O Instituto do Emprego e Formação Profissional (IEFP) salienta que os trabalhadores viram os níveis de exaustão pelo trabalho reduzir-se em 19% e observaram uma queda acentuada na dificuldade em conciliar o trabalho e família (desceu de 46% para 8%) como resultado da implementação da semana de quatro dias nas empresas.
Estes são alguns dos resultados, até ao momento, do projeto-piloto que arrancou em junho de 2023 e visou “proporcionar uma experiência de implementação da semana de quatro dias de trabalho, voluntária e reversível, sem contrapartida financeira do Estado, apenas com suporte técnico e administrativo”.

No total, o projeto envolveu mais de mil trabalhadores em 41 empresas portuguesas e cujos resultados foram apresentados esta terça-feira, num evento com a presença da ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Ana Mendes Godinho.
“Este é um projeto vencedor, disruptivo e um exemplo na Europa, com países como a Bélgica a replicarem o que fizemos. Só foi possível porque empresas e pessoas quiseram se aventurar pelo desconhecido”, menciona Ana Mendes Godinho.
“Projetos como a semana de quatro dias vai nesse sentido. Que o trabalho, fator de integração e participação das pessoas como parte da sociedade, garante que as pessoas se revejam nelas. Se não se sentirem identificados, tenham o poder de encontrar sítios alternativos”, acrescenta.
Domingos Lopes, presidente do Conselho Diretivo do IEFP, referiu que além da coragem e determinação em enfrentar caminhos novos, a semana de quatro dias passou de apenas tema de discussão para um modelo que trouxe resultados. “A semana de 4 dias será, dentro de um futuro próximo, a norma e não a excepção”, sublinhou.
Os diferentes modelos implementados pelas empresas
Em média, a semana de quatro dias envolveu a redução das horas de trabalho semanais em 13,7% (de 39,3 para 34 horas, reportado pelas empresas). Em 58,5% das empresas, os trabalhadores têm um dia livre por semana. 41,5% das empresas optaram por uma quinzena de nove dias, alternando uma semana de quatro dias com uma semana de cinco dias. Em 20% das empresas, o dia livre é coordenado à sexta-feira.
No caso das empresas, 75% das empresas adotaram mudanças organizacionais, como a redução do número e duração das reuniões, e, de forma geral, 95% das empresas avaliou positivamente o teste.
“As empresas que participaram no projeto indicaram que foi difícil definir métricas de produtividade, gerir a semana de quatro dias com as férias marcadas dos colaboradores e mudar a cultura organizacional. Por outro lado, tornou-se mais fácil comunicar aos clientes, envolver os trabalhadores nas mudanças de processos e gerir os problemas com os trabalhadores”, referiu Pedro Gomes, co-coordenador do projeto piloto e um dos autores do relatório intermédio apresentado.
Do ponto de vista dos colaboradores
Acrescentando à redução dos níveis de exaustão pelo trabalho em 19% e da conciliação entre trabalho e família em 8%, os trabalhadores revelam-se satisfeitos com a experiência do projeto.
Dos 332 trabalhadores das empresas participantes na experiência piloto, 200 responderam ao inquérito pré-piloto e ao inquérito realizado ao fim dos primeiros 3 meses.
Os trabalhadores declararam uma redução do número de horas semanais efetivamente trabalhadas em 11,3% (de 41,1 para 36,5 horas).
A frequência de sintomas negativos a nível da saúde mental diminuiu significativamente (o índice de ansiedade diminuiu em 21%, o de fadiga em 23%, o de insónia ou problemas de sono em 19%, o de estados depressivos em 21%, o de tensão em 21% e o de solidão em 14%).
65% dos trabalhadores passou mais tempo com a família após o início de redução horária e 85% apenas aceitaria mudar para uma empresa com um funcionamento a 5 dias, mediante um aumento salarial superior a 20%.
“A distribuição da amostra foi na sua maioria do género feminino (71,5%), em cargos de liderança e 74% dos inquiridos têm menos de 44 anos”, explica Rita Fontinha, co-coordenadora do projeto-piloto.
Este relatório intermédio contém os dados apurados pelo projeto desde junho até dezembro de 2023, contando com as reflexões das empresas. O relatório final será apresentado em abril. Os autores esperam que este relatório final tenha informação suficiente para ajudar as empresas a implementar o modelo de 4 dias.
“A semana de 4 dias traz vantagens para resolver problemas reais das empresas em Portugal (ao nível do recrutamento, por exemplo) e uma solução legítima. Mesmo assim, estes resultados não justificam uma implementação por legislação. Devemos encorajar mais empresas a testar a semana de 4 dias, sobretudo grandes empresas, porque o impacto positivo enorme na vida das pessoas não deve ser ignorado”, conclui Pedro Gomes.
Os testemunhos das empresas
No caso da Caminhos de Infância, os desafios foram vários, compreendendo as diferentes necessidades, horários e funções dos colaboradores internos. Inês Poeiras, President Executive Director da Caminhos da Infância, escolheu um modelo que garantisse um ambiente seguro, equiparado para todos e que conjugasse as necessidades de cada um dos colaboradores. “É ridículo fazermos com as nossas crianças e não fazermos com os nossos colaboradores”, sublinhou.
Na opinião de Inês Poeiras, a participação da Caminhos de Infância no projeto-piloto foi benéfica para os colaboradores e para os pais que deixam as suas crianças ao cuidado da instituição. “O bem-estar é visível para todos”, concluiu.
Outro exemplo foi o da CASES – Cooperativa António Sérgio para a Economia Social, que entenderam que uma participação no projeto piloto da semana de quatro dias como uma “grande oportunidade” e um “comprometimento social”.
“As grandes dificuldades estiveram sempre no circulo de comunicação, entre regimes presencias e a distancia. Encontrarmos as pessoas no momento certo e a hora certa foi um obstáculo. Mas, até ao momento, tivemos resposta plena para o exterior, sem deixarmos de termos algumas dificuldades internamente”, explica Ana Luísa Pereira, Coordenadora Geral dos Departamentos e Gabinetes da estrutura orgânica da CASES.
A escolha da empresa assentou no bem-estar, no aumento da motivação, a conciliação da vida pessoal trabalho e o lazer dos colaboradores.
Alexandra Mendes, Diretora de Recursos Humanos da Crioestaminal, encarou o desafio proposto pelo projeto-piloto da seguinte forma: como garantir que a empresa continue a trabalhar todos os dias. A escolha foi a adoção de um modelo de 33 horas, com uma semana de cinco dias alternada com uma de quatro por cada equipa (comercial, laboratório, entre outras).
“O mais difícil foi chegar ao modelo e depois implementá-lo. Decidimos que, caso houvesse alguma necessidade, ouvíamos os trabalhadores. Mas o maior receio para os colaboradores foi a percepção de tempo. Ou seja, muitos achavam que não teriam a capacidade de fazer o que necessitam em 4 dias. Por isso, optamos o tamanho das reuniões e as pausas de café. Depois disso, veio a parte mais fácil, que comunicar aos nossos clientes, aos fornecedores e ao mundo”, acrescentou.
Desafios foi um tema constante que muitas empresas enfrentaram naquilo que foi um projeto inédito na Europa.

Sofia Patrão Alves, Head de Recursos Humanos da 360imprimir.pt, admitiu que um dos maiores desafios relacionados com a semana de quatro dias foi garantir que a empresa continuasse a crescer e cumprir os objetivos definidos.
“Internamente, assegurámos a otimização de alguns processos e as chefias melhoraram a comunicação com as equipas. Ainda que o modelo comum seja o dia off à sexta-feira, tivemos ainda o desafio de ajustar este modelo à nossa realidade interna, criando um modelo alternativo para as equipas que precisam de funcionar todos os dias por terem um impacto direto no serviço ao cliente. Nestes casos, implementámos o modelo de dia off rotativo”, explica.
Ainda assim, a empresa admite que os efeitos foram positivos. Em resposta à RHmagazine, Sofia Patrão Alves sublinha que a implementação do modelo da semana de quatro dias resultou numa redução de 43% na taxa de saída e com a redução do stress, fadiga e ansiedade em 21%.
“98% dos nossos colaboradores indicaram que têm um bom work life balance. No que diz respeito à atratividade, os indicadores também são positivos, tendo o número de candidaturas aumentado em 8 vezes face ao ano anterior à implementação do modelo. Apesar dos dados até à data serem entusiasmantes, devemos manter-nos atentos e cientes que é importante uma análise continuada ao longo do tempo”, acrescenta Sofia Patrão Alves.
Algumas das empresas inquiridas no projeto-piloto manifestaram algumas incertezas relativamente à implementação prática. Em abril, os dados finais do projeto-piloto da semana de quatro dias vão ser divulgados publicamente no relatório final.



