A Força Aérea Portuguesa (FAP) conta com mais de 6.700 efetivos – um número que soma militares, civis e formandos. Como se trabalha a atração, retenção e gestão de tantos recursos humanos numa realidade militar? Foi este o ponto de partida para a conversa da RHmagazine com o Major-General António Temporão, Diretor do Pessoal, e o Tenente-Coronel Nuno Quirino Martins, Chefe da Repartição de Carreiras e Promoções da Direção de Pessoal, da FAP. Uma entrevista que explora ainda a progressão de carreira e a formação universitária e técnico-profissional oferecida pelo ramo aeronáutico das Forças Armadas Portuguesas.
Como se trabalha a atração e retenção de talento no âmbito militar?
Nuno Quirino Martins (NQM) Na Força Aérea lidamos com uma grande dificuldade em atrair e reter os nossos talentos. Considerando que temos uma miríade de áreas profissionais extremamente qualificadas, com 30 especialidades de oficiais, 19 de sargentos e 23 de praças, é expectável que este problema assuma uma relevância substancial, especialmente nos domínios onde o mercado nacional e internacional é mais voraz. Conscientes de que o nosso catálogo de soluções/compensações é finito e limitado, não acompanhando a Employer Value Proposition (EVP) de algumas organizações concorrentes, apostamos numa experiência profissional e de vida absolutamente inovadora, única e inimitável no panorama nacional, através de uma forte aposta no comprometimento das pessoas com o “espírito aeronáutico”. Este é cultivado desde o onboarding, através da experiência inicial disruptiva que é proporcionada no momento da recruta e que cria um forte sentimento de pertença e uma ligação emocional forte, estando na génese da constituição da família militar. Acreditamos que atraímos bastantes pessoas com a nossa forma metódica de atuar, transversal a todas as áreas. Por fim, pelo facto de sermos um ramo que está na “ponta da lança” do desenvolvimento tecnológico de vanguarda, com sistemas de armas muito recentes, como é o caso da aeronave de transporte KC-390 Millennium, atraímos as gerações que procuram este tipo de experiências no seu percurso de carreira.
Como se processa a progressão de carreira na FAP?
NQM A promoção dos militares aos diferentes postos é sujeita à verificação de um conjunto de condições (mérito, registo disciplinar, aptidão médica, cursos de promoção, tempos mínimos nos postos, etc.), tendo em conta as qualificações operacionais e técnicas, a antiguidade e o mérito revelado no desempenho profissional e as necessidades estruturais da Força Aérea. Também existe a possibilidade de ingresso em categorias superiores, desde que satisfeitas as condições legalmente previstas.
Na Força Aérea existem dois tipos de carreiras, tendo em vista o tipo de vínculo aplicado. Se o destino for os quadros permanentes, os cidadãos portugueses candidatam-se, prestam provas, frequentam os estabelecimentos de ensino superior público universitário militar (Academia da Força Aérea – AFA –, em Sintra), adquirem formação superior pela frequência do Curso de Mestrado em Aeronáutica Militar, finda a qual ingressam nos quadros de oficiais. Se o destino for prestar serviço no regime de contrato, os cidadãos portugueses candidatam-se, prestam provas, frequentam os estabelecimentos de formação técnico-profissional (Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea – CFMTFA –, na Ota), adquirem formação de índole técnica, finda a qual ingressam no regime de contrato por um período máximo de seis anos. Este regime de contrato permite o ingresso nas fileiras de cidadãos com o nível de habilitação académica de 11.o ano (existindo algumas especialidades onde a habilitação mínima é o 9.o ano de escolaridade), 12.o ano ou superior, em função da categoria (respetivamente, praças, sargentos e oficiais). Para estes militares existe a possibilidade de concorrerem durante os seis anos de contrato aos cursos de ingresso nos quadros permanentes, seguindo-se a formação complementar de nível 5 (no caso das praças e dos sargentos que frequentam o Curso de Formação de Sargentos dos Quadros Permanentes) ou um estágio técnico-militar (no caso dos oficiais que já têm formação
académica de nível superior).
Direção de Pessoal
Número de trabalhadores: 60
Repartições:
- Colocações;
- Carreiras e promoções;
- Pessoal civil;
- Dados e proteção social.
Para além de militares, contam com trabalhadores civis (assistentes operacionais, técnicos superiores…). Que sistema de informação utilizam para gerir dados de tantos colaboradores?
António Temporão (AT) O sistema de informação que a Força Aérea utiliza para gerir os dados dos trabalhadores civis é o Sistema Integrado de Gestão de Recursos Humanos e Vencimentos (SIG-RHV), onde estão registados todos os dados, nomeadamente admissões e saídas, servindo de apoio a outros sistemas de informação – sistemas estes que asseguram o controlo diário dos movimentos administrativos diretamente relacionados com o sistema de proteção social relativos aos regimes legais de férias, faltas e licenças. O SIG-RHV permite: que os dados registados sejam extraídos para Excel, a fim de ser prestada informação estatística dos efetivos existentes; facultar dados para a elaboração do Balanço Social; organizar e controlar os processos de aposentação para apresentação na Caixa Geral de Aposentações; planear, gerir e manter as estruturas internas de gestão do Sistema Integrado de Gestão e Avaliação do Desempenho na Administração Pública (SIADAP), que são de extrema importância para a progressão na carreira dos trabalhadores civis. Num período caracterizado por complexas e extensas mudanças no universo da gestão de pessoal da administração pública, o SIG-RHV tem permitido uma gestão racional no recrutamento através das inúmeras mobilidades e na gestão dos procedimentos concursais de admissão de pessoal civil, que possibilitem resolver, em certa medida, o problema da falta de recursos humanos.
Relativamente à formação, o que distingue a AFA das instituições universitárias civis?
AT A formação ministrada na AFA pretende habilitar os futuros chefes ao exercício das funções de comando, direção e chefia, e estado-maior, conferindo competências adequadas ao cumprimento das missões específicas da Força Aérea, promovendo o desenvolvimento de atividades de ensino e investigação e de apoio à comunidade. A nossa universidade tem como visão a afirmação enquanto escola de comandantes, de referência nacional e internacional, a excelência do seu ensino, formação, qualificação e investigação, em particular no domínio aeroespacial com interesse para a defesa, alicerçada numa cultura de patriotismo, liderança responsável, competência, disciplina, inovação e rigor.
A admissão de pessoal civil permite resolver, em certa medida, o problema da falta de recursos humanos
O que distingue a AFA das outras universidades é a combinação de diversas componentes, que são essenciais na formação de um oficial dos quadros permanentes: a componente académica, militar e física. Deste percurso, com base nestas três componentes, resulta uma nota final de curso que tem uma importância fulcral no desenvolvimento da carreira do militar, designadamente na ordem de promoção ao posto seguinte.
A AFA não forma “apenas” comandantes militares, mas sim líderes militares, que terão a responsabilidade de conduzir os desígnios da instituição ao serviço de todos os portugueses.
Especialidades
A Academia da Força Aérea oferece os seguintes mestrados integrados:
- Piloto Aviador;
- Engenharia Aeronáutica;
- Engenharia de Aeródromos;
- Engenharia Eletrotécnica;
- Administração Aeronáutica;
- Medicina.
Outras especialidades ministradas no Centro de Formação Militar e Técnica da Força Aérea, para o pessoal em regime de contrato:
- Operações;
- Manutenção;
- Logística;
- Apoio.
Quem ensina na AFA? E no CFMTFA? Ser professor é uma forma de manter os militares que passaram à reserva?
NQM Na AFA ensinam os docentes civis de faculdades ao abrigo de convénios (Instituto Superior Técnico – IST –, Instituto Superior de Economia e Gestão – ISEG – e Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas – ISCSP) e os docentes militares, em exclusividade e em acumulação de funções. Face ao plano de curso da AFA, os cadetes alunos, em função da sua especialidade, frequentam uma parte do seu curso no IST, no ISEG ou na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL), tendo, por este motivo, docentes civis destas faculdades. No CFMTFA ensinam apenas docentes militares, em exclusividade e em acumulação de funções. Também existe a possibilidade de as pessoas que já não se encontram no ativo, por terem passado à situação de reserva, continuarem a prestar serviço nos estabelecimentos de ensino militar, o que resulta num win-win muito significativo, pois, por um lado, precisamos de pessoas experientes e com competências para ensinar e, por outro, as pessoas pretendem continuar na organização onde passaram grande parte da sua vida profissional.
O que distingue a Academia da Força Aérea das outras universidades é a combinação das componentes académica, militar e física
Como adaptaram a vossa formação ao contexto pandémico? Exemplos concretos…
NQM Foi desenvolvido um esforço de adaptação de conteúdos e métodos de avaliação ao ensino à distância, que passou de um patamar com expressão residual para a principal via de partilha de conhecimento. Como exemplos concretos: no caso dos pelotões na formação inicial (recruta), foi criado o conceito de “bolha”, onde os formandos, com instrutores incluídos, foram separados por sexo, por alojamentos, com horas de refeição próprias nos refeitórios e, nos locais de instrução, com lápis, caneta e secretária não partilhável; aplicou-se um regime de contenção, em que os alunos ficavam 12 dias na instituição, iam a casa no fim de semana e regressavam ao regime dos 12 dias, em “loops” sucessivos; foram desenvolvidos conteúdos novos em formatos nunca antes pensados, como a formação militar por videoconferência, onde se incluíram planos de treino partilhados pelos instrutores com a exigência da demonstração de resultados online e, por caricato que possa parecer, sessões de “revista às tropas”, onde o instrutor fazia a inspeção minuciosa ao atavio do militar com a ajuda da câmara do telemóvel. Na AFA, a atividade desportiva de “orientação” é muito cultivada e valorizada pelas competências técnicas, físicas e interpessoais que desenvolve nos alunos, com a navegação no terreno com um mapa, bússola e marcador. Neste sentido, foi utilizada uma aplicação mobile (NaviTabi) que permitiu aos alunos executar o exercício em tempos desfasados, transportando consigo o seu telemóvel que, pela partilha do sinal de GPS, permitia ao instrutor monitorizar e avaliar, em tempo real, mas à distância, as atividades dos alunos. Por fim, e em resposta à procura global de estações de exercício físico ao ar livre, a Força Aérea investiu na construção de módulos de treino funcional nas suas unidades e na formação dos seus instrutores de educação física para a exploração desta nova capacidade.
Realizam entrevistas após a saída, voluntária ou involuntária, de um militar da organização. O que retiram desta prática?
NQM Esta informação é muito importante para quem gere as carreiras dos militares, pois representa, nalguns casos, a primeira vez que as pessoas partilham com a Direção de Pessoal o que mais e menos gostaram na sua carreira. Retemos o facto de as pessoas manifestarem vontade de regressar, caso fosse possível, e reconhecerem que saíram da organização com um portfólio de experiências que aumentou o seu nível de empregabilidade, que as ajudará, nos casos aplicáveis, a enveredar por outra atividade ou projeto. Existe a intenção de implementar uma “entrevista de permanência”, num momento intermédio da carreira (para além da auscultação anual integrada no sistema de avaliação relativa à opinião sobre orientação de carreira e informação sobre a unidade de preferência), na qual se pretende perceber o grau de satisfação e motivação das pessoas, de forma a conciliar os interesses organizacionais com os pessoais, dentro da flexibilidade que o ramo dispõe na gestão dos recursos humanos.
Quais os principais desafios da FAP para o futuro dos seus RH?
NQM O wellbeing das nossas pessoas é um dos desafios mais importantes para garantir o cabal cumprimento da nossa missão, estando a cargo de um organismo dedicado (o Serviço de Ação Social), cuja missão é promover o bem-estar e assegurar o apoio social às pessoas da Força Aérea.
No recrutamento, o choque geracional entre os militares mais modernos desafia a direção de pessoal a acompanhar as novas tendências
A complexidade dos processos atinentes ao ciclo de vida da GRH, desde o recrutamento ao offboarding, conduziu a organização ao reconhecimento da necessidade de certificação de todos os processos, o que deu origem, no início de 2022, à identificação das linhas de ação para implementar o sistema de gestão das pessoas estabelecido pela Norma Portuguesa 4427 (versão de 2018), a fim de alinhar a instituição com os requisitos de um sistema de qualidade e certificar a gestão dos recursos humanos militares da Força Aérea. Este desafio potencia também o aumento da reputação, conferindo uma vantagem competitiva que pode fazer a diferença no momento do recrutamento.
Outro desafio prende-se com a necessidade da aeronáutica acompanhar a GRH 3.0 – para tal, integrou em 2022 um projeto de Business Intelligence da Defesa (BID), de modo a providenciar a automação das atividades de gestão das pessoas com modernas ferramentas, de capacidade analítica avançada nas vertentes preditiva e prescritiva, tecnologias emergentes de Machine Learning e Inteligência Artificial, Data Science, Data Analysis, People Analytics, à disposição dos utilizadores de forma acessível, flexível e reutilizável.
Graças a um sistema integrado de recrutamento, a Força Aérea recebe centenas de jovens todos os anos, o que promove constantemente o choque geracional entre os militares mais antigos e os mais modernos. Este fenómeno, similar ao verificado no tecido empresarial, decorrente da permeabilidade entre o setor militar e a esfera civil, desafia a Direção de Pessoal a acompanhar as novas tendências, preferências e necessidades das suas pessoas.
Missões de apoio à população em 2021
Transporte urgente de doentes:
- 751 doentes transportados;
- 584 missões realizadas;
- 1142 horas de voo.
Transporte de órgãos para transplante:
- 38 missões realizadas;
- 84 horas de voo.
Resgate em navios:
- 26 doentes resgatados;
- 26 missões realizadas;
- 91 horas de voo.
Busca e salvamento:
- 26 salvamentos;
- 37 missões realizadas;
- 163 horas de voo.
Vigilância do espaço aéreo e patrulhamento marítimo:
- 385 missões realizadas;
- 1725 horas de voo.
Entrevista publicada na edição n.º 138 da RHmagazine, referente aos meses de janeiro/fevereiro de 2022.
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