Esta semana retomo o foco no tema da inteligência artificial (IA) no L&D uma vez que é um dos assuntos na ordem do dia para várias áreas e para a área de L&D em particular. De facto, para o L&D são pelo menos dois os desafios em torno da IA.
Eis os tais desafios:
- Desafio nº 1 – Incorporar o uso da IA nas suas práticas para aumentar a eficiência;
- Desafio nº 2 – Apoiar a sua adoção da organização facilitando a adoção da IA pelos colaboradores.
Quem me acompanha sabe que sigo o trabalho de Donald H Taylor e Eglė Vinauskaitė como uma referência atual na reflexão sobre IA em L&D. Em outubro de 2024, os autores publicaram os resultados de mais um survey, que nomearam de “AI in L&D: Intention and reality”.
Para nossa referência, 99% das pessoas que responderam à questão sobre a sua área profissional pertencem a departamentos de L&D e estavam maioritariamente baseados na América do Norte e Central (31%), no Reino Unido (19%) e no resto da Europa (22%).
Ora, muito já se tem escrito sobre o quão incontornável é o uso da IA e que já não se trata de um luxo, mas sim de uma necessidade. Os resultados do survey de 2024 mostraram que “há um pequeno grupo de organizações de L&D que estão a avançar com a IA de forma extensiva (9%), um grupo considerável que está a testá-la e a fazer algo (47% entre piloto e uso em componentes de L&D) e um grupo que não a está a usar de forma estratégica (43% não experimentaram ou não implementaram).” (“AI in L&D: Intention and reality)
Estes resultados levaram Donald e Eglè a criar uma escala de imaturidade. Nome que desde logo prendeu imenso a minha atenção. Isto, porque na PwC’s Academy, prestamos um serviço que designamos de “Avaliação da maturidade de L&D”, em que analisamos as práticas de formação e desenvolvimento da organização e classificamos a mesma numa escala de cinco pontos, que vai de utilitário a dinâmico, tendo em conta a estratégia, a forma como a formação é gerida e a cultura de aprendizagem da organização.
A perspetiva desta escala é que seja evolutiva. Por isso, agora, defrontar-me com uma escala de “imaturidade” claramente suscitou curiosidade. A explicação para esta designação reside no facto de, embora nos encontremos perante um hot topic em L&D e existam já bons case studies que ilustrem utilizações robustas de IA em competências mais complexas de L&D, os autores consideram que, no caso da AI, não é possível recorrer a um modelo de maturidade clássico, do tipo progressivo.
Na verdade, foi identificado um “perigo real” de o L&D se focar apenas no conteúdo e ficar-se por um uso imaturo e pouco sofisticado da IA, se aplicar apenas a IA para aumentar a eficiência do departamento de formação (desafio n.º 1 identificado acima). Isto é, poderá assistir-se ao aumento do uso da IA mas isso não contribuir para a evolução da área em termos de maturidade.
Para os autores, o verdadeiro fator distintivo está no 2º desafio: apoiar a aprendizagem e o desempenho das pessoas com soluções impulsionadas por IA. E, quanto maior for o apetite da organização pelo uso das potencialidades da IA, em melhor posição se poderá encontrar o departamento de L&D.
Assim, embora pessoalmente considere que a abordagem ao tema da IA no L&D deva iniciar-se com a exposição das pessoas do departamento a ferramentas de IA (de modo a provar do mesmo remédio), o foco para a verdadeira transformação estará em reimaginar o seu papel e garantir que a IA apoia na aproximação da estratégia de aprendizagem à estratégia do negócio, como é referido pelos mesmos autores.
Portanto, há muito a fazer na exploração de novas ferramentas que “falem” negócio e permitam, por exemplo, que a aprendizagem ocorra no decorrer do trabalho (in the flow of work), que os processos sejam mais ágeis e (re)inventar o próprio L&D como driver da adoção da IA na organização. Vamos a isso?