As empresas têm lidado com diversos desafios no que toca às contratações. Apesar de Portugal bater recordes ao nível do emprego, as empresas têm sentido falta de RH. São escassos os perfis necessários para reforçar equipas e desenvolver estratégias. Os dados partem do Inquérito à Atividade Empresarial, realizado pela AIP-CCI (Associação Industrial Portuguesa – Câmara de Comércio e Indústria).
O inquérito dirige-se a um grupo aleatório de empresas, considerando o volume de emprego e o setor de atividade. Em 2024, o questionário decorreu no segundo semestre e contou com a participação de 298 empresas. 32% integradas no setor dos serviços, 31% da indústria, 23% do comércio e 7% da construção. 63% das empresas têm um volume de negócios inferior a 2.000.000€. 53% têm menos de 10 colaboradores.
Segundo o inquérito em questão, os RH são considerados o maior entrave ao crescimento e à competitividade das empresas. Este fator é mais significativo do que, por exemplo, os prejuízos associados à carga fiscal.
Uma em cada quatro empresas inquiridas definem o mercado de trabalho como o principal desafio que enfrentam. Os recordes de pessoas empregadas em Portugal não são suficientes para satisfazer as necessidades empresariais. Os trabalhadores estrangeiros são essenciais.
Da perspetiva da AIP-CC
Paulo Alexandre Caldas, Diretor de Economia, Financiamento e Inovação da AIP-CC e responsável pelo Inquérito, afirmou: “Há um crescimento expressivo no número de empresas que enfrentam um problema grave de falta de recursos humanos. Há negócio, há vontade de crescer e de internacionalizar, mas muitas vezes vemos as empresas de mãos atadas, por falta de pessoas qualificadas que possam ajudar a esse crescimento”.
As contratações de novos trabalhadores são um fator de stress para a gestão de empresas portuguesas, ultrapassando as questões financeiras. Ainda assim, o regime fiscal em Portugal é pouco competitivo, sobrecarregando as empresas de impostos.
José Eduardo Carvalho, Presidente da AIP, referiu: “Não podemos continuar com um quadro fiscal que é composto por 4.300 impostos e taxas e, ainda por cima, quando neles incidem 451 benefícios fiscais. Não faz sentido. É preciso que o Governo olhe para este problema que asfixia as empresas e a economia”.
Os desafios das empresas em Portugal
Para além da falta de RH e da fiscalidade em excesso, também o contexto internacional é desafiante para as empresas. Tanto a tensão geopolítica como a conjuntura macroeconómica limitam o crescimento das empresas em Portugal. Ainda assim, as empresas inquiridas garantiram permanecer numa situação financeira estável. A intenção de investir continua a ser uma realidade em Portugal.
52% das empresas inquiridas consideram “normal” a sua situação financeira, enquanto 40% consideram “boa” ou “muito boa”. Foram, apenas, 7% as empresas que consideraram “má” a sua situação financeira e 1% “muito má”.
Quanto à gestão financeira, 35% das empresas garante recorrer exclusivamente a fundos próprios. 49% necessitam pontualmente de capitais alheios e 16% fazem um uso regular do crédito bancário. Outras fontes de financiamento também são utilizadas pelas empresas, mas sem expressão significativa. Em causa, estão emissões de dívida ou o recurso ao mercado de capitais.
A reduzida literacia financeira é o principal motivo que leva as empresas a depender de financiamento bancário. Quanto a este tópico, a AIP pretende realizar iniciativas que reforcem as competências de 1.000 PME (Pequenas e Médias Empresas). O propósito é capacitá-las para a utilização e o acesso a soluções de financiamento inovadoras.
Os investimentos das empresas
47% das empresas admitiram investir a um nível “igual” ao do ano anterior. 22% investirão a um nível “superior”, quando comparado a 2023, e 6% “muito superior”. O principal destinatário do investimento é o equipamento produtivo. 11% das empresas também consideram as TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação). A qualificação de RH é uma preocupação para 10,8% das empresas.
Estes valores refletem a necessidade das empresas de reforçar a produção, de se tornarem mais digitais e de qualificar e reter o talento. Contudo, a I&D (Investigação & Desenvolvimento) ficou de fora. 47% das empresas admite raramente investir nesta área. Ainda assim, é relevante reiterar a importância da mesma para a diferenciação dos negócios.
A área de ambiente/sustentabilidade também ficou para trás, no que diz respeito às intenções de investimento das empresas. A transição energética é, igualmente, importante para o crescimento sustentável das empresas. Estes números revelam-se, assim, preocupantes.