Neste período estival, que agora se aproxima do fim, e tendo frequentado, como toda a gente, inúmeros locais públicos, particularmente restaurantes e cafés, tenho-me confrontado frequentemente com uma dificuldade que, na maior parte das situações, confesso que tem perturbado o meu desejável bem-estar estival: a dificuldade de manter uma conversação com os meus parceiros à mesa, devido ao barulho ensurdecedor das vozes de muitos outros circunstantes, que parece terem-se todos reunido para participar num concurso de quem fala mais e mais alto.
Pela constância do fenómeno e pela diversidade das situações em que ocorre, começo a admitir que se trata de algo bastante generalizado e que já faz parte de uma certa iconografia social que atravessa vários estratos populacionais e diversas áreas geográficas, não podendo, por isso, ser atribuível nem a uma certa e determinada categoria nem a um género específico de pessoas.
Dir-se-á que tal fenómeno acontece por efeito de contágio, porque, em recintos relativamente circunscritos, se há uns que começam a falar mais alto então os outros, para se fazerem ouvir, têm eles próprios de “aumentar o volume”… e por aí fora. No entanto, este fenómeno, aqui descrito enquanto observado num registo “analógico”, tem também uma ampla expressão, e até mais frequente, através dos suportes digitais, particularmente das redes sociais, cujo ruído é mais do tipo de autênticas torrentes de palavras e imagens que, se fossem traduzidas em sons, dariam seguramente o efeito de uma bravata sonora de proporções inimagináveis.
Como denominador comum de tanta “polifonia comunicacional”, temos manifestações exuberantes de um “arquétipo de felicidade”, feitas em termos de certo tipo de espetáculo, em que cada um parece estar a querer transmitir aos outros qualquer coisa do tipo “vou mostrar-vos tão bem que as coisas estão a correr. Vejam como estou ótimo”, vejam, no fundo como sou feliz!” (*) E para acentuar a “grandiosidade” de tanta coisa tão boa, tais manifestações de felicidade são acompanhadas por um palavreado constante e quase obsessivo, arrematado por gargalhadas de uma sonoridade alarve que, por vezes, parece pôr em risco a saúde das cordas vocais de quem a pratica.
Dir-se-á, ou digo eu, que a vivência do verdadeiro bem-estar e da felicidade não têm de passar necessariamente por este tipo de demonstrações exuberantes que, como afirma Ryan Holiday, “raramente são verdade” e escondem, muitas vezes, uma realidade mais profunda de alguém que, no seu íntimo, murmura a intranquilidade de um “estou assustado. Estou com dificuldades. Não sei” (*)
No entanto, e nesta “sociedade do espetáculo” em que atualmente vivemos, e quando as filosofias e modelos de “well-being” e da “felicidade” atingem uma popularidade nunca antes imaginável, começa a gerar-se um fenómeno social curioso, embora algo “perverso” e de consequências potencialmente muito negativas. Tal é o caso de certas pessoas que acabam por sentir uma espécie de vergonha por “estarem mal” ou, pelo menos, por “não estarem bem”, receando, com isso, dar de si próprias, uma imagem de insucesso e de fracasso que, num contexto onde a exuberância das manifestações positivas se vai tornando tão generalizada, gera, e acentua, os estigmas de uma inquietante solidão.
Por tudo isto, e por contraponto ao barulho como manifestação arquetípica de felicidade, parece que, como assinala Holiday, “pensamos que o silêncio é um sinal de fraqueza. Que ser ignorado equivale a morrer (…) Por isso, falamos, falamos, falamos, como se a nossa vida dependesse disso”. (*)
Porém, e apesar de uma certa “má fama” que o acompanha, “o silêncio é força”, é um recurso “escasso e raro” que consiste na “capacidade de ficar deliberadamente fora da conversa e subsistir sem validação” (*). Nesse sentido, “o silêncio é a pausa dos confiantes e dos fortes” (*) e é aquela categoria que, numa conversação, permite validar a famosa expressão do Lao Tzu, no Tao Te Ching chinês, “Aqueles que sabem, não falam; aqueles que falam, não sabem” (*).
Esta frase, que expressa uma ideia profunda sobre o conhecimento verdadeiro, o silêncio e a sabedoria, deverá, como óbvio, ser lida e entendida na devida proporção, como acontece aliás com todas a grandes frases clássicas que compõem a imensa galeria dos princípios ancestrais que sustentam as nossas culturas. Mas alerta-nos para o risco de podermos fazer enviesamentos cognitivos, catalogando as pessoas em função de estereótipos acríticos, como, por exemplo, está bem espelhado numa frase muito tradicional, que muitas vezes ouvi em pessoas da geração dos meus pais: “Ah, ele (ou ela) fala muito bem!; é muito inteligente!”.
Felizmente, começa hoje a desenhar-se uma nova forma de pensamento e de intervenção em que o silêncio é valorizado como uma competência importante, particularmente no contexto empresarial e nas figuras de liderança, onde a capacidade de “expressão oral” e as “técnicas de apresentação” têm sido consideradas como competências críticas para o sucesso.
Mais do que isso, nos modelos atuais de liderança o que se valoriza, mais do que uma boa capacidade de expressão, é justamente a capacidade de escuta, mas não apenas aquele tipo de escuta redutível a fórmulas comportamentais já um pouco gastas, como a “escuta ativa”, onde aos formandos se lhes ensina qual a parte do corpo do interlocutor para a qual devem olhar numa interação (normalmente são os olhos, just in case…).
O silêncio de que aqui se fala, é o silêncio empático, é a capacidade de entrar no universo do outro, senti-lo nas suas (do outro) significações para, assim, o poder compreender mais integralmente e proteger-se, a si e ou outro, dos riscos de interpretações enviesadas ou projetivas. O que se pede hoje a um líder é que dê prova de ponderação, é que saiba usar a palavra com moderação e sentido de oportunidade, de acordo com o poeta Hesíodo, que afirmava que “O melhor tesouro de um homem é uma língua parcimoniosa” (*). E o que se pede a qualquer pessoa que pretenda apresentar-se com elegância nas diversas interações sociais, é essa coisa básica de ter em atenção que não é a única no universo onde está e que o barulho que faz, já que foi por aqui que começámos, faz parte da mesma paisagem que ambos partilham.
Por fim, e voltando ao universo empresarial, já que se faz tanta formação sobre as várias técnicas para “falar em público”, porque não pensar em cursos de formação sobre “silêncio estratégico” ou, mais simplesmente, “saber calar-se oportunamente, nas interações sociais”. Se calhar, haveria público para isso, embora o potencial maior público seja o das pessoas que, embora precisem muito de tais técnicas, não têm a mínima perceção dessa necessidade.
E já que citámos Lao Tzu, deixemos aqui uma outra frase que, não sendo evidentemente tão famosa e de tanta notoriedade, vai na mesma linha do mestre chinês: é um simples ditado popular português, onde se afirma que “quem muito fala, pouco acerta”. Só falta agora cada um de nós “enfiar a carapuça”, se for caso disso, e decidir finalmente onde quer estar.
Referências
(*) Todas as citações assinaladas neste texto são extraídas de:
HOLIDAY, R. (2024). O Ego é o Inimigo. Alfragide: Editora Lua de Papel.
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