As baixas qualificações são um dos principais entraves à entrada de muitos jovens no mercado de trabalho. Dos 99.319 jovens desempregados registados em 2022, quase um terço (29,6%) não tinha ido além do 9.º ano de escolaridade e perto de um quarto (23,7%) estava totalmente fora do sistema de ensino.
Estes são resultados apontados pelo estudo “Quem são os jovens desempregados? – Diagnóstico e Recomendações” realizado por uma equipa de investigadores do Iscte – Instituto Universitário de Lisboa, a pedido do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), e que será apresentado esta quinta-feira.
Partindo do Inquérito ao Emprego do 2.º trimestre dos anos de 2019 a 2022, os autores analisaram a situação dos desempregados entre os 15 e os 29 anos e concluem que os jovens com baixas qualificações enfrentam cada vez mais dificuldades de inserção no mercado de trabalho e são os que procuram emprego há mais tempo, o que requer “uma atenção especial” das políticas públicas.
Olhando para os números do desemprego do segundo trimestre de 2022, 46,9% dos jovens tinham concluído o ensino secundário através da via geral ou profissional; 29,6% tinham, no máximo, o 9.º ano; e 23,5% tinham concluído um curso superior, mestrado ou doutoramento.
Depois de analisarem um conjunto de dados sobre as características destes jovens, os investigadores dividiram-nos em vários grupos e concluíram que os jovens que enfrentam maiores dificuldades no mercado de trabalho são precisamente os que estão no grupo dos que não concluíram o ensino obrigatório (12.º ano de escolaridade) e têm, no máximo, o 9.º ano.
A maioria dos jovens nesta situação são homens entre os 25 e os 29 anos e não voltaram a ter qualquer ligação ao sistema de ensino.
Os dados mostram ainda que 23,7% do total dos jovens desempregados não estão nem na escola, nem em formação, uma percentagem que se tem mantido relativamente estável ao longo dos últimos anos (25,4%, em 2019; 21%, em 2020; e 19%, em 2021).
“Existe uma proporção muito elevada de jovens muito pouco qualificados em todos os trimestres analisados, o que mostra que este é um fenómeno persistente”, destaca Paulo Marques, um dos autores do estudo e coordenador do Observatório do Emprego Jovem, acrescentando que estes jovens são empurrados para as margens pelos que têm formação superior e ocupam os empregos vagos, mesmo que não exijam qualificações tão elevadas.
“O que pode estar a acontecer é que os jovens com mais qualificações trabalham em empregos que antes eram ocupados pelo menos qualificados, empurrando os pouco qualificados para fora do mercado de trabalho. Por outro lado, os empregos menos qualificados requerem cada vez mais competências, como as digitais ou o domínio de uma língua estrangeira, e os jovens pouco qualificados enfrentam muitas dificuldades em desempenhar essas funções”, sublinha.
Este grupo é, na perspectiva de Paulo Marques, o que apresenta mais vulnerabilidades e o que exige uma intervenção rápida. “Pensar que estes jovens, que têm entre 25 e 29 anos e no máximo o 9.º ano, vão voltar ao sistema e frequentar um curso profissional de três anos não é viável”, destaca.
Estudo indica a necessidade dos empregadores criarem cursos de aprendizagem de duração mais curta
A resposta está em “criar cursos de aprendizagem de duração mais curta, com o envolvimento dos empregadores, em que a formação é sobretudo dada em contexto de trabalho e em que há algum tipo de remuneração associada”.
O envolvimento dos empregadores é, na perspectiva do investigador, determinante, cabendo ao IEFP acompanhar a formação ministrada e monitorizar a sua qualidade.
Outro dos grupos identificados como problemáticos diz respeito aos 18.353 jovens que concluíram o ensino secundário pela via geral, 13,9% dos quais não continuaram a estudar.
Estes jovens, nota Paulo Marques, não prosseguiram estudos nem obtiveram uma formação mais profissionalizante e enfrentam dificuldades de inserção no mercado de trabalho.
“Devem seguir para o ensino superior, realizando formações de índole profissionalizante, como a conferida pelos Cursos Técnicos Superiores Profissionais, ou prosseguir para o ensino superior universitário”, recomenda.
Um terceiro grupo considerado problemático diz respeito aos jovens que concluíram o ensino superior e que estão desempregados, mas neste caso as áreas de formação parecem ser determinantes.
De acordo com o estudo, um em cada quatro jovens licenciados em situação de desemprego tem um diploma na área das artes e humanidades. As áreas das ciências sociais e jornalismo e das ciências empresariais e direito também se destacam pela negativa.
Já as áreas com menor expressão entre os desempregados são a saúde e proteção social e as tecnologias de informação e comunicação.
A análise feita pelo Iscte destaca ainda o facto de, em 2022, 16% dos jovens à procura de emprego serem estudantes (6,5% estudavam no secundário, 6,4% estavam a meio da licenciatura e 3,1% eram estudantes de mestrado ou doutoramento).