Por Teresa Sabino, Diretora de Recursos Humanos da UPPartner
Há competências que se aprendem em cursos, formações e livros de gestão. Mas há outras que exigem algo mais profundo – consciência, empatia e prática diária. A escuta é uma delas. É talvez a mais subestimada das competências de liderança e, paradoxalmente, uma das mais poderosas.
Durante décadas, o modelo tradicional de liderança baseou-se na autoridade, na assertividade e na capacidade de decidir. Esperava-se dos líderes que tivessem respostas para tudo, que falassem com segurança e orientassem com convicção. Mas o mundo mudou – e as equipas também. Hoje, não se procura quem sabe sempre o que dizer, mas quem sabe quando é hora de ouvir.
Ouvir verdadeiramente é mais do que deixar o outro falar. É estar presente. É suspender o impulso de responder, de justificar ou de corrigir, e criar um espaço onde o outro se sinta à vontade para expressar o que pensa e sente. É compreender o que está por detrás das palavras – os silêncios, as dúvidas, as intenções. É escutar com o objetivo de entender, e não apenas de responder.
A escuta ativa exige maturidade emocional. E talvez por isso seja uma competência tão rara. Requer humildade para aceitar que o líder não tem sempre a melhor resposta e coragem para ouvir o que é desconfortável. É mais fácil continuar a falar do que encarar o que se revela quando se dá voz aos outros. Mas é precisamente aí, nesse espaço de vulnerabilidade, que se constroem equipas mais autênticas e relações mais fortes.
Liderar com escuta é liderar com humanidade. Quando um colaborador sente que foi ouvido, sente-se valorizado. Quando percebe que a sua opinião tem impacto, o envolvimento cresce. E esse envolvimento transforma a forma como se trabalha. Equipas que confiam nos seus líderes porque sabem que são ouvidas tornam-se mais abertas, colaborativas e criativas. Sentem-se parte do processo e não apenas executoras de uma estratégia.
Por outro lado, a ausência de escuta gera distância. As pessoas deixam de partilhar ideias, escondem preocupações e começam a sentir que as suas vozes não fazem diferença. O resultado é uma cultura silenciosa, onde se cumpre o mínimo e se perde o sentido de pertença. E, com o tempo, a desmotivação instala-se.
O ato de ouvir é também um instrumento poderoso na resolução de conflitos. Muitos impasses nas equipas não nascem de desacordos profundos, mas de falhas de comunicação. Quando as pessoas não se sentem ouvidas, amplificam a frustração. O simples gesto de parar, escutar e reconhecer o ponto de vista do outro pode desarmar resistências e reconstruir pontes. O reconhecimento não precisa de significar concordância – basta mostrar que a perspetiva do outro é legítima.
Um estudo da Harvard Business Review mostrou que líderes que praticam escuta ativa têm equipas 62% mais envolvidas e com maior confiança na gestão. O dado confirma o que a experiência mostra todos os dias: quando há escuta, há compromisso. Quando há compromisso, há resultados.
Escutar também é uma forma de aprender. Os líderes que ouvem de verdade estão em contacto direto com a realidade – percebem os desafios, as aspirações e as fragilidades do seu grupo. Conseguem antecipar problemas e identificar oportunidades. A escuta é, por isso, uma ferramenta de inteligência organizacional.
Mas talvez o aspeto mais transformador da escuta esteja no que ela simboliza: respeito. Escutar alguém é reconhecer o seu valor. É dar tempo, atenção e espaço – três recursos cada vez mais escassos. E quando as pessoas sentem esse respeito, retribuem com lealdade, dedicação e confiança.
A liderança do futuro será, inevitavelmente, mais silenciosa. Não no sentido da ausência de voz, mas na capacidade de criar espaço para que outras vozes se façam ouvir. Será menos sobre falar com autoridade e mais sobre inspirar através da presença. Porque liderar não é estar sempre no centro – é saber quando se deve sair de cena para deixar os outros brilhar.
No fim, ouvir é um ato de liderança e de humanidade. E talvez o verdadeiro desafio não esteja em aprender a falar melhor, mas em reaprender a escutar. Porque é no silêncio atento que se encontram as melhores ideias, as relações mais fortes e as equipas que realmente confiam. E é essa confiança que sustenta tudo o resto.
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