As empresas da área da saúde foram das poucas que viram os seus serviços tornar-se mais indispensáveis que nunca, durante o período do pandemia. Foi o caso da Linde Saúde, que se dedica à prestação de cuidados de saúde domiciliários, assistindo maioritariamente doentes com patologia respiratória crónica.
Pertencente ao Grupo Linde, a empresa conta atualmente com 288 colaboradores em Portugal, dos quais apenas 30% puderam passar a laborar em regime de teletrabalho, mantendo-se assim a maioria das equipas operacionais ativas no terreno.
Em entrevista ao infoRH, Tiago Esteves, diretor-geral da Linde Saúde Iberia, França e Benelux, conta como “apesar da enorme proximidade, necessária e indispensável para a prestação dos serviços“, a organização tem conseguido que as equipas se mantenham seguras e sem infeções conhecidas de Covid-19.
Conseguiram manter todos os postos de trabalho que tinham antes da pandemia?
Sim, conseguimos. Os nossos planos de melhoria contínua mantiveram-se inalterados, e ao contrário de outros setores não fomos forçados a proceder a uma redução no número de colaboradores devido à pandemia.
Que impacto a pandemia teve no modo de funcionamento da vossa organização?
Não só para a proteção dos colaboradores, mas também para a proteção dos nossos doentes, muitos deles em situações vulneráveis.
Um dos principais impactos foi, naturalmente, a mudança repentina para o regime de teletrabalho. Devido ao contexto da nossa atividade, a maioria das nossas equipas operacionais teve de manter-se ativa e, inclusive, em contacto direto com doentes potencialmente e/ou efetivamente infetados. Para todas essas funções, foi necessário conceber, atualizar e implementar rapidamente novos protocolos de segurança. Não só para a proteção dos colaboradores, mas também para a proteção dos nossos doentes, muitos deles em situações vulneráveis.
Que medidas implementaram para garantir a segurança dos colaboradores que continuaram a prestar os cuidados domiciliários mesmo durante o Estado de Emergência?
Fomos uma das primeiras companhias a ajustar-nos às limitações impostas por esta pandemia, mantendo a nossa capacidade de prestar os melhores cuidados aos doentes. Os desafios foram enormes, sendo a disponibilidade imediata dos Equipamentos de Proteção Individuais (EPI’s) um dos principais. No entanto, conseguimos tirar partido da nossa presença global, movendo rapidamente excedentes para garantir que todos tinham e têm disponíveis os EPI’s para serem utilizados de acordo com os protocolos de segurança em vigor.
Foram também implementadas várias medidas com o objetivo de garantir a continuidade da prestação dos cuidados de saúde ao domicílio, tais como o recurso às visitas virtuais, que foi algo pensado para garantir que conseguíamos manter os doentes acompanhados e a sua terapêutica otimizada. O facto de sermos líderes de mercado na inovadora área da telessaúde permitiu-nos ajustar com naturalidade e rapidez a esta necessidade de acompanhamento remoto.
Apesar da enorme proximidade, necessária e indispensável para a prestação dos serviços, as nossas equipas têm-se mantido seguras, sem infeções conhecidas de Covid-19.
Agora que regressamos à normal atividade, continuamos a seguir todos os protocolos de segurança para garantir que mantemos os nossos doentes e as nossas equipas protegidas.
Alteram de alguma forma a maneira como estavam habituados a atuar?
Focámo-nos sempre em manter os nossos serviços de terreno nos doentes em que havia mais valia na visita física. Em outros casos adiámos e encontrámos rapidamente outras formas de continuar a prestação do serviço, nomeadamente a já referida visita virtual ou o recurso ao “Direct Shipping” – envio urgente de consumíveis essenciais para o cumprimento da terapia por via postal.
Implementámos também contactos prévios a todos os doentes que necessitam de uma visita inadiável. Neste contacto são avaliados o risco, as condições para a visita, e os protocolos de segurança, para que esta se realize num ambiente o mais controlado possível.
Estavam preparados para o regime de teletrabalho?
Descobrimos que estávamos, porque em menos de uma semana conseguimos colocar uma parte relevante das nossas equipas neste regime. É verdade que o que estávamos a ver e viver em outros países, como Espanha e França, nos permitiu adequar mais rapidamente e tomar as decisões com outra segurança.
A qualidade e segurança das nossas ferramentas informáticas, e a maturidade operacional das nossas equipas, revelaram-se pontos chave nesta rápida adaptação.
Na sua opinião, este regime impactou positiva ou negativamente a produtividade dos vossos profissionais?
Apesar de a segurança dos nossos doentes e colaboradores ter sido a prioridade durante este período, a análise e acompanhamento da produtividade são essenciais para a continuidade do negócio, especialmente em tempos de crise.
De uma forma geral observamos um impacto positivo em termos de produtividade individual e coletiva. As equipas conseguiram organizar e criar soluções inovadoras para a continuidade de algumas atividades fundamentais para a nossa sustentabilidade. Obviamente que as equipas comerciais, por deixarem de poder circular, não puderam dar continuidade à sua principal atividade. No entanto, rapidamente foram encontradas outras soluções que permitiram uma continua ligação aos nossos interlocutores, maioritariamente médicos e outros profissionais de saúde, através da realização de Webinars e visitas virtuais.
A saúde mental dos profissionais tem sido muito discutida. No vosso caso, tanto para os colaboradores que estavam em confinamento em teletrabalho, como para aqueles que tinham contacto direto com os doentes. Como é que na vossa empresa procura estar atenta a estas situações?
O bem-estar físico e mental dos nossos colaboradores foi sempre uma das nossas grandes preocupações, pelo que apostámos no reforço dos contactos individuais e na comunicação interna. Fizemos também um survey interno para avaliar como as pessoas se sentiam durante este período, e os resultados em Portugal foram bastante positivos.
Outra das medidas que implementámos foi a disponibilização de uma linha de apoio psicológico, coordenada pelo nosso parceiro de saúde. Sempre que se verificou uma situação de algum risco interviemos imediatamente.
Agora que já nos encontramos em fase de desconfinamento, tencionam regressar ao escritório, manter o teletrabalho a tempo inteiro, ou trabalhar numa dinâmica mista?
Estamos a regressar a uma nova normalidade e estamos atentos às tendências globais nesta área, a tentar entender os prós e contras de uma nova forma de trabalhar à distância. Pessoalmente estou convencido de que o teletrabalho vai muito rapidamente tornar-se num requisito do mercado de trabalho, e disponibilizar este regime será essencial para captar os profissionais mais competentes. A Linde, enquanto líder de mercado, tem de estar preparada para responder a esta nova expectativa.
Qual acha que foi (e está a ser) o principal papel dos recursos humanos durante está crise?
Sendo esta uma crise que teve um enorme impacto, não só na forma como trabalhamos, mas também na vida pessoal de todos, os recursos humanos tiveram um papel fundamental no suporte à reorganização do trabalho. Para que pudesse ser realizado à distância, para garantir que todos os trabalhadores mantêm os seus níveis de motivação e produtividade. Não tenho dúvidas de que quem faz as empresas são as pessoas, e numa crise como esta foram sempre as pessoas (colaboradores e clientes) a nossa principal prioridade.
Neste momento, como projetam o futuro ao nível de RH? Têm planos de crescimento no nosso país?
Caminhamos rapidamente no sentido de uma abordagem holística ao doente no contexto domiciliário, o que nos encaminhará por sua vez para o recrutamento de perfis cada vez mais diferenciados no mercado de trabalho. Igualmente, no plano interno, teremos de seguir com uma política de desenvolvimento individual, que passa por identificar e potenciar competências, e conseguir assim que os nossos colaboradores estejam motivados e na função mais adequada. Esta visão traduzir-se-á certamente na continuidade da expansão da Linde Saúde no nosso país.