No âmbito do evento Building The Future, a RHmagazine conversou com Manuel Dias, Diretor Nacional de Tecnologia da Microsoft, para desvendar em quem poderemos confiar no futuro: na tecnologia ou no pensamento crítico.
O que a Microsoft veio anunciar no evento Building The Future?
No Building The Future, a Microsoft trouxe quatro grandes anúncios, destacando-se a IA Innovation Factory. Esta iniciativa não só nos enche de orgulho, mas é também estratégica para o país, uma vez que acelera a adoção da Inteligência Artificial no mercado português, tanto no setor público como no privado.
A IA Innovation Factory resulta de uma parceria entre a Accenture, Avanade e a Unicorn Factory Lisboa, permitindo a junção de vários ingredientes de grande interesse. A Unicorn Factory traz consigo a noção de empreendedorismo, facilitando a ligação das start-ups ao mercado empresarial e às grandes empresas. Já a presença da Accenture, é igualmente fundamental porque traz o conhecimento de negócio e da indústria, ampliando o foco além da tecnologia. Abrindo-nos, assim, ao ecossistema.
Recentemente, escreveu um artigo sobre as tendências para 2024 e mencionou os copilotos e o impacto que vão ter nos novos modelos de trabalho. Na sua perspetiva, o que vai mudar?
A nova era da Inteligência Artificial Generativa traz consigo ferramentas que elevam o nível da gestão do conhecimento. Profissões que lidavam intensamente com a análise semântica, compreensão de texto, elaboração de relatórios, propostas e outros documentos, agora reconhecem a importância crucial da Inteligência Artificial Generativa, especialmente do Copilot, como uma ferramenta fundamental para aumentar a sua produtividade. Este avanço não só proporciona ganhos de eficiência, mas também amplia o potencial criativo em áreas como Marketing, Design e Jornalismo, onde a produção de conteúdo é vital. Olhamos para estas profissões não como sendo substituídas, mas serem mais amplificadas, conferindo-lhes superpoderes na realização de tarefas. A ideia do Copiloto é bastante interessante; é um modelo mental de um assistente que, de facto, tem superpoderes, e que nos ajuda, enquanto pilotos, a realizar as tarefas de forma mais criativa, produtiva e rápida.
Outra das tendências é a emergência de novas competências como a de criação de prompts, o Prompt engineering. Em Portugal como podem as empresas adquirir estas competências técnicas?
As competências técnicas são indiscutivelmente essenciais, mas é crucial sublinhar que continuaremos a precisar das competências de pensamento crítico, analítico e criativo. Estas competências são, de facto, relevantes para compreender esta tecnologia e tirar o máximo partido dela.
Neste sentido, enquanto líderes tecnológicos nesta área, temos a responsabilidade de garantir formação e programas de skilling que abranjam todas as áreas da sociedade. Começando pela educação e pelas universidades, temos um programa especialmente interessante: a IA Business School. Este programa executivo, que surgiu há quatro anos, explora temas desde estratégia (como as empresas podem implementar e gerir uma área de IA) à cultura organizacional (como promover a adoção da IA pelos colaboradores e maximizar os benefícios). O programa inclui ainda um módulo dedicado à Inteligência Artificial responsável.
Para o setor público, desenvolvemos um programa, em colaboração com o INA – Instituto Nacional da Administração, com o objetivo de formar líderes e dirigentes do setor público até 2026. São cerca de 1000 dirigentes do setor público, 40 em cada edição.
Quanto ao tecido empresarial, adotamos uma abordagem abrangente. Por um lado, oferecemos formação tecnológica através do portal da Microsoft Club, com dezenas de cursos sobre IA Generativa e também sobre a utilização do Copiloto. Por outro lado, concentramo-nos na perspetiva do consumidor final de tecnologia, explorando como as empresas podem utilizar o Copiloto. Estamos muito focados em planos de adoção de IA nas empresas.
A IA responsável é outro tema muito importante devido à emergência de tecnologias como o SORA da OpenIA. O que está a fazer a Microsoft como líder nesta área?
A Microsoft tem uma longa trajetória na área da Inteligência Artificial responsável. Desde 2017, criámos uma área específica responsável pela regulamentação interna com 6 princípios e diversas práticas para cada produto que incorpora Inteligência Artificial, abrangendo desde o reconhecimento facial no Windows até produtos mais complexos.
No contexto da Inteligência Artificial Generativa, estamos a avançar ainda mais. Estamos a implementar uma série de salvaguardas em múltiplas camadas dos nossos produtos. Por exemplo, assegurar que dispomos de “serviços de moderação de conteúdo acima dos modelos”, ter a possibilidade de definir parâmetros do que é considerado aceitável ou não, dar transparência nas fontes de dados e garantir aos nossos clientes que os dados são deles e não são da Microsoft.
Com a IA a noção de confiança está a ser alterada. Temos, por exemplo, o SORA que permite criar com facilidade imagens de coisas que nunca aconteceram. Afinal, em quem poderemos confiar no futuro?
Gosto muito de relacionar a confiança com o conhecimento. Se eu compreender o que está por trás, vou confiar mais. É muito importante reconhecer que estes sistemas podem falhar, podem ter alucinações, daí ser tão crucial o pensamento crítico. Devemos continuar a reconhecer e a valorizar a necessidade do pensamento crítico. Temos de ser capazes de formular perguntas com contexto e todos os detalhes para que estes modelos possam responder da forma mais precisa possível.