Os colaboradores têm expectativas muito diferentes da realidade das empresas. A conclusão provém do Talent Trends 2024, um estudo global sobre tendências no local de trabalho. O relatório foi apresentado pela Michael Page, referência mundial em recrutamento especializado.
A análise foi feita com base nas respostas de 50.000 inquiridos de 37 países. Os colaboradores demonstraram ter expectativas mais individualizadas, para além dos salários e da flexibilidade. Já os empregadores pretendem satisfazer as necessidades dos colaboradores, ainda que perante pressões externas significativas num ambiente empresarial. Esta divergência dificulta a dinâmica dos colaboradores no trabalho e o desenvolvimento de estratégias por parte dos empregadores.
De entre as conclusões mais relevantes do estudo, encontram-se os desafios em Diversidade, Equidade e Inclusão (DE&I). Apenas 26% dos inquiridos revelaram que o seu local de trabalho é inclusivo e 19% admitiram considerar ter uma equipa de liderança sénior diversificada. 69% dos inquiridos não se sentem confortáveis para mostrar a sua verdadeira identidade no trabalho. 65% confessaram que sofriam marginalização ou discriminação, sem nunca ter denunciado.
Outra conclusão importante está relacionada com a integração de Inteligência Artificial (IA). 3 em cada 10 inquiridos assumiram usar IA nas suas funções. 52% acreditam no impacto desta tecnologia na sua carreira a longo prazo, a nível global. Em Portugal, a integração de IA no trabalho é de 26%, menor que a média europeia, de 30%.
No que toca a autonomia e flexibilidade, 49% dos inquiridos referiram estar mais vezes na empresa do que no ano anterior. 53% ambicionam mudar de emprego se este não for flexível, a nível global. Este tópico não é uma prioridade em Portugal, país que mais o desvaloriza, principalmente quando comparado ao bem-estar. Face ao Talent Trends de 2023, a percentagem de profissionais que priorizavam o equilíbrio entre as vidas pessoal e profissional diminuiu.
A percentagem de profissionais que priorizavam o equilíbrio entre as vidas pessoal e profissional diminuiu.
O trabalho híbrido em Portugal é, percentualmente, mais baixo que a média da União Europeia. 43% dos colaboradores desempenham funções neste regime, face à média europeia de 52%. Dos profissionais com trabalho híbrido, 29% assumiram passar mais tempo em modelo presencial. Esta condição é justificada por fatores como mudanças na política da empresa, reuniões presenciais e mais colegas no escritório.
Os profissionais com idade a rondar os 20 anos valorizam mais o trabalho presencial. Acreditam que este atribui melhores oportunidades de progressão na carreira e de aprendizagem com colegas. Em Portugal, 13% de quem passa mais tempo no escritório dentro do modelo híbrido fazem-no em função dos possíveis benefícios para o desenvolvimento da carreira.
O salário continua a ser um tópico prioritário. 42% dos inquiridos não estão satisfeitos com o valor atual do seu salário. 53% pensam em mudar de função nos próximos seis meses. Em Portugal, verificou-se um aumento para 56% de insatisfação com o salário atual. Este fator é o mais ponderado em situações de alteração de emprego. O mercado tornou-se, assim, mais dinâmico, com 86% de profissionais portugueses disponíveis para novas oportunidades.
Álvaro Fernández, diretor-geral da Michael Page, comentou: “Para as empresas, a mensagem é clara: o salário é fundamental para atrair e manter os colaboradores. Na verdade, mais de metade das empresas inquiridas reconhece que um pacote salarial superior ao atual é essencial para chamar a atenção dos candidatos.”
“Um terço dos profissionais europeus tentou negociar um aumento no último ano e, em Portugal, 10% foi bem sucedido. O debate em torno da remuneração está mais transparente do que nunca. Esta divergência crescente em relação à diferença de expectativas é um sinal para as empresas de que devem repensar as estratégias salariais. O objetivo seria conseguir o equilíbrio certo entre o que os colaboradores procuram e o que o orçamento permite”, concluiu.
“O objetivo seria conseguir o equilíbrio certo entre o que os colaboradores procuram e o que o orçamento permite.”
Em Portugal, houve um decréscimo para 58% face ao ano anterior de profissionais que priorizam o salário quando aceitam uma posição. 59% dos empregadores acreditam que um salário superior está associado a um mais fácil recrutamento de novos colaboradores. 61% vêem o salário competitivo como fator imprescindível na retenção de talento. 30% dos profissionais portugueses tentaram negociar um aumento salarial no último ano.
Priorizar o bem-estar é bastante considerado. Este fator tem vindo a ultrapassar outros marcos profissionais tradicionais desde 2023. 60% dos colaboradores rejeitariam uma promoção que implicasse o desequilíbrio entre as vidas pessoal e profissional. As mulheres, os profissionais com mais de 50 anos e os satisfeitos com o seu salário são quem mais prioriza o bem-estar.
Álvaro Fernández acrescenta, ainda: “Esta maior valorização da saúde mental e do tempo para si, em detrimento da progressão profissional, representa uma enorme mudança cultural. É uma mensagem clara para as empresas de que devem criar cargos e percursos profissionais que respeitem as necessidades de equilíbrio, recuperação e crescimento pessoal.”