Segundo o estudo Global Talent Trends 2019, desenvolvido pela consultora Mercer, 78% dos executivos preveem uma transformação significativa no mercado de trabalho e o processo de mudança deve centrar-se nas pessoas.
Os três anos que se avizinham serão responsáveis por uma “transformação significativa” no mercado de trabalho. A previsão é dos executivos que participaram no estudo Global Talent Trends 2019 da Mercer. Em 2018, eram 26%. Este ano, são 73%. A resposta à referida transformação surge em forma de organizações “future-fit”, mas encontra alguns obstáculos num processo que não exclui as pessoas. De acordo com a consultora, a capacidade de adequar as novas competências necessárias para o negócio e ultrapassar o cansaço provocado pela rápida mudança podem ser um entrave no progresso da transformação. Segundo os dados do estudo, apenas um em cada três executivos classifica a sua empresa como muito eficiente na mitigação dos riscos associados às pessoas.
“Ao longo dos últimos anos, as organizações passaram da antecipação à ação no que se refere à preparação do futuro do trabalho. Contudo, é crítico equilibrar os processos de mudança e implementar uma estratégia de transformação eficiente, de forma a evitar confundir as pessoas com tanta mudança, inundando-as com processos infindáveis, levando-as muitas vezes à exaustão e alienação relativamente aos valores e ao propósito da organização”, afirma Pedro Brito, partner da Mercer, em comunicado.
Pessoas e tecnologia num mercado de trabalho em transformação
Com o clima de incerteza que caracteriza, hoje, o mercado de trabalho, os colaboradores procuram estabilidade. É a segurança laboral, que encerra na sua definição a segurança emocional, que leva os profissionais a integrarem uma empresa e lá permanecerem, revela o estudo da consultora. Também a flexibilidade de horário e a preocupação da empresa com o bem-estar do colaborador contribuem para a permanência dos colaboradores na organização.
A transformação do mundo do trabalho traz com ela o redesenho das funções, como consequência da entrada das famosas inteligência artificial e automatização. E são elas que levam um em cada três colaboradores a sentirem-se preocupados com a substituição da sua função. Segundo a Mercer, é duas vezes mais provável que os colaboradores com níveis de produtividade e crescimento mais elevados descrevam o seu papel como “focado nas relações” e o seu ambiente de trabalho como “colaborativo”.
“O futuro do trabalho exige cada vez maior conectividade entre as pessoas e não apenas com tecnologia, criar um ambiente de trabalho apelativo onde as pessoas queiram estar e não apenas ir, construir uma identidade coerente com os valores e ações, estimular ligações e utilizar a informação para personalizar a experiência”, refere Pedro Brito.
O Global Talent Trends identificou quatro tendências que as empresas líderes de mercado estão a explorar em 2019: alinhamento do trabalho ao valor do futuro, desenvolvimento da ressonância da marca, curadoria da experiência de trabalho e transformação liderada pelo talento.
Alinhamento do trabalho ao valor do futuro
De acordo com os dados do estudo, 60% das empresas planeiam automatizar mais trabalho nos próximos 12 meses. Simultaneamente, os executivos apontam o redesenho das funções como a área de investimento em talento com maior potencial de retorno de investimento e 65% dos colaboradores exigem maior clarificação na definição de responsabilidades. O desafio da gestão de recursos humanos reside na construção de uma estratégia integrada e focada nas pessoas – abordagem que é implementada quatro vezes mais por empresas com elevado crescimento – e na potenciação da análise de dados para uma tomada de decisão rigorosa e alinhada com a dimensão e planos da organização. No entanto, apenas um terço das empresas tem dados fiáveis sobre o impacto no negócio das suas estratégias.
Desenvolvimento da ressonância da marca
Considerando os resultados que obteve, a Mercer avança que “o que importa para os colaboradores e pessoas que procuram emprego é a forma como as empresas gerem o seu negócio e defendem os valores da sua marca, mas nem sempre as linhas entre a marca percecionada pelo consumidor e a proposta de valor para as pessoas estão alinhadas”. Empresas com sucesso asseguram que a proposta de valor da sua marca está refletida em todos os segmentos da sua força de trabalho. É na política de compensação total de uma organização que os valores da marca podem evidenciar-se. Segundo a consultora, é quatro vezes mais provável que colaboradores com níveis de produtividade e crescimento elevados trabalhem para uma empresa que assegura equidade nas decisões de pagamento e promoção (78% vs. 18%).
Curadoria da experiência de trabalho
Uma experiência de trabalho eficaz e relevante é essencial para reter talentos. De acordo com o estudo da Mercer, é três vezes mais provável que colaboradores com níveis de produtividade e crescimento elevados trabalhem para uma organização que permita tomadas de decisão rápidas (81% vs. 26%) e que ofereça ferramentas e recursos para que estes desempenhem o seu trabalho eficientemente (82% vs. 30%). Mais de metade (56%) dos colaboradores pretendem uma formação adequada para os ajudar a desenvolver as suas competências e prepará-los para as futuras funções. Os dados do Global Talent Trends 2019 revelam que é duas vezes mais provável que empresas com elevado crescimento ofereçam uma experiência digital total aos seus colaboradores comparativamente com empresas com crescimento moderado.
Transformação liderada pelo talento
Para assegurar que o talento está no centro da mudança, os recursos humanos devem ter uma voz ativa no processo de transformação do negócio, aconselha a consultora. O estudo deste ano concluiu que 61% dos responsáveis de RH foram envolvidos no planeamento da implementação de grandes projetos de mudança e 54% envolvidos na execução dos planos. Mas só dois em cada cinco responsáveis de recursos humanos participaram na fase de produção da ideia em iniciativas de transformação. Os RH consideram a moral do colaborador como uma importante barreira para que as mudanças aconteçam. O “atrito” e a “quebra de confiança” são dois dos principais desafios para este ano.
“Estas conclusões apontam para a necessidade de desenhar os processos de transformação centrados nas pessoas e garantir melhores métricas para perceber como as pessoas estão a viver e abraçar a mudança,” conclui Pedro Brito.
O estudo Global Talent Trends 2019 da Mercer reúne as respostas de 7.300 executivos, responsáveis de recursos humanos e colaboradores de nove indústrias de dezasseis geografias.