C Generosa do Nascimento (GN) – O Eduardo defende a Gestão Estratégica de Pessoas nas organizações e, naturalmente, na Ageas. Como entende este paradigma da Gestão de Recursos Humanos e da Gestão Estratégica de Pessoas?
Eduardo Caria (EC) – Compreendo a Gestão Estratégica de Pessoas como uma evolução natural da tradicional Gestão de Recursos Humanos. Neste contexto, as pessoas não são vistas como recursos a serem geridos, mas sim como os verdadeiros agentes de valor estratégico para a organização. No Grupo Ageas Portugal, acreditamos que o capital humano é um dos pilares mais críticos para o sucesso da nossa estratégia de negócio. Isto implica que as práticas de Gestão de Pessoas estão diretamente alinhadas com os objetivos globais da empresa.
Diversas tendências têm moldado a Gestão Estratégica de Pessoas no nosso setor. A transformação digital, por exemplo, continua a ser uma tendência preponderante, exigindo novas competências e formas de trabalhar. Outro aspeto relevante é a crescente ênfase na flexibilidade laboral e no trabalho remoto, que foi acelerada pela pandemia. Além disso, a diversidade e a inclusão tornaram-se fatores indispensáveis para o crescimento sustentável e inovador das empresas.
EC – Na mesma perspetiva, como vê a evolução do papel das Instituições de Ensino Superior (IES) na preparação da nova geração, atendendo aos desafios que irão enfrentar?
GN – Quando analisamos a última década, compreendemos claramente que qualquer tentativa de antecipar o futuro é frustrada pela realidade. Não conseguimos antecipar os desafios concretos que os nossos estudantes e futuros líderes vão enfrentar, mas conseguimos prepará-los para responderem aos desafios através do desenvolvimento do pensamento crítico e criativo e por meio de uma ação e decisão empática, humanista e ética.
GN – Como é que as IES podem melhorar a preparação dos jovens para o mercado de trabalho?
EC – Temos colaborado e apostado fortemente nas IES que, na minha opinião, desempenham (e terão de desempenhar ainda mais) um papel crucial na preparação dos jovens para o mercado de trabalho. Isto será possível através de uma abordagem mais prática, alinhada com as necessidades reais das empresas e do mundo profissional.
No campo das competências, considero essencial uma aposta crescente em competências relacionais ou sociais e nas competências digitais. Também acredito que a globalização exige profissionais com uma mentalidade aberta e capacidades interculturais.
EC – Concorda e qual a sua perspetiva? Que tendências na formação académica e empresarial estão a emergir?
GN – Concordo plenamente. A internacionalização das IES em Portugal tem contribuído para fomentar ambientes de aprendizagem cada vez mais ricos, onde a diversidade cultural e identitária dos estudantes contribui para uma formação baseada nos valores da equidade, do respeito e da inclusão. Para a concretização deste desafio, as IES devem trabalhar em rede com toda a comunidade e este trabalho tem sido especialmente importante para o desenvolvimento dos programas de 2.º ciclo, ao nível do mestrado.
Os programas de executivos oferecem um currículo focado e uma orientação para a aplicação prática, o que torna estes programas numa componente vital para a competitividade e para a inovação no mundo empresarial moderno.
GN – Quais são as mais-valias e as lacunas mais comuns que tem observado nos recém-formados ao ingressarem no mercado de trabalho e, especificamente, na Ageas?
EC –Tenho observado com muito agrado que os jovens recém-formados chegam ao mercado de trabalho com uma sólida base teórica, demonstrando grande dinamismo, capacidade de análise e uma forte predisposição para aprender. A sua familiaridade com ferramentas tecnológicas e o entusiasmo por contribuir para projetos inovadores são, sem dúvida, aspetos muito positivos.
Contudo, acredito que a experiência prática em contexto real é essencial e deve ser reforçada. Além disso, considero vital que as IES apostem fortemente na aplicabilidade prática da Inteligência Artificial não é apenas uma competência do futuro, mas uma área com relevância e aplicação imediata, que pode oferecer um enorme valor às empresas já no presente.
Preparar os líderes do futuro significa trabalharmos para colocar à disposição dos nossos estudantes uma formação humana e técnica que lhes permita enfrentar os desafios decorrentes das transformações atuais e futuras
GN – E na liderança? Deve ser um foco vosso, com certeza. Qual o papel da academia no desenvolvimento da liderança e dos líderes?
EC – Sem dúvida, a liderança é um pilar estratégico para nós. Na Ageas, acreditamos que o desenvolvimento de líderes fortes e capazes é essencial para o sucesso sustentável da organização a longo prazo.
A nossa Academia tem desempenhado um papel fundamental no desenvolvimento da liderança, disponibilizando programas a nível local e internacional, em estreita colaboração com IES de renome.
A atuação da academia tem sido aplicada não só na liderança interna, mas também temos atuado como parceiro estratégico para a nossa rede de agentes de negócio.
Na Ageas, também incentivamos a aprendizagem pela prática, através de coaching, mentoring e da troca de experiências entre líderes de diferentes áreas, promovendo fortemente a mobilidade interna, bem como programas de long term e short assignments internacionais.
Alinhados com o nosso lema “Great Place to Grow”, acreditamos que o desenvolvimento da liderança deve ser um processo contínuo e integrado.
EC – Neste contexto, como vê o papel das IES, e da sua universidade em particular, na preparação dos futuros líderes para lidar com os desafios da Gestão Estratégica de Pessoas nas organizações contemporâneas?
GN – Na nossa perspetiva, preparar os líderes do futuro significa trabalharmos para colocar à disposição dos nossos estudantes uma formação humana e técnica que lhes permita enfrentar os desafios decorrentes das transformações atuais e futuras, numa construção de uma sociedade mais pluralista e democrática, enquanto cidadãos ativos e responsáveis.
No ISCTE, promovemos uma formação abrangente e multidisciplinar. Os nossos campus em Lisboa e em Sintra constituem verdadeiras comunidades de aprendizagem, onde as diversas áreas se interligam e se desafiam mutuamente.
Acreditamos que a Gestão Estratégica de Pessoas é uma componente importante de todos os cursos que ministramos, independentemente das suas áreas de especialização concreta. Ao criarmos condições de liderança pelo exemplo em termos de comunicação, feedback e reconhecimento, asseguramos nas organizações as condições para o envolvimento efetivo das pessoas, a adequação da performance e o sucesso organizacional.
GN –A aprendizagem ao longo da vida é fundamental para um desenvolvimento organizacional sustentável. Considera os programas de formação de executivos uma aposta necessária das empresas?
EC – Acredito profundamente que os ciclos de evolução das organizações serão cada vez mais curtos e frequentes, tornando a capacidade de adaptação rápida absolutamente essencial. Para se manterem relevantes, os profissionais terão de se atualizar continuamente.
Estes programas, além de atualizarem os executivos, fomentam o networking e a troca de experiências com outros líderes, enriquecendo a sua capacidade de pensar estrategicamente e de implementar soluções inovadoras.
Na Ageas, acreditamos que o investimento contínuo no desenvolvimento dos nossos líderes é fundamental, e temos apostado em programas de formação executiva para assegurar que a organização se mantenha competitiva, ágil e preparada para o futuro.
A Gestão de Pessoas torna-se então crucial na implementação de estratégias de atração, desenvolvimento e retenção de talento, num ambiente de responsabilidade, motivação, reconhecimento e sucesso.
Artigo publicado na edição 154 da RHmagazine, referente aos meses de setembro e outubro de 2024
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