A LeYa foi comprada pelo Grupo Infinitas Learning (IL) em 2022 e a Marta tem acompanhado o período de integração. Como tem sido gerido esse processo?
Eu diria que o balanço tem sido positivo, muito tranquilo. O papel das pessoas que lideram o processo, quer da parte do acionista quer da administração portuguesa, tem contribuído bastante para isso. O grupo Infinitas Learning adotou a célebre estratégia “think global, act local”. Ou seja, há uma estratégia que é definida pelo acionista e CEO do grupo e depois cabe aos CEO e às management teams dos vários países definir as suas estratégias, definir os seus planos de negócio e gerir as suas equipas e orçamentos, atuando de forma local, tendo em conta a realidade de cada país.
O “think global, act local” é fundamental porque com esta estratégia há consciência das diferenças de cada mercado. Em Portugal, por exemplo, temos dois negócios, “Educação” e “Edições Gerais”, situação única no grupo.
É na área de Pessoas & Cultura que, provavelmente, decorrem mais projetos integrados. A LeYa já tinha alguns dos seus próprios projetos e, em primeiro lugar, procura-se perceber se é mesmo preciso mudar, e, caso seja, se será necessário mudar tudo. Depois, por vezes com apoio até de consultoria internacional comum a todo o grupo, constrói-se o tronco comum. Estamos a falar de projetos como reward strategy, talent review ou medição de satisfação de colaboradores (eNPS), por exemplo. Mas existe abertura por parte do grupo – e em última análise do acionista – no sentido de podermos manter o nosso modelo a funcionar… se funcionar e for adequado ao nosso mercado.
Pode detalhar-nos situações onde as equipas de gestão trabalharam sistemas internos que passaram a ser comuns ao grupo?
Dou-lhe um exemplo prático de como as coisas funcionam: na avaliação da satisfação dos colaboradores existia um questionário anual na LeYa que tinha muita coisa para melhorar. Na Infinitas Learning já havia um modelo gerido através de uma plataforma (&Frankly). Com a colaboração do Comité de CPO de todos os países, definimos e alteramos em conjunto, todos os anos, as perguntas do atual questionário e este passa a ser enviado para os 2.000 colaboradores. Antes da integração, a LeYa media a avaliação das condições de trabalho (não do eNPS propriamente dito). Neste momento, mede não só o eNPS (medimos duas vezes por ano e tem estado sempre a subir) como a segurança psicológica, clima organizacional, ambientes eventualmente tóxicos ou lideranças menos positivas e outros.
A cultura pode ser um dos grandes desafios a gerir na integração. Como tem sido executado esse processo?
Neste momento, estamos ainda a trabalhar no sentido de ultrapassar os desafios que o trabalho híbrido nos trouxe em termos de cultura. Desde a pandemia que trabalhamos em regime híbrido e temos alguns colaboradores que o fazem a tempo inteiro a partir de casa. Os designers de produção são um destes casos, por exemplo.
No que refere à cultura, a LeYa tem a vantagem de ter um propósito que é muito claro para todos os colaboradores. É fácil perceber que existe uma grande probabilidade de em qualquer casa portuguesa existir um manual escolar ou um livro editado pela LeYa. E que esse livro/manual envolveu um pouco de todos os que fazem parte desta casa. E isto aporta um orgulho enorme.
Desde os anos Covid, houve um arrefecimento na vivência diária da cultura da empresa. O nosso eNPS é muito positivo e inclusive fomos assinalados pelo primeiro estudo de propósito organizacional em Portugal (Purpose Lab 23) como estando no TOP 10 Organizações com Propósito, mas sinto que pode melhorar.
De qualquer forma, neste momento, tento, com a minha equipa, fazer a ponte entre colaboradores, emoção, cultura, propósito, livros e educação. E sempre que conseguirmos fazê-lo e mexer com relacionamentos e com as emoções das pessoas, estamos a criar uma “massa sólida”. Só depois de termos consolidado isto é que me preocuparei com a integração da cultura LeYa e Infinitas Learning. Se o puder fazer em simultâneo, tanto melhor.
Claro que há pontos que se tocam, como, por exemplo, no caso do ESG, que no grupo tem uma política muito forte. Estamos a trabalhar temas em conjunto como a pegada carbónica, energias verdes, anulação de plásticos, a questão do papel – temas que já faziam parte da cultura LeYa.
Na LeYa, também já trabalhávamos muito a área do impacto social (o “S”) – é uma área que está sob a nossa alçada (People & Culture), com a ajuda da Comunicação. Cada vez mais as empresas têm de medir o seu impacto social. Temos tido muitas iniciativas nesta área: pequenas bibliotecas em escolas, no IPO, nas salas de espera de hospitais, em estabelecimentos prisionais, juntas de freguesias das comunidades envolventes, associações de estudantes, de seniores, entre tantas outras.
Como é que está organizado o vosso modelo de trabalho?
Na grande maioria das funções em que se consegue fazer assim, existe um acordo que definiu que as pessoas vêm dois dias à empresa, mas cada equipa define os dias em que trabalham presencialmente.
Há um dia obrigatório na empresa? Como fazem para reunir toda a equipa?
Não está definido um dia obrigatório. Cada equipa define como faz. A empresa, para fomentar esses encontros, cria momentos como o evento do passado dia 19 de julho, o nosso chill out de verão, e outros momentos de celebração, como o Dia da Criança, em que fizemos um evento muito emotivo graças à participação e envolvência dos pais, mães e filhos dos nossos colaboradores, o Dia da Mulher, o Dia de Reis, além do Natal, encontros de equipas, de lideranças, além da formação. Estes momentos são realizados em simultâneo nos nossos escritórios de Vila Nova de Gaia e Alfragide e no nosso centro de operações logísticas (Montijo).
Além destas, temos muitas iniciativas on-line, quer informativas como de formação. Iniciámos em setembro as “RH Talks”, que se realizarão às quartas-feiras, durante 45 minutos. Vamos abordar temas como a saúde mental, literacia financeira, menopausa, lei laboral, nutrição, parentalidade positiva e sustentabilidade e traremos para falar connosco autores ou especialistas de diversas áreas muito conhecidos.
Na LeYa, como está organizada a comunicação interna? Está sob alçada dos Recursos Humanos?
O departamento de Comunicação Interna está dentro da direção de People & Culture. É preciso fazer comunicação interna, marketing interno e tratar da atratividade da marca para que esta seja uma referência enquanto employer brand. O que queremos é que a marca seja tão reconhecidamente atrativa que as pessoas se mantenham connosco – felizes – e que apareçam mais, e isso começa de dentro para fora. Só assim se faz inbound recruitment.
Além das “RH Talks”, toda a estratégia que passa pela intranet, newsletters semanais e os elementos de comunicação associados às iniciativas e eventos de que falei fazem parte deste departamento.
As empresas portuguesas debatem-se com a escassez de talento. Na área editorial é difícil recrutar e reter talento?
A LeYa tem uma taxa de retenção elevada. A nossa taxa de turnover é de 2%. As pessoas estão felizes e tendem a ficar – sabemos isso porque medimos. Mas o mundo editorial é um bocadinho diferente. Nas áreas mais transversais – RH, marketing e financeiros –, o mercado não se comporta exatamente assim, embora a taxa de turnover seja baixíssima. A LeYa é muito atrativa. Não temos dificuldade em recrutar.
Como é desenvolvida a formação na LeYa?
Quando entrámos no grupo Infinitas Learning passámos a ter acesso a uma plataforma de formação interna e de e-learning (GoodHabitz), integrada em setembro num projeto ainda mais abrangente que é o IL Campus. Oferece toda a formação do grupo em todas as línguas e é acessível a todos os colaboradores.
Além desta formação, temos uma política e um plano de formação LeYa local que seguimos, conforme os objetivos a cumprir.
Numa editora, qual será o impacto da Inteligência Artificial (IA)?
Neste momento, estamos a tentar perceber até onde podemos ir. Estamos a trazer experts e a ter workshops de IA. Temos uma equipa transversal a trabalhar e a procurar perceber de que forma e em que moldes a IA nos pode ajudar em conteúdos, na forma de trabalhar, sobretudo na área da educação, mas diria em todos os departamentos. A preocupação é formar todas as pessoas. Vamos ter agora um grupo high level, a fazer um curso no INSEAD, por exemplo. Não vale a pena fechar os olhos à IA. A todos os níveis, em todas as operações.
Estamos numa casa que respira paixão pelos livros e por isso não poderia terminar esta entrevista sem lhe perguntar que livro está a ler ou que nos recomenda?
Eu leio vários livros ao mesmo tempo, conforme o meu estado de espírito. Recomendo vivamente a “Terra Americana”, da Jeanine Cummins e da nossa querida editora Carmen Serrano. É um livro extraordinário.
Estou a ler também “Aqui dentro faz muito barulho”, do Bruno Nogueira e do editor Francisco Camacho. Para as férias levei o “Aprender a comer”, da nutricionista Mariana Chaves e da editora super original Rita Fazenda, e o prémio LeYa “Não há pássaros aqui”, do Victor Vidal e da editora Maria do Rosário Pedreira.
Artigo publicado na edição 154 da RHmagazine, referente aos meses de setembro e outubro de 2024
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