No âmbito da Bolsa de Empregabilidade para 2024, uma edição que se estende às regiões do Algarve, Alentejo e Centro, além de Lisboa e do Porto, a RHmagazine conversou com António Marto para conhecer os desafios do setor do turismo e como enfrentá-los.
A primeira feira teve lugar em Vilamoura, no dia 5 de fevereiro. Quais são as expetativas para as restantes e o que os visitantes podem encontrar?
A bolsa de empregabilidade não é algo que surge do zero porque já tem um histórico do passado. Este ano, arrancamos com cinco bolsas de empregabilidade, sendo que a primeira aconteceu no Algarve, em Vilamoura. Neste espaço, tivemos a oportunidade de receber 75 empresas a contratar e 1259 visitantes (desde estudantes de turismo e de outras áreas, desempregados, etc.). Estas pessoas visitam a bolsa numa tentativa de encontrar oportunidades de emprego ou de fazer upskilling, relativamente às suas situações profissionais atuais.
Do lado das empresas, tivemos 75 organizações de diferentes áreas de atividade, no entanto, o setor predominante com vagas disponíveis foi o de hotelaria. Estamos a falar da área que mais carece de força de trabalho para que consiga satisfazer as necessidades do dia-a-dia — só dentro do hotel podemos contar com serviço de restauração, receção, serviço de quartos, entre outros.
Assim, dentro desta bolsa de empregabilidade, existe uma panóplia de atividades, diretas e indiretas.
Porque foi tomada a decisão de terem bolsas noutras regiões do país? Significa que os desafios de contratação são transversais…
Em 2021, saímos da bolsa de empregabilidade “tradicional” e fomos parar ao Porto porque o público da região norte reagia às nossas publicações nas redes sociais com os seguintes comentários: “isto deveria acontecer aqui” ou “não me sinto à vontade de ir para Lisboa porque a verdade é que quero trabalhar aqui”. Estes indicadores fizeram-nos perceber que temos pessoas interessadas no produto e tivemos de ir ao encontro dessas pessoas.
Já no caso do Algarve, podemos afirmar que está cada vez menos virado para um turismo sazonal. Está a tornar-se atrativo para outros públicos, inclusive nos meses de maior frio. E foi ao olhar para as características da região e, tendo em conta, que o Algarve começa as campanhas de contratação um pouco mais cedo, é que decidimos levar a bolsa de empregabilidade até lá.
Mas eis a questão: ela resolve a situação do território? Não, não resolve. Ela é, apenas, uma ação dentro do problema.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), a falta de mão de obra impede uma maior aceleração da atividade turística. Quais são os principais desafios enfrentados pelas empresas deste setor? Como podem lidar com essa falta de mão de obra?
A escassez de mão de obra não é só uma realidade em Portugal, mas sim de toda a Europa. Faltam precisamente 50.000 colaboradores ao serviço do turismo para que esteja totalmente satisfeito. Como é que isto pode ser trabalhado?
O principal pilar é saber “agarrar” o talento que já estuda turismo e aliciá-lo a trabalhar na sua área de formação.
A segunda fase é conseguir manter os atuais colaboradores no setor em causa. Enquanto a terceira, consiste em converter aqueles que foram para outras áreas de atividade porque muito destes profissionais têm polivalências nas suas skills (sabem falar línguas, têm um comportamento ético e diferenciado, etc.). Só a título de exemplo, já existem lojas de nome prestigiado que vão buscar colaboradores do turismo porque são formados em ética, saber estar, falar e relacionar-se.
E por último, e não menos importante, temos de buscar talento estrangeiro que, cada vez mais, olha para o nosso país como uma fonte de garantia das condições de segurança e estabilidade. E se esta é uma fonte de trabalho que está disponível, também temos de estar mais abertos para recebê-los e formá-los.
Como podemos “agarrar” este talento e impedi-lo de transitar para outras áreas?
Temos de saber remunerar melhor, ler os estágios de vida de cada pessoa para ir ao encontro das suas necessidades e motivá-los para estarem satisfeitos com o trabalho que estão a fazer.
É importante acompanhar as motivações individuais das pessoas e perceber bem os seus objetivos e ambições. Por exemplo: um jovem licenciado não quer um contrato de trabalho a longo prazo, quer um contrato que lhe permita combinar os seus hábitos de vida com o trabalho. São estas as condições que, não são só salariais, mas são também o resultado da interpretação do nível de vida do colaborador que as empresas precisam de fazer.
Durante muito tempo, nós, falando do setor, estivemos muito atentos a captar o turista porque é ele que, num primeiro momento, nos dá dinheiro para ganhar. Mas agora estamos com outra ferida: falta de pessoas para trabalhar.
É preciso definirmos um programa de acolhimento e hospitalidade não só para o turista, como para o colaborador.
Temos de cuidar bem do colaborador, tal qual cuidamos do cliente. Esta regra esteve desajustada, durante muito tempo, mas estamos a trabalhar para que fiquem um pouco mais próximas.
E o governo, o que pode fazer em termos de políticas legislativas para fazer face a estes desafios?
O governo está a tentar receber estes migrantes e dar uma resposta clara de como podem começar a procurar trabalho, legalmente. As receitas da segurança social, provenientes desses migrantes, aumentaram em muito, o que significa que estão a pagar impostos como nós. E isto é uma política de justiça perante nós, contudo, acho que o governo pode fazer mais.

Pode estar ao lado das empresas e mostrar como podem contratar pessoas de culturas e competências diferentes. Não deve interferir na estrutura interna da empresa, mas sim, criar mecanismos para que percebam que há apoios à contratação para pessoas tanto nacionais como internacionais.
E é claro que deve ainda existir um apoio diferenciado para aqueles que estão em início de vida, de forma a que não se sintam tentados a abandonar o país. Um terço da população ativa escolhe países terceiros para ficar e não Portugal. É urgente trabalharmos neste aspeto porque, caso contrário, Portugal será visto apenas como um país de alta formação e exportação do seu valor acrescentado. Precisamos de uma medida governamental que consiga fazer bem a gestão desta situação.
Apesar disto tudo, estamos a fazer um caminho extraordinário em termos de turismo; estamos a receber prémios internacionais e a ganhar cada vez mais credibilidade no mercado internacional. Temos de nos potenciar à escala máxima porque temos características muito interessantes.
Enquanto membro da Comissão Nacional da formação, qual é o papel da formação? Sabemos que os níveis de exigência são cada vez maiores…
Formação em excesso nunca fez mal a ninguém. Atualmente, ainda temos um tecido empresarial que carece de formação no do turismo. Neste sentido, precisamos de formar novos talentos e os já existentes — aqueles que já trabalham na área do turismo ou que pretendem vir a trabalhar.
No meu entender, a formação deve ser cada vez mais otimizada às características do território. Por exemplo, a formação em Bragança deve ser distinta da que é dada na zona de Faro porque deve olhar para as características do território e perceber o que faz sentido ali. Devemos estar preparados para uma escala global, mas como os pés assentes no território em que nos inserimos.