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Autor: Mário Ceitil, Presidente da APG
A chamada “depressão pós-férias” é um tema recorrente nesta época de fim de Verão em que uma grande parte das pessoas termina as férias e reinicia as suas atividades profissionais. A frequência e a diversidade de situações em que esta expressão tem sido aplicada fez com que viesse a tornar-se numa quase banalidade e num fenómeno considerado normal, sendo tema em programas de rádio, textos de jornalismo, “chats”, etc.
Para além desta dimensão, chamemos-lhe generalista, o tema é realmente sério a ponto de se ter tornado objeto de intervenções em psicoterapia e de uma grande variedade de práticas de formação e de aconselhamento que visam justamente ajudar as pessoas a melhor se adaptarem à mudança brusca, por vezes designada como “trauma”, da “rentrée” profissional.
Para além destes aspetos, este assunto suscita ainda algumas reflexões acerca da polaridade que é feita entre aquilo que se considera trabalho e o que se considera férias, sendo óbvio que, nesta polarização, o trabalho é representado como uma coisa má e as férias, por contraponto, uma coisa boa. Se assim não fosse, não havia sentido para se falar de “depressão” ou de “trauma” pós-férias.
Se a dimensão simbólica associada a esta dicotomia entre o trabalho e o “não trabalho” tiver realmente expressão ao nível dos sentimentos das pessoas, isto pode significar, que existe, pelo menos para alguns, a perceção de viverem numa espécie de “sacrifício” durante mais ou menos onze meses (não contando com os vários períodos de férias que se vão tendo ao longo de um ano) e terem apenas um escasso mês para fruir plenamente um suposto “happening existencial”, cujas delícias permitem “recarregar baterias” para enfrentar os depauperantes onze menos que têm pela frente.
Ora, num contexto em que, em termos de Gestão das Pessoas, falamos de coisas tão estimulantes como felicidade organizacional, integração entre a esfera pessoal e a área profissional, paixão pelo trabalho e muitos outros conceitos que apontam igualmente para uma conceção do trabalho como uma parte fundamental de construção da nossa identidade como pessoas, não faz realmente sentido falar-se de “trauma” e muito menos de “depressão”, uma vez que, segundo essa conceção, o trabalho é considerado como um ambiente fundamental para estimular e expandir a “grandeza” que existe em cada um de nós.
Na verdade, o conceito de férias só faz sentido quando acoplado ao conceito de trabalho, e devem ser encarados como dois domínios igualmente fundamentais da totalidade da pessoa e da construção da sua narrativa existencial. Por isso, a expressão “work/life integration”, introduzida por Klaus Swabb, CEO do Fórum Económico Mundial, expressa uma realidade que vai muito para além dos meros supostos equilíbrios “aritméticos” da distribuição de tempos em cada um dos territórios (work/life balance). E, por isso, o trabalho e o considerado “não trabalho” não devem ser concebidos como entidades opostas, mas sim como realidades complementares, sendo que o investimento emocional em cada uma delas deverá ser proporcional ao outro.
Mas o que é verdadeiramente importante é que a atitude em relação ao trabalho e em relação às férias e, em geral, a todos os diversos aspetos da vida, se paute de igual modo pela mesma entrega emocional e pela mesma coerência de propósitos. Se assim for, será tão natural querer ir de férias como, estando de férias, desejar voltar ao trabalho.
Já imaginaram o que seria estar um mês a trabalhar e o resto do ano de férias? Para alguns talvez isso configurasse a verdadeira materialização do sonho. Mas seria realmente assim tão bom? Ou seria bom apenas durante um certo tempo, após o qual esse possível bem-estar se iria progressivamente desvanecendo pela erosão da falta de um propósito maior?
Cada um responderá à sua maneira, claro. Mas se observarmos os comportamentos de vários tipos de pessoas como, por exemplo, reformados ainda com suficiente energia e saúde para darem um contributo, empregados no ativo que, no entanto, estão em funções de pouca substância e valor acrescentado e passam uma parte do seu tempo laboral a “olhar para as paredes” e pessoas relativamente jovens que estão no desemprego, vamos encontrar uma variável que, adicionada às eventuais dificuldades económicas, já de si bastante adversas, contribuem seriamente para agravar o estado emocional dessas pessoas: o sentimento de se sentirem irrelevantes.
Porque a mais profunda depressão é não nos sentirmos úteis; é não haver ninguém que precise de nós. E se o espaço profissional pode muitas vezes ser de facto desgastante e não motivador, é também uma fonte de enriquecimento pessoal e de expansão das capacidades próprias.
Por isso, talvez o segredo de uma vida plena e verdadeiramente feliz esteja na capacidade de cada um construir um projeto onde as duas dimensões se integram e se complementam.
É verdade que pode haver pessoas que só se sintam “em pleno” quando vivem o “eldorado” ilusório do “doce não fazer nada”; é verdade também que outros conseguem essa plenitude apenas na esfera pessoal.
No entanto, de acordo com os estudos da psicologia positiva sobre o “flow”, o momento em que as pessoas realmente fruem o sentimento da “experiência ótima” é sem dúvida quando sentem que o que fazem lhes proporciona bem-estar e satisfaz as suas necessidades pessoais, mas que serve igualmente para concretizar o propósito de contribuir para uma causa maior, um “greater good”.
E se o trabalho proporcionar ambas as coisas, deixa realmente de fazer sentido falar em depressão ou trauma de voltar ao trabalho, porque tanto o trabalho como as férias se inscrevem numa mesma lógica: a de contribuir para que cada pessoa possa ser mais integra, mais completa e mais autenticamente feliz.