Autor:
Alexandra Andrade, Country Manager da Adecco
Não é necessário ser um rocket scientist para perceber que pessoas felizes no trabalho são mais produtivas. Quando o work/life balance da força de trabalho goza de boa saúde, todos ganham na equação da gestão quotidiana, colaboradores e empresas.
Uma empresa pode ser produtiva em dada conjuntura, mas não será sustentável se não cuidar estrutural e proativamente da segurança psicológica das suas pessoas. Ter políticas de RH orientadas para o bem-estar das pessoas (plataforma de saúde, desporto, ações de team building, iniciativas de solidariedade social, por exemplo) e implementar mecanismos regulares de avaliação da cultura organizacional, simples, objetivos e mensuráveis são cruciais.
É ainda relevante sinalizar comportamentos de liderança potencialmente lesivos para a saúde mental dos colaboradores, que é um imperativo numa gestão de sucesso. Há líderes que lideram alheios ao bem-estar das suas pessoas e acabam por afastar o talento das organizações. E é pela liderança que o (bom) exemplo deve começar.
Há inúmeros estudos que indicam um caminho claro a seguir para uma liderança sustentável que passa, entre outras ações, por agir no tópico da saúde mental. Só para citar o que me é mais familiar, o último estudo global do Grupo Adecco – Workforce of the future 2022 – revela que a saúde mental de um quarto dos profissionais piorou em 2022.
O burnout continua a ser uma questão global e universal, abrangendo todos os inquiridos independentemente da idade, nacionalidade ou género, continuando a ser motivo de preocupação para metade dos cerca de 35 mil inquiridos neste estudo. Os profissionais querem empregos onde se sintam menos pressionados e tenham um melhor equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, com 35 por cento a afirmarem que vão demitir-se nos próximos 12 meses devido a preocupações com este equilíbrio e o burnout.
Haverá sinal mais nítido de que as lideranças não estão a investir na segurança psicológica e emocional da sua força de trabalho? E que pode ser fatal nos seus resultados? Se há legado positivo que a pandemia nos deixou foi o de nos chamar a atenção para a relevância da saúde mental e dos níveis elevados de stress das pessoas e o seu impacto na vida das empresas: burnout, absentismo, rotatividade, erros e conflitos, que afetam a produtividade, resultados globais e custam aos empregadores milhões de euros por ano.
Levantada a cortina do preconceito, há que agir e prevenir. Investir na segurança psicológica das pessoas gera confiança, menos receio, o que se reflete na produtividade e nos resultados da organização. Todos ganham.

O último estudo global do grupo Adecco refere a segurança mental e bem-estar da saúde no geral como uma das quatro alavancas de retenção de talento para o futuro próximo, a par do salário, progressão na carreira e flexibilidade
Princípios fundamentais de uma liderança ‘saudável’
Não é de admirar, pois, que a segurança mental e bem-estar da saúde no geral seja abordado pelo estudo referido como uma das quatro alavancas de retenção de talento para o futuro próximo, a par do salário, progressão na carreira e flexibilidade. É a integração complementar das ferramentas base de gestão de pessoas para combater fenómenos como o ‘quiet quitting’ ou a ‘grande demissão’.
Lidar e liderar pessoas não é uma ciência exata. É um desafio permanente de antecipação do que possa estar a afetar negativamente as nossas pessoas. Não há receitas, mas há princípios orientadores que funcionam na prevenção da saúde e bem-estar dos colaboradores em ambiente de trabalho.
A compreensão do impacto negativo que o stress pode ter na empresa e nos seus colaboradores facilita o desenvolvimento de uma estratégia eficaz para a combater, que passa, nomeadamente, por melhorar a liderança através da criação de uma estrutura de comunicação e cultura de feedback regulares, que aumenta a eficiência do fluxo de trabalho e reduz os fatores de stress.
Mais. É crucial ajustar o propósito da organização ao propósito e valores individuais dos colaboradores. É neste alinhamento de um forte propósito comum que se alcança o compromisso entre a força de trabalho e a missão da empresa, com profissionais com sentido de pertença que estão verdadeiramente envolvidos com os objetivos que todos, individualmente e como organização, pretendem alcançar.
Fomentar um saudável work/life balance é essencial para assegurar que as pessoas não tenham mais stress do que o que podem suportar
Fomentar um saudável work/life balance é essencial para assegurar que as pessoas não tenham mais stress do que o que podem suportar. Jornadas longas sem pausas ou períodos de trabalho sem folgas conduzem frequentemente ao esgotamento ou a erros. Os erros, per si, devem ser considerados como uma porta aberta para a aprendizagem e até para a sua prevenção, mas facilitar a sua ocorrência por excesso de trabalho não é, de todo, uma boa política de gestão.
Promover uma liderança mais autónoma significa oferecer também mais flexibilidade, permitindo aos colaboradores mudar as horas de trabalho quando necessário, encorajando-os a tirar férias quando estão doentes ou precisam de um dia ‘apenas’ para descansar.
Por fim, é fundamental proporcionar formação: criar oportunidades de formação e educação contínua a novos e atuais colaboradores, gestores e não gestores, cria condições para o sucesso. Oferece também a oportunidade de crescimento individual que se repercute na força de trabalho ao construir uma carteira interna de talentos.
E regresso ao início: perante uma conjuntura de grande incerteza, a certeza que temos é a de que o bem-estar das nossas pessoas é condição obrigatória das organizações sustentáveis e bem assinaladas no mapa da competitividade.
Artigo publicado na edição 145 da RHmagazine, referente aos meses de março e abril de 2023