor orientação para maximizar o seu potencial.
- A criação de confiança na IA potencia as capacidades de cada colaborador – Com as inúmeras mudanças em curso no local de trabalho, cuidar da saúde mental dos trabalhadores deve ser uma prioridade para as empresas. Podem fazê-lo mostrando que estão focados na inclusão e na adoção de práticas de trabalho sustentáveis.
1.As empresas são responsáveis por preparar os seus colaboradores
40% dos trabalhadores estão preocupados com a “estabilidade do emprego a longo prazo”. A incerteza económica e os receios quanto à estabilidade do emprego estão a moldar o local de trabalho. A flexibilidade de trabalho é a segunda maior preocupação dos inquiridos.
Os trabalhadores estão a interiorizar a realidade da IA no local de trabalho. Apenas 23% dos inquiridos considerou que esta ferramenta tornou as suas competências menos relevantes, 21% considerou que a IA exigiu a ponderação da mudança de profissão e 13% garantiu que a IA provocou a perda do seu emprego.
Os profissionais querem manter-se nas mesmas posições até estarem mais esclarecidos sobre o futuro do trabalho. Entre 2022 e 2024, os trabalhadores que planeiam manter-se na mesma empresa nos próximos 12 meses passaram de 61% a 83%. Os profissionais consideram-se menos aptos para se esclarecerem sobre o futuro do trabalho do que no ano anterior.
Os trabalhadores querem manter-se aptos para o mercado de trabalho e vêem a IA como parte do seu futuro. 71% dos inquiridos estão dispostos a manter-se versáteis, a fim de se adaptarem a ambientes dinâmicos. 69% tencionam assumir maior controlo sobre o desenvolvimento das suas competências no futuro. 51% acreditam que ter competências no domínio da IA aumenta as suas oportunidades de emprego. 46% garantiram que a IA lhes deu mais oportunidades para adquirir competências e progredir no seu trabalho.
Recomendações às empresas:
- Fazer uma avaliação honesta sobre o futuro do trabalho e informar os colaboradores sobre as suas perspetivas;
- Investir no desenvolvimento de talentos e nas novas tecnologias;
- Orientar os profissionais para a natureza dinâmica do trabalho e as suas oportunidades.
2.As empresas devem preparar os talentos para o futuro
Os trabalhadores preparados para o futuro representam ainda um pequeno segmento que os empregadores devem estimular e promover. Estes caracterizam-se como flexíveis, tech savvy (proficientes na utilização de tecnologias) e proativos.
A Índia é o país com mais trabalhadores preparados para o futuro (19%). A nível setorial, destacam-se os Serviços Financeiros, Seguros, Serviços Jurídicos e Profissionais, com 32% dos profissionais preparados para o futuro. Em termos de nível de antiguidade, os gestores são os mais preparados.
Os trabalhadores preparados para o futuro são moldados pelos seus empregadores, que devem avaliar (analisar regularmente a adequação e a pertinência das competências atuais), informar (manter um diálogo regular sobre a progressão profissional), desenvolver (cooperar com os trabalhadores na elaboração de um plano de desenvolvimento de carreira personalizado) e formar (investir no desenvolvimento das competências dos trabalhadores).
Um trabalhador preparado para o futuro abandonará um empregador que não apoie as suas ambições, em busca de compensações justas e oportunidades de desenvolvimento. O equilíbrio entre as vidas pessoal e profissional é muito valorizado.
Os profissionais preparados para o futuro são a próxima geração de líderes, tendo maior probabilidade de referir que o seu empregador os está a preparar com competências a longo prazo. Têm, ainda, maior probabilidade de participar em ações de formação de liderança ou de soft skills, facultadas pelo seu empregador. 59% dos líderes empresariais concordam que “a forma mais eficaz de colmatar as lacunas de competências é melhorar o desenvolvimento de carreiras e o planeamento da sucessão de líderes”.
Recomendações às empresas:
- Alinhar a estratégia de talentos com a transição fundamental para uma economia baseada em competências;
- Colaborar com os funcionários na implementação de planos de desenvolvimento de competências a longo prazo;
- Incentivar os futuros líderes no sentido de colmatar as lacunas de competências e lançar bases para uma força de trabalho mais flexível.
3.Os colaboradores querem mobilidade interna, mas as empresas não atribuem valor ao processo
Os trabalhadores querem melhorar as suas competências, mas as empresas não aderem. Os líderes empresariais devem tirar maior partido das oportunidades de talento existentes. 76% dos inquiridos valorizam a mobilidade interna.
Os líderes empresariais devem empenhar-se mais em maximizar os talentos existentes. O número de trabalhadores que querem manter-se no atual emprego sem condições acrescidas aumentou 14 p.p. em relação ao ano anterior. Por outro lado, o compromisso com o desenvolvimento profissional está a estagnar. Quem recebe formação e desenvolvimento no seu emprego tem menos probabilidade de se demitir.
Recomendações às empresas:
- Promover a mobilidade interna, mantendo um equilíbrio entre desenvolver talentos internamente e contratar externamente;
- Avaliar continuamente as necessidades atuais e futuras de competências e aplicar os conhecimentos ao planeamento da força de trabalho;
- Apoiar igualmente todos os trabalhadores no seu desenvolvimento.
4.O impacto da IA revela potencial humano de elevado valor
Ter a IA integrada no trabalho está a tornar-se parte da rotina diária. O tempo médio poupado por dia com a utilização desta ferramenta é de uma hora. A IA possibilita um aumento da criatividade, mas ainda são poucos os trabalhadores que aproveitam o tempo extra. 73% dos trabalhadores que utilizam a IA garantem ser mais produtivos.
Os trabalhadores preparados para o futuro estão a receber mais apoio dos seus empregadores em matéria de IA, mas ainda não é suficiente. Ainda assim, a orientação é mais aplicada no que diz respeito à formação indicada para melhorar competências, às ferramentas mais indicadas para cada tarefa e às tarefas que devem ser realizadas com recurso a IA.
Os trabalhadores têm potencial ao longo das suas carreiras e os empregadores devem ajudá-los a explorá-lo. Investir na formação é, assim, fulcral. 29% dos inquiridos hesita na utilização da IA por considerar que não é relevante para as suas funções.
Recomendações às empresas:
- Proporcionar formação holística em IA, incluindo orientação no local de trabalho, diretrizes de políticas inclusivas e melhoria de competências;
- Libertar o tempo dos trabalhadores para se concentrarem em trabalho estratégico e criativo que requeira competências exclusivamente humanas;
- Proporcionar mais orientação aos trabalhadores nas fases iniciais da sua carreira
5.A criação de confiança na IA potencia as capacidades de cada colaborador
A saúde mental de alguns trabalhadores tem vindo a ser afetada, à medida que a IA transforma os locais de trabalho. Os trabalhadores mais vulneráveis à ação da IA afirmam que estão preocupados com o impacto da IA e com a segurança do seu emprego a curto e longo prazo. Muitos destes profissionais perderam o emprego ou mudaram de profissão, devido à IA.
As empresas devem esforçar-se mais para que o futuro seja favorável a todos. São menos de metade as empresas que têm uma estratégia de recrutamento bem desenvolvida e inclusiva. Neste âmbito, os próprios líderes empresariais admitem ter ainda muito “trabalho pela frente”.
Para alguns trabalhadores, a IA pode prejudicar as suas perspetivas de carreira. O principal motivo para a falta de confiança dos profissionais na ferramenta na fase de recrutamento, por exemplo, é a incapacidade de avaliação de sinais positivos não-verbais transmitidos durante uma entrevista.
A ansiedade sentida faze à IA valoriza cada vez mais o contributo humano, pois o número de pessoas que preferem ser avaliadas por um ser humano está a aumentar. São menos de metade os profissionais que confiam nas competências e conhecimentos dos decisores em matéria de IA.
Quando as empresas realizam formação em IA, os trabalhadores aplicam o que lhes é ensinado. 49% dos inquiridos afirmam ter um modelo de utilização responsável e ética da IA, sendo que apenas 34% concluíram formação sobre esta temática. Destes, 79% aplicam o que aprenderam no trabalho.
Recomendações às empresas:
- Implementar uma política de utilização ética da IA e disponibilizar formação;
- Garantir que as políticas relacionadas com a IA e o planeamento das equipas de trabalho consideram a inclusão, a segurança, a transparência, a privacidade e a responsabilidade;
- Assegurar que todos os líderes têm competências atualizadas em matéria de IA e adotam novas tecnologias.
A adaptação à transformação digital não é apenas uma questão tecnológica, mas também estratégica. As organizações que se comprometerem com o desenvolvimento das competências, a criação de um ambiente inclusivo e a utilização ética da IA estarão mais preparadas para navegar no futuro do trabalho, garantindo a sua sustentabilidade e o sucesso das equipas. A chave para o futuro passa por investir nas pessoas e nas suas capacidades de evolução, aproveitando as oportunidades oferecidas pela tecnologia.