A pandemia de Covid-19 implicou alterações a todos os níveis e o mundo empresarial não ficou de fora. A imposição da distância levou à implementação do regime de teletrabalho a tempo inteiro. Esta já não é uma realidade para a maioria das empresas em Portugal e no mundo, tendo sido substituída pelo regime híbrido. Mas são muitos os que acreditam que esta não será a tendência do futuro.
Segundo dados apresentados pela Iberdrola, 2021 foi o ano que apresentou uma maior percentagem de empresas em teletrabalho, a nível mundial. O regime híbrido tem sido o favorito, apesar de ter vindo a perder preponderância ao longo dos anos.
O “European Office Occupier Sentiment”, um estudo da CBRE, analisou mais de 120 empresas da Europa em 2024, para averiguar a possibilidade de abandonar o teletrabalho. Os resultados evidenciaram que a maioria das empresas trabalha muito presencialmente (76% frequentam o escritório com uma regularidade entre 61% e 100%). As idas ao escritório com uma regularidade entre 41% e 80% aumentaram 13 p.p. face a 2023.
Apenas uma em cada três empresas têm marcadas visitas ao escritório com uma regularidade inferior a 40%. A presença no escritório de três ou mais dias por semana aumentou 6 p.p. face a 2023. Os três dias por semana são a regularidade ideal, do ponto de vista das lideranças, que pretendem aumentar em 30% os resultados atuais. Contudo, apenas 4% dos líderes deseja a semana toda presencial.
A flexibilidade no trabalho é um dos fatores mais considerados pelos colaboradores, na altura de escolher uma empresa. Assim, este acaba por ser um critério decisivo na atração e retenção do talento. Estamos, então, perante discórdia entre empresários e colaboradores.
O blog Teamlyzer apontou cinco motivos que justificam a posição das empresas:
- Estratégia para despedimentos, em caso de crise: Implementar o regime totalmente presencial poderá facilitar a redução das equipas, nos casos de resultados financeiros menos positivos, por incentivar demissões.
- Investimento realizado em escritórios: Manter os escritórios nem sempre é um custo facilmente suportado pelas empresas, que têm, por isso, a necessidade de justificar a sua aquisição.
- Controlo mais facilitado: O trabalho à distância dificulta o controlo de desempenho dos colaboradores, pelo que os líderes apoiam o regime presencial, para uma supervisão mais direta.
- Outros fatores económicos: Muitos empresários sentem a pressão de incentivar a economia em torno dos escritórios, como cafés, restaurantes, transportes, lojas, etc.
- Estrutura empresarial: Muitas empresas estão integradas em setores que apresentam mais resultados em regime presencial, não tendo estrutura para manter o teletrabalho por muito tempo.
No entanto, também há profissionais que preferem aumentar a presença no escritório. O estudo da CBRE garantiu que muitos são os que valorizam a dinâmica social do regime presencial, bem como a maior ligação à empresa e a redução do sedentarismo.
Em novembro de 2023, o National Bureau of Economic Research partilhou um estudo sobre o “poder da proximidade” numa empresa de tecnologia. A análise destinava-se, especificamente, à compreensão dos efeitos da proximidade nos jovens e inexperientes. Ambos os grupos privilegiam a flexibilidade numa empresa, sendo que poucos são os que se mostram disponíveis para trabalhar presencialmente cinco dias por semana.
O referido estudo evidenciou que os jovens e os inexperientes são os mais prejudicados pelo teletrabalho, pela falta de interação e pela possibilidade de observação. Estes dois fatores são cruciais para a aprendizagem. No caso das mulheres, os resultados são mais alarmantes. Estas têm mais dificuldade em pedir ajuda à distância, pelo que acabam por receber menos apoio e, consequentemente, por cometer mais erros.
A produtividade em teletrabalho
O “poder da proximidade” parece ser, portanto, bastante significativo. O regime presencial incentiva a mentoria, a aprendizagem, o apoio imediato e o feedback. No que toca à produtividade, os resultados são mais ambíguos. Alguns estudos demonstram não haver diferenças entre os regimes, outros clarificam-nas.
Um estudo da Microsoft baseado em entrevistas a 20.000 trabalhadores de 11 países, em 2022, revelou que 87% dos profissionais não sentiram alterações na produtividade. Este evidenciou-se um fator mais relevante para as chefias. Apenas 12% das mesmas acreditava na produtividade dos profissionais em teletrabalho. Outro estudo, do Great Place To Work, com mais de 800.000 participantes, apresentou resultados semelhantes.
Assim, quanto à produtividade, esta depende de caso para caso. Pode ser maior em regime de teletrabalho, por conta da redução das distrações ou de uma maior motivação (a flexibilidade está associada a uma maior satisfação dos colaboradores). De outra perspetiva, pode ser maior em regime presencial, por este estar associado a maior pressão.
Concluindo, ainda é difícil determinar qual será a tendência dos regimes de trabalho. Regressar aos escritórios cinco dias por semana, como o que sucedia antes da pandemia, não parece ser a vontade de colaboradores e empresários. Contudo, aumentar este regime e reduzir o teletrabalho pode ser uma opção para muitas empresas.
Artigo extremamente enviesado e orientado para a cultura pro-office vigente em empresas que apostaram na aquisição de escritórios e pretendem revitalizá-los e fazer render o investimento, suportadas por gestores e topos estratégicos adeptos do micromanagement e do bum-in-sit.
Já trabalhei em empresas fully remote e nunca senti a falhas no âmbito da mentoria nem dificuldades em pedir ajuda (facilitava o facto de as empresas terem uma cultura que promovia a partilha de conhecimento e a interajuda), onde a produtividade era bem elevada, as equipas eram bastante coesas e os colaboradores tinham elevados níveis de commitment e engagement.