Autor: João Silva Santos, CEO & Partner da Merytu
Há vários anos que juntar turismo e talento tem sido um verdadeiro quebra-cabeças, até mesmo para os especialistas na matéria. Esta condição desesperante tem teimado em prevalecer de tal forma que a expressão “escassez de mão-de-obra na hotelaria e restauração” exerce uma verdadeira força gravitacional que convence quase todos da sua inevitabilidade.
Tema protagonista de inúmeros debates, tem reclamado para si a luz dos holofotes, distraindo-nos frequentemente das questões subjacentes que acabam por cair na sombra, relegadas para segundo plano – recorrendo à célebre analogia de Joaquim Aguiar no podcast Think Tank – “A cor do dinheiro”.
É, portanto, urgente, numa indústria onde o fator humano tem uma preponderância incontornável, trazer à luz algumas questões para desconstruir este elefante que teima em permanecer sentado no sofá da sala. Nesta curta reflexão, focamo-nos num tema já quase “cliché mediático”, mas que ainda pouco significa na prática para muitos setores.
É inegável que a evolução do contexto laboral não ocorre de forma uniforme em todos os setores. Por exemplo, no turismo, cuja operação é predominantemente presencial, os benefícios das tendências emergentes de trabalho remoto ou híbrido, catalisados pela crise pandémica, foram apenas residuais. Esta realidade coloca o setor numa desvantagem clara em comparação com outros que conseguiram contar com um fator de humanização extra, permitindo o trabalho a partir de casa, parcial ou totalmente.
Parece, assim, óbvio que se Maomé não vai à montanha, a montanha terá de ir a Maomé. Humanizar o local onde cada profissional passa em média um terço da sua vida soa quase a “lapalissiano”. E, se já é constrangedor citar estudos que correlacionam índices de produtividade com o bem-estar dos profissionais, porque é que ainda continuamos a considerar um excelente avanço o facto de nos balneários de staff nenhuma das saboneteiras se encontrar partida? “Tudo arranjadinho!” como ouvi numa conversa que tive com o responsável de uma marca hoteleira proeminente, onde o tema era “Employer Branding”.
E sim, as condições físicas importam, as ferramentas de trabalho importam, as iniciativas de saúde e bem estar, como o mindfulness, o yoga, aquele team building planeado para o fim do trimestre, importam. Contudo, qualquer iniciativa, por mais boa vontade que tenha, não será mais do que um paliativo para o bem estar mental das nossas equipas se o nosso talento não considerar o seu contexto de trabalho como um “lugar seguro” neste domínio.
Por “lugar seguro” refiro-me ao HACCP mental, às práticas de higiene e segurança no trabalho aplicadas ao bem-estar psicológico. Sim! A poder acordar de manhã e saber que nas próximas 8, 9, 10 ou as horas que sejam, não serei exposto a hostilização verbal por colegas ou chefias, à infantilização da minha autonomia nas mais elementares tarefas, ao sarcástico revirar de olhos quando faço uma pergunta, ao ambiente passivo-agressivo medieval que a norma institucionalizou e que só não incomodará alguém com traços personalísticos a roçar a sociopatia.
E se partimos do enquadramento da gestão de capital humano na indústria do turismo, desengane-se quem pense que é só neste setor que ainda há muito a fazer a este respeito. De todo! Por definição, o tecido empresarial português tem um ritmo próprio de evolução e, na sua generalidade, com honrosas exceções, o tema do bem-estar psicológico ainda se encontra bastante abstrato para grande parte das empresas nacionais.
Contudo, numa área cuja operação implica um tipo de contacto prolongado com o público, a exposição frequente a clientes caprichosos, desadequados ou tóxicos redobra a importância deste tema para o setor do turismo. É nesse “lugar seguro” que o colaborador não só se reequilibra quando enfrenta um problema externo que não controla, como sustenta esse mesmo equilíbrio por saber que é aceite enquanto indivíduo com as suas características físicas, psicológicas, sociais e circunstâncias pessoais que atravessa.
Sim, uma organização cuja liderança tenha como vetor estratégico criar um “lugar seguro” para o seu talento estará definitivamente a virar o jogo da atração e retenção de capital humano no turismo e a dar um valioso contributo para a criação de uma autêntica cultura da “hospitalidade do bem-estar mental” dos seus profissionais.